quarta-feira , 19 junho 2019
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Livro detalha atuação de missionários de entidade brasileira em tragédias globais

Pequeno grupo treinado em metodologias e práticas de socorro, resgate e sobrevivência, que se desloca para episódios que causaram morte, sofrimento e riscos para os sobreviventes.

Quase dois anos de pesquisa minuciosa resultaram no livro “Fraternidade – Missões Humanitárias Internacionais”, verdadeiro mapa das últimas crises humanitárias que têm impactado o mundo. O lançamento foi realizado na sexta-feira, 29 de março, na sede da entidade que deu nome e conteúdo à obra.  Missões humanitárias realizadas entre 2011 e 2018 por voluntários da FFHI, no Brasil e em mais 16 países da África, América, Ásia, Europa e Oriente Médio, são o foco do trabalho da autora Ana Regina Nogueira. Os relatos devem surpreender a maioria dos brasileiros, que pouco sabem sobre o trabalho ou a existência da FFHI, instituição presente em 18 países com mais de 60 mil colaboradores pelo mundo.

O terremoto no longínquo Nepal foi o primeiro chamado para a então recém-criada missão humanitária da FFHI. Acabou ajudando a estabelecer o modelo que hoje se replica em todas as missões realizadas pela instituição. O chamado ‘modelo em rede’ envolve um pequeno grupo treinado em metodologias e práticas de socorro, resgate e sobrevivência, que se desloca para episódios que causaram morte, sofrimento e riscos para os sobreviventes.

No local, o grupo se une a outras instituições e grupos organizados, implementando meios de superar as situações encontradas, sejam elas causadas por ocorrências naturais como furacões, terremotos e enchentes, atuação humana como nos rompimentos das barragens de Mariana e Brumadinho, ou razões políticas, como guerras e crises que geram movimentações humanas.

Experiência da autora

A ação missionária não tem credo nem convicções políticas, mas um ‘chamado interno’ de humanidade, explica Ana Regina Nogueira. “Trabalhei lado a lado com o co-fundador da Fraternidade, José Trigueirinho, e depois de muitas ponderações, veio a ideia de um livro sobre as missões nos primeiros meses de 2017. Alí começou uma série de 222 entrevistas pessoais, a maioria extensa. Acredito no olho-no-olho e apostei nesse método”, recorda. 

“Clara, missionária que atua desde aquela época na Missão Permanente em Roraima, me convidou a ir até lá e coincidentemente, nessas coisas da vida, eu estava presente no dia que a FFHI assinou o acordo de cooperação com o ACNUR, o Alto Comissariado para Refugiados, da ONU. Vivi por 10 dias a vida dos missionários, no mesmo percurso diário deles. Entrevistei indígenas, voluntários e fotografei por dias inteiros os abrigos dos refugiados da Venezuela”, conta a autora. 

Ana Regina relata com emoção o processo de edição das imagens do acervo missionário, que contam toda a história e demandaram uma pesquisa envolvendo mais de 20 mil fotos. “Trigueirinho faleceu poucos dias após ter concluído a leitura. Ele  dizia que esse livro é sobre o Amor Fraterno, do amor que marca o pioneirismo desse trabalho cada vez mais intenso e vivo, dessa fraternidade entre os homens. Nos últimos dias, nós nos falávamos por telefone para que ele desse sugestões de correção. Em dado momento ele disse: ‘estou lendo linha por linha bem devagarinho, com medo de acabar…’”. 

Por fim, para compartilhar com todos, o capítulo Grécia foi escolhido como o preferido de Trigueirinho segundo a autora. “Ponto estratégico entre Europa, Ásia, Oriente Médio e África, a Grécia, com todos os problemas internos,  hoje acolhe imigrantes de mais de 100 nacionalidades, que se iludem ao sonhar com um futuro melhor.

 “Durante os preparativos, o instrutor da comunidade indicou-lhes contatar as Missionarias da Caridade, ordem católica fundada por Madre Teresa de Calcutá. Telefonaram para sua casa de Kathmandu, capital do Nepal. Elas lhes repassaram o endereço, mesmo sem entender bem quem vinha de um país que mal sabiam onde ficava. Enfim, dezoito pessoas, algumas pouco se conhecendo, embarcaram. Levavam equipamentos de resgate e, inclusive, o próprio professor de primeiros socorros. Palpitantes da vontade de viver o altruísmo e desvendar o desconhecido, cruzaram o Atlântico” – Trecho do livro extraído da Missão Nepal

O ingrediente brasileiro

A partir de 2015, o Brasil começou a assistir de perto a realidades que até então, pertenciam ao noticiário internacional. Relatos de fuga em massa e histórias que pareciam distantes de um país sem terremotos, guerras e conflitos, introduziram o termo “refugiado” ao cotidiano. Essa dimensão chegou com os milhares de venezuelanos que passaram a atravessar a fronteira de seu país com o Brasil, fugindo de uma crise humanitária sem precedentes no continente. 

Desde 2016 a FFHI está presente em Roraima com uma Missão Permanente, prestando atendimento aos refugiados venezuelanos. O livro também detalha o trabalho da FFHI, responsável por cinco abrigos em Roraima, um deles dedicado a indígenas da tribo warao, com cuidados específicos ligados à cultura e hábitos dessa etnia. Ao longo da verdadeira jornada missionária nas quase 500 páginas da publicação, a autora pincela uma contextualização histórica, permitindo uma percepção mais apurada dos acontecimentos.

A viagem literária termina no Egito, com uma missão à sede local das Irmãs de Madre Teresa de Calcutá, congregação religiosa com a qual a FFHI já trabalhou ‘ombro a ombro’ em missões a países africanos, reconhecida pelo respeito e magnitude da obra de sua fundadora, reconhecida com o Premio Nobel da Paz e canonizada pela Igreja Católica.

A expressão missionária da FFHI

Frente a frente com situações de miséria e caos, algumas ações implementadas por missionários primam pela simplicidade. São providências que poderiam ser adotadas por qualquer pessoa, lembra o coordenador de missões humanitárias da FFHI, Ricardo Baumgartner: “No livro há o  relato de uma creche, no Cairo, onde música muito alta era tocada próxima do berçário, causando agitação nos bebês. Com a chegada da Missão da FFHI, a música alta foi trocada por outra, mais tranquila. A reação dos bebês foi excelente e imediata”.

Para o gestor geral da FFHI, Frei Luciano, o livro “Fraternidade” representa um compêndio valioso de inúmeros trabalhos humanitários, inspirados na obra do escritor e filósofo José Trigueirinho, que faleceu em setembro de 2018 quando o livro Fraternidade – Missões Humanitárias Internacionais estava sendo concluído. Para Frei Luciano, a construção em rede de solidariedade forneceu a força que o momento planetário vem exigindo: “A Comunidade da Figueira originou a rede e a obra da qual fazemos parte desde os anos 1990, com ramificações em 18 países. Com a humildade intrínseca ao trabalho missionário, pudemos, com esta obra, nos enxergar como rede global e também pensar na soma dessas experiências, em relação a quais caminhos deveremos trilhar daqui para o futuro”. Para o gestor geral da entidade, o trabalho permanente da FFHI em Roraima é emblemático: “Firmamos uma parceria com a ONU, que veio até nós porque encontrou uma metodologia de atendimento humanitário em curso e em pleno funcionamento.

Fizemos uma aliança, ainda que informal, junto ao Exército brasileiro, destacado para Roraima pelo governo há exatamente um ano para ajudar a organizar o acolhimento dos refugiados e, de certa forma, manter a segurança de todos. O trabalho do Exército, da FFHI, da ONU e de todos os órgãos que foram ao encontro desses irmãos em refúgio pode ser tomado como referência humanitária, pois é por meio dessa nova rede de valores humanos que a vida de muitos está sendo preservada”, concluiu. 
Versões adicionais da obra, em inglês e espanhol, estão em fase final de produção para lançamento nas próximas semanas.

SOBRE A FRATERNIDADE – FEDERAÇÃO HUMANITÁRIA INTERNACIONAL
 

Fundada em 1990 e sediada em Carmo da Cachoeira (MG), a Fraternidade é uma rede global de caráter filosófico, cultural, humanitário, ambiental e beneficente, com mais de 60 mil voluntários espalhados pelo  mundo que trabalham pela propagação da paz. Congrega 21 associações civis, nacionais e internacionais, com grupos coligados que atuam em 18 países. Entre suas principais atividades estão missões humanitárias em situações críticas em diversas regiões do mundo, com missões realizadas em países como Etópia, Cone Sul, Turquia, Quênia, Congo, Nepal e Turquia, além das missões no sertão do Brasil.

As principais missões da Fraternidade em andamento realizam-se em Roraima e na Colômbia, em apoio a  centenas de refugiados que chegam diariamente da Venezuela. De ação independente e neutra, a Fraternidade atua sem vínculos políticos ou econômicos e é não-sectária, acolhendo todos os credos, culturas e religiões. Todas as atividades são financiadas por doações.
 

Na web:

Fraternidade




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