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No dia Internacional da Mulher, 200 garotas se reúnem para aprender a construir aplicativo

Layza (à esquerda) dá sua opinião; Geovana está ao lado, segurando o celular para gravar tudo o que a amiga diz. (foto: Reinaldo Mizutani)

A celebração do Dia Internacional da Mulher começará antes para as 200 garotas que serão recebidas neste sábado, 7 de março, no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, no interior de São Paulo. É quando elas darão o primeiro passo em uma jornada de cinco sábados dedicados a aprender como desenvolver um aplicativo. É a Technovation Summer School for Girls.

Todas elas têm entre 10 e 17 anos. A maioria, 80%, estuda em escolas públicas da região. Na lista das participantes, uma escola se destaca por ter o maior número de inscritas: 37 garotas. A jornada delas para chegar ao ICMC provavelmente terá alguns quilômetros a mais porque elas estudam em uma escola rural no distrito de Água Vermelha, localizado a cerca de 15 quilômetros do centro da cidade.

O que motivou tantas meninas a atravessar esses quilômetros para aprender mais sobre tecnologia e computação? Para responder essa pergunta, fizemos o caminho ao contrário: saímos do ICMC e fomos ao encontro delas. Veja o que a gente descobriu.

Em um bate-papo animado na manhã de quarta, 4 de março, as garotas falam o que pensam (crédito da imagem: Reinaldo Mizutani)

É diferente, é inovador – “Eu gostei bastante da ideia de ir lá, por aqui não tem muita coisa pra gente fazer e achamos que é novo e interessante”, diz a estudante Geovana Cardoso, de 16 anos. “É bom para conhecer uma nova área que pode nos inspirar e, de repente, até seguimos nisso no futuro”, completa Layza Citolino, de 15 anos.

Entusiasmada, Maria Istela Guandalini, de 13 anos, consulta a palma da mão, onde tinha anotado o nome do evento, e vai logo falando: “Technovation, né? Quem sabe eu não fico famosa com um aplicativo feito lá!”. Geovana aproveita a ideia da amiga e acrescenta: “Como a gente gosta muito de mexer com celular, com tecnologia, eu acho que vai ser uma experiência muito boa. Inventar um aplicativo não é uma coisa comum, é muito inovador. Imagina se, como ela disse, a gente fica famosa. Seria muito legal, uma grande conquista”.

Estamos todas sentadas nos bancos envolta das grandes mesas com toalhas coloridas no pátio da Escola Estadual Adail Malmegrim Gonçalves. Há poucos minutos, tudo ali estava repleto de crianças com seus pratos recheados de arroz, feijão, carne e salada. Quando o intervalo terminou, a coordenadora pedagógica Natalia de Barros Gonçalves, entrou nas salas buscando as garotas que estarão no ICMC sábado. É um bate-papo animado, que a diretora da escola, Talia Pietra Soares, acompanha sentada nas proximidades, enquanto o fotógrafo Reinaldo Mizutani, o único homem em cena, registra tudo.

É preciso motivar – Entre as 37 que estudam em Água Vermelha e se inscreveram na escola de verão, duas delas já participaram da primeira edição da Technovation Summer School for Girls no ano passado.

“Foi o melhor curso que já fiz na vida, conheci várias pessoas e fiz muitas amizades”, conta Lyandra Pereia Tangerino, que tem 13 anos. “Vocês vão aprender demais lá”, diz, incentivando as outras garotas. Quando pergunto o que mudou depois que ela participou da iniciativa, responde sem hesitar: “Eu fiquei mais madura. Eu não entendia nada de mexer no computador.”

Colega de classe de Lyandra, Nicole Vitória, que também tem 13 anos, revela que ficou curiosa depois de ouvir a amiga contar sobre a escola de verão, por isso resolveu se inscrever. Mas não foram só os relatos das duas ex-participantes que estimularam as colegas a ingressarem nessa jornada. Há um contexto singular nesta escola: o engajamento de Talia e Natalia. Elas compreenderam o que essa oportunidade poderá significar para essas garotas. É a chance de construírem uma carreira diferente da maioria das meninas da área rural da cidade, que interrompem os estudos ao final do ensino médio.

As duas não mediram esforços para motivar as meninas. Natalia, que é coordenadora pedagógica do sexto ano do ensino fundamental e do ensino médio, foi de sala em sala explicando o que era a escola de verão logo que a Diretoria Regional de Ensino de São Carlos comunicou sobre a realização da iniciativa.

Quando as inscrições online começaram, Talia e Natalia chamaram as garotas que tinham demonstrado interesse em participar e foram para o computador preencher os formulários de inscrição de cada uma. A direção conhece a realidade dessas alunas e sabe que nem todas têm computador em casa muito menos acesso à internet.

É só pra menina – Conforme o bate-papo avança, as meninas vão ficando mais à vontade e uma frase surge espontaneamente na roda: “Eles estão incluindo as mulheres nessa área que só tem homem. Isso é legal”.

Aproveito o gancho para perguntar por que isso é legal. Layza responde sem hesitar: “Pra todo lado que você vê, vão falar assim: isso é coisa de homem, você não tem que fazer isso. Agora que a USP abriu essa oportunidade pra gente vai ser até melhor, a gente vai estar lá e falar: não é só pra homem, a gente também tem direito”.

Então, a conversa ferve. Elas revelam que se sentem excluídas pelos meninos, especialmente na quadra esportiva, no momento do futebol. As vozes se multiplicam: “A gente queria outras coisas pra aprender sem ser futebol”; “Alguns homens limitam muito as mulheres”.

Lanço uma provocação: mas menina pode fazer aplicativo? É o único momento que ouço uma resposta unânime: sim, é claro! “Pode! Não só aplicativo, como outras coisas também, tudo o que tiver vontade. Nós somos livres para fazer o que a gente quiser”.

Agora, será que elas se sentiram mais estimuladas a participar dessa escola de verão porque é só para meninas? Isabelly Silva de Abreu, de 13 anos, dá sua opinião: “Não vai ter ninguém para nos criticar, falando o que deve fazer ou não deve fazer. Tem muito menino na nossa sala que fala assim: você não pode fazer isso porque é coisa de menino. A gente gostou bastante porque somos só nós.”

Layza arremata: “Foi uma ótima oportunidade para nos incentivar e chamar mais a voz feminina. Não que a gente não iria se interessar se fosse um evento misto. Porém, é importante para a gente igualar o nível porque a computação é uma área em que existem bem poucas mulheres. Então, eu acho que foi importante oferecer só para as meninas.”

Os dados oficiais servem para confirmar o que Layza diz. Enquanto o número de cursos de computação cresceu 586% nos últimos 24 anos no Brasil, o percentual de mulheres matriculadas nesses cursos caiu de 34,8% para 15,5%, de acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Considerando-se os profissionais atuantes na área em 2014, apenas 20% são do gênero feminino segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já o CNPq fez um levantamento em 2016 mostrando que mais de 80% dos mestres e doutores em computação no nosso país são do gênero masculino.

Para mudar essa realidade tão desigual, é provável que não baste o esforço dessas 200 garotas que participarão da segunda edição da Technovation Summer School for Girls no ICMC. Mas é fato que elas estão dispostas a construir um futuro bem diferente. Que a força esteja com todas elas!

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