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MACC traz Roseno, cujas obras foram da favela a museus internacionais

Nordestino, artista bruto e semi-analfabeto está exposto em Nova York e na Suíça, mas precisa ser redescoberto no Brasil12. Fotos Eduardo Lopes

 

 

Abre ao público nesta quarta-feira, 13 de abril, a exposição “A.R.L Vida e Obra”, que retrata a jornada pessoal e artística do fotógrafo e artista plástico Antônio Roseno de Lima, falecido em 1998. A mostra está no Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC) e pode ser vista até o dia 30 de maio, de terça a sexta-feira, das 9h às 17h. A entrada é franca. O evento tem apoio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.

Escolas interessadas em visitar a mostra podem agendar por meio do whatsapp (19) 98188.1205 com a Quanta Cultura, que está realizando a exposição inédita premiada pelo ProAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo. Nesta terça-feira, 12 de abril, duas escolas já haviam reservado: a Escola Estadual Carlos Gomes, com 600 alunos, e o Senac, com mais 800 alunos. A exposição está aberta também para escolas particulares e públicas e para interessados em geral.

Nesta terça-feira, 12 de abril, convidados, jornalistas, produtores e artistas participaram de um coquetel de abertura, que contou com a presença da secretária municipal de Cultura e Turismo, Alexandra Caprioli, do diretor de Cultura, Gabriel Rapassi e do professor doutor Geraldo Porto, curador da exposição.

A montagem no MACC apresenta mais de 60 obras do artista. O acervo está atualmente aos cuidados da Casa da Arte Brasileira, instituto que possui uma rica coleção de obras caras à cultura popular brasileira. O local abriga cerca de 500 obras de mais de 20 artistas nacionais, entre eles, além de Roseno, os nomes de Francisco Rebolo, Hélio Oiticica, Antônio Bandeira, Sergio Camargo, Tuneu, Marco do Valle, Manézinho Araújo, Heitor dos Prazeres, Mário de Oliveira e Aldo Cardarelli.

Fotos Eduardo Lopes

 

Antônio Roseno de Lima

Roseno nasceu em 22 de junho de 1926, em uma família de cinco irmãos, na cidade de Alexandria (RN), de onde saiu aos 30 anos, sem jamais fazer o caminho de volta. Veio para São Paulo deixando mulher e cinco filhos e aqui conheceu sua companheira Soledade; juntos, vendiam doces na Estação da Luz. Em 1961, aos trinta e cinco anos de idade, fez um curso de fotografia e começou a fotografar crianças, prédios, aniversários, casamentos, e suas fotos logo ganharam as nuances de seus traços.

Em 1976, mudou-se para a favela Três Marias, em Campinas, onde viveu até a sua morte, em junho de 1998. O professor Geraldo Porto, de Campinas, teve Roseno como objeto de estudo de sua dissertação de mestrado e acompanhou a sua caminhada desde 1988, quando se conheceram. Porto nos conta, em seu relato acadêmico, que Roseno “viveu durante anos naquele barraco miserável, sem luz elétrica, entre amontoados de papéis velhos, latas, desenhos, pinturas e bichos, onde também improvisava uma venda de balas e cigarros”.

 

Pintura singular

Porto e Roseno se conheceram depois de uma exposição coletiva de Natal com artistas primitivistas no Centro de Convivência Cultural de Campinas: “Fiquei tão fortemente impressionado com a singularidade de sua pintura que imediatamente desejei adquiri-las e conhecer o seu criador. Tive a nítida impressão de estar diante de um artista raro. Um dos quadros em exposição representava um carro de boi pintado sobre Duratex com esmalte sintético. As figuras desproporcionais e rígidas eram pintadas sobre um fundo vermelho com as frases pintadas ao redor: o carro de boi, condução de cem anos atrás”, conta Porto.

O professor foi a primeira pessoa a comprar um quadro de A.R.L., que, após vinte e oito anos de persistência na criação de desenhos e pinturas, jamais havia conseguido vender uma obra sua. Geraldo Porto passou, então, a divulgar o trabalho do artista, que desconhecia as formas acadêmicas de desenho e pintura e tentava, sozinho, descobrir as técnicas e as matérias de sua arte; era um outsider que pintava apenas o que gostava, à sua maneira e quase todos os dias, trabalhando em séries nas quais repetia a mesma figura inúmeras vezes, fazendo uso de materiais precários.

Em todos os seus quadros, ele anexava, com um pedaço de fita crepe, um pequeno bilhete, antes manuscrito pelas crianças e depois datilografado e xerocado, com uma mensagem que narra seu processo de criação e execução da pintura, seus materiais, trazendo, ao final, uma recomendação carinhosa ao comprador: “Para começar fazer o desenho precisa lápis, caneta, algodão, querosene, thinner, gasolina, pincel, régua, tesoura, giz, papel, soda cáustica, fogo, prego, trabalho, madeira, tinta. serrote, mesa, casa, cadeira .para fazer esse desenho fica muito caro. quem pegar esse desenho guarda com carinho. pode lavar. só não pode arranhar. fica para filhos e netos. tendo zelo atura meio século”.

Após um período de contato intenso com o universo do artista e, ao experienciar uma produção caracterizada por uma liberdade extrema, tanto em termos poéticos quanto estéticos, usando de formas e cores instigantes, impactantes, muitas vezes misturando imagem e texto, Porto pôde estabelecer, conforme colocado em sua dissertação de mestrado, que “a obra do ‘doente dos nervos’ (forma com a qual a companheira Soledade o definia) possui características próprias da ‘Art Brut’: são obras que escapam das classificações habituais da história oficial da arte, que estão fora dos movimentos artísticos, alienadas das academias de arte e das tendências e modas artísticas”.

Graças ao apadrinhamento de Geraldo Porto, A.R.L. ganhou a primeira exposição individual na Casa Triângulo, São Paulo, em 1991, seguida por “A Pintura em Campinas: O Contemporâneo”, no Centro de Informática e Cultura II, Campinas, 1992; e “Antonio Roseno de Lima”, na Cavin Morris Gallery, Nova York (Estados Unidos), 1995. No mesmo ano, a grife de roupas Fórum comprou-lhe 12 imagens para compor sua agenda anual.

Uma grande coleção das suas melhores fotografias está no Centro de Memória da Universidade Estadual de Campinas, e suas pinturas entraram no acervo de importantes museus, como a famosa “Collection de l’Art Brut”, que está em Lausanne, Suíça. Outras obras estão no Museu Haus Cajeth, em Heidelberg, na Alemanha, além de figurarem em publicações especializadas e serem comercializadas em galerias de arte, principalmente no exterior.

Quando morreu, em 1998, seus trabalhos já estavam em algumas dessas coleções, mas grande parte de sua obra acabou sendo jogada no lixo. Apesar de tamanha dimensão, o fato é que o artista bruto, nordestino, morador da favela, semi analfabeto, outsider por toda a vida, e sua história, foram se tornando praticamente desconhecidos em nosso país.

“A.R.L. Vida e Obra” faz parte de um movimento para reparar esta situação e conta também com a realização de ações educativas com a mediação de grupos provenientes de escolas. O objetivo é estimular a percepção e a compreensão das obras, além de inspirar a criação artística através de oficinas e do uso de materiais didáticos produzidos especialmente para tal.

Fotos Eduardo Lopes

Serviço

  • A.R.L Vida e Obra
  • Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC)
  • Rua Benjamin Constant, 1633 – Centro
  • Visitação de 13/04 a 30/05/2022
  • Terça a sexta das 9h às 17h
  • Entrada gratuita.

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