www.jornalocal.com.br / Política / PF levou grampos ilegais da Lava Jato, autorizados por Moro, do escritório de Zanin

PF levou grampos ilegais da Lava Jato, autorizados por Moro, do escritório de Zanin

Manobra do juiz Bretas, cujo objetivo ao determinar a busca e apreensão no escritório e na casa era claramente intimidar o advogado. Foto: Filipe Araujo

A Polícia Federal foi certeira ao fazer a busca e apreensão, na quarta-feira, 9 de setembro, nos escritórios dos advogados Cristiano Zanin Martins e Roberto Teixeira, autorizada pelo juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara da Justiça Federal do Rio, a pedido da Lava Jato. Nada menos do que a cópia dos áudios ilegais, grampeados de forma abusiva e inconstitucional pelo ex-juiz Sérgio Moro, foram levados pelos agentes federais. Um disco rígido com as gravações é a única prova desse abuso de Moro.

Nos áudios, há conversas entre advogados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e também de Zanin com o próprio Lula. “Dá para imaginar por que a Lava Jato invadiu nosso escritório e pegou nosso material?”, questiona Cristiano Zanin, que denunciou a manobra de Bretas, cujo objetivo ao determinar a busca e apreensão no escritório e na casa era claramente intimidar o advogado.

Nada menos do que 23 dias e 14 horas de gravações, entre fevereiro e março de 2016, que estavam armazenadas num disco rígido de computador, estão agora em poder da PF, a mando de Bretas

Nada menos do que 23 dias e 14 horas de gravações, entre fevereiro e março de 2016, que estavam armazenadas num disco rígido de computador, estão agora em poder da PF. Uma das conversas grampeadas ilegalmente e recapturadas pela PF, inclusive, ocorreu em 16 de março daquele ano, quando Lula foi nomeado ministro-chefe da Casa Civil pela então presidenta Dilma Rousseff. O áudio foi vazado de maneira ilegal e abusiva para a Rede Globo de Televisão naquele mesmo dia, abrindo espaço para a comoção nacional que levou em seguida ao impeachment fraudulento da ex-presidente. Nas redes sociais, Lula ironizou: “É uma das coincidências da vida”.

Em março de 2018, a 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) determinou a destruição dos áudios, mas ao escritório de advocacia foi permitida a permanência de uma cópia. É esse material que foi recolhido por determinação de Bretas.

No ano passado, o site The Intercept Brasil revelou que Moro combinou na época com o procurador Deltan Dallagnol o vazamento do áudio. Em seguida, Moro recebeu forte reprimenda do então relator da Lava Jato no STF, ministro Teori Zavascki, que faleceu em 2018. O então juiz federal alegou, à época, que se tratava de um “equívoco” e apresentou seu “pedido de escusas”, uma praxe que manteve depois que assumiu o Ministério da Justiça, a convite de Jair Bolsonaro, depois de condenar Lula e levá-lo à prisão em 2018, abrindo caminho para a eleição do ex-capitão do ExércitoParlamentares petistas e democratas denunciaram, na época do impeachment, que Moro deveria ter sido preso, ao grampear e vazar para a mídia uma conversa da presidente da República.

Em junho do ano passado, ao prestar depoimento no Senado, o então ministro da Justiça, Sérgio Moro, disse que o grampo nos diálogos telefônicos entre Dilma Rousseff e Lula, tinham autorização. Mentira. As gravações foram feitas após o próprio Moro pedir a interrupção dos grampos, ou seja, fora do período permitido. A suspensão da captação do áudio do telefone de Lula, em que ele conversou com Dilma, foi determinada às 11h12 do 16 de março de 2016. O diálogo foi gravado às 13h32.

Um delegado comunicou o conteúdo a Moro às 15h34, mas mesmo assim Moro levantou o sigilo às 16h21 do mesmo dia. Na época, Moro até pediu desculpas ao STF, dizendo que a divulgação não teve motivação político-partidária e que “não havia reparado antes no ponto”, mas que não via relevância naquilo.

O escândalo que se seguiu ao vazamento do áudio para a Globo chegou a levar manifestantes à frente do Palácio do Planalto, na tentativa de intimidar Dilma. Lula tomou posse no dia seguinte, mas o clima para o impeachment estava armado pela traição de Michel Temer e o complô revelado por Romero Jucá na fatídica conversa com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, tornada pública em maio daquele, em que sugere um “grande acordo nacional com o Supremo e com tudo”.

Abuso

Um grupo de advogados vai pedir ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) o afastamento de Marcelo Bretas. A mobilização começou ainda na quarta-feira, após a deflagração da Operação E$quema S, que investiga supostos desvios do Sistema S feitos por escritórios de advocacia. Bretas é o juiz responsável pelas decisões da Lava Jato do Rio.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) acusou a operação de representar “mais uma clara iniciativa de criminalização da advocacia brasileira”. A nota é assinada pela Comissão Nacional de Defesa das Prerrogativas e Valorização da Advocacia e pela Procuradoria Nacional de Defesa das Prerrogativas da OAB. O conselho da OAB anunciou que vai apontar “todas as violações aos direitos e prerrogativas da advocacia” e que tomará medidas administrativas e judiciais de natureza civil e penal “contra os que se lançam e insistem em criminalizar a advocacia brasileira”.

A PF cumpriu 50 mandados de busca e apreensão, sendo alguns deles em escritórios de advocacia do Rio e de São Paulo. Entre os alvos estavam Cristiano Zanin e Roberto Teixeira, advogados de Lula. Em nota divulgada ainda na quarta-feira, o grupo Prerrogativas, formado por diversos juristas, condenou a operação policial. “A tentativa de criminalização da advocacia, a partir de delação premiada de um dos investigados, revela, mais uma vez, o caráter autoritário e ilegal que marca a atuação do sistema de justiça brasileiro nos últimos anos”, lamenta o grupo, na nota.

Da Redação do PT


Sobre Jornal Local

Veja também

Eleições 2020: TSE libera ferramenta para consulta de candidaturas

A ferramenta é atualizada toda hora à medida em que chegam solicitações de registros à …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *