quarta-feira , 16 outubro 2019

O deslembrado Coronel Quirino

Resta-nos, agora, dizer do Coronel Quirino, o mais esquecido dos irmãos Quirino cujos nomes se perpetuam em placas de ruas e avenida da cidade-princêsa.
Joaquim, como o pai, e filho do primeiro casamento do Major Tenente Coronel Quirino era mais velho que o seu mano Bento Quirino dos Santos, pois viera ao mundo a 15 de maio de 1820, e aquele dezessete anos após, precisamente a 18 de abril de 1837.
Segundo um escrito do velho Júlio Mesquita, na Revista do Centro de Ciências, Letras e Artes, o Joaquim Quirino dos Santos \”não nasceu rico e morreu paupérrimo\”. No entanto, ao longo de sua existência que se truncou aos 69 anos de Idade, ele foi comerciante feliz, na praça local; lavrador abastado, no Município; capitalista logo mais e, por fim, comissário na praça de Santos, negócio este no qual se afundou, quando já entrado em anos.
Na crônica da cidade, Joaquim dos Santos tem o seu nome ligado a empreendimentos vários, tais como a fundação do Teatro São Carlos, e m um?47, à Companhia Paulista de Estradas de Ferro, em 1867, e à Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, em 1872. Sabemos mais que participou, com o seu irmão Bento Quirino, da Empresa de Gás e da Companhia de Água e Esgotos.
Júlio Mesquita, no citado escrito, afirmou que o futuro Coronel Quirino como não podia deixar de acontecer, militou ativamente na política, chegando a ser prócer conspícuo do partido conservador no segundo império. Mas devemos ter em mente que conservador, ao tempo do Império no Brasil, não era propriamente um situacionista. Fazendo política francamente oposicionista quando à frente do governo os liberais. Temos documento em mão? Que comprova o oposicionismo de Joaquim Quirino dos Santos ao governo provincial, em 1852, com a denúncia feita sobre irregularidade no alistamento para as eleições convocadas para fevereiro e março daquele ano, em Campinas.
CORONEL DA GUARDA NACIONAL E DELEGADO DE POLICIA
Verdade é que, na política ou fora dela, este irmão de Bento Quirino e Francisco Quirino demonstrou belicosidade e firmeza de atitude. Foi o que na época se costumava chamar \”cabra bão\”; Podia quebrar, mas torcer é que não.
Oficial da Guarda Nacional, desde moço, Joaquim Quirino dos Santos, de promoção em promoção atingiu às culminâncias de Coronel-Comandante da milícia, em Campinas, quando cinquentão. As façanhas, porém, do Coronel Quirino, que mais perduram na memória do povo, foram as do seu tempo de Delegado de Polícia. Ao juízo de Júlio Mesquita, jamais possuiu Campinas autoridade mais ativa. Mais enérgico e também mais justiceiro que o Delegado Joaquim Quirino. No combate à jogatina desbragada invadiu bilhares, hotéis e até casas particulares de amigos, destruindo roletas, baralhos, mobílias e prendendo jogadores. Afilhadismo político nepotismo, com ele não pegava.
Conta-se que, de uma feita, dois moços bonitos, de família titular, após a prática de estripulia grossa, na cidade, deram sumiço em suas pessoas para se furtar à punição. Algum tempo depois, marcadas festas nupciais no sobrado da família dos moços desordeiros, assuntou o Coronel-Delegado e botaram na moita seus olheiros. Confirmada a presença dos tais no baile, à noite.Correu o João Quirino à Cadeia, no Largo da Matriz, armou e enfileirou toda a soldadesca de que dispunha e saiu com a procissão na rua, caminhando até o sobrado da testa, ali mesmo próximo, no Largo do Rosário.
Chegando e batendo palmas, na porta, o Coronel Quirino, os de casa vieram logo recebê-lo com um alegre convite para uma taça de champanha. Fechando a
Rança, porém, e pondo a desc si, falou secamente o Coronel Quirino, os de casa vieram logo recebê-lo com um alegre convite para uma taça de champanha. Fechando a carranca, porém, e pondo a descoberto a soldadesca atrás de si, falou secamente o Coronel delegado.
— Não entro, aqui não vim levar para a Cadeia os dois delinqüentes que aí estão dançando e folgando!…
Um grande pasmo! Depois, correria assustada de senhoras e crianças e esbravejamento dos homens. Onde já se vira uma coisa destas?. Conta-se que, presente à festa certo oficial, da Corte, que estivera na Guerra do Paraguai, todo empertigado veio lançar em rosto do Delegado que o pretendido era desaforo, atrevimento, e que o melhor era retirar-se e procurar executar a prisão no dia seguinte ou ao fim do baile.
Como única resposta, o Coronel virando-se para os milicianos que trouxera, ordenou: — Camaradas, preparar armas!
Não houve mais protestos. Inteiramente livre o corredor da entrada, com o pânico generalizado lá por dentro, eis que surge a figura respeitável de Joaquim Eeidio de Souza Aranha, futuro Marquez de Três Rios. Veio entender-se com o Coronel Quirino, a quem prometeu sob sua palavra de honra, a entrega dos dois moços desordeiros, lá na Cadeia, dali a meia hora. Em face disto, o Delegado levantou o cerco ao sobrado e se retirou com os seus homens. Também, meia hora depois, tinha ele em mãos, para meter na enxovia, os tais moços deliquentes.
Contudo, ao que rezam as crônicas do tempo e a tradição oral, não era um mau homem o Coronel Quirino. Generoso para com os necessitados, jamais abusando dos humildes, uma vez despido das funções de autoridade para o enérgico cumprimento do dever, era até alegre. inclinado a festas, dado a pandegas. O entrudo, que antecipou o carnaval, era o seu fraco. Mesmo uma semana antes dos tres dias”gordos\” da folia, ninguém, por mais respeitável que fosse, passava frente à casa do Coronel Quirino, na Rua do Comércio, sem correr o risco de receber toda a água de uma tina despejada pela janela. Até o sumamente grave Doutor Ricardo adiava; melhor dar volta e encompridar caminho, para atender qualquer doente. O Coronel Quirino era um diabo alegre!
Por causa da surra que mandou dar num cabo de cavalaria, que embriagado entrara na Estação da Paulista a cavalo, atropelando mulheres e crianças que aguardavam o trem, perdeu o Coronel Joaquim Quirino dos Santos o ensejo de se tornar Barão. O diploma já assinado pelo Imperador, acabou engavetado pelo Marechal Caxias, pelo fato de o ordenança do Coronel Quirino, que surrou o cabo cavalariano, ser soldado raso, inferior hierárquico.
Sem nenhum titulo de nobreza .e solteirão, extinguiu-se o Coronel Joaquim Quirino dos Santos a 28 de fevereiro de 1889.

Sobre Sandra Venâncio

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