Advertência feita ao governador durante coletiva da Operação Poço de Lobato reacende atenção sobre uso de pedras preciosas em esquemas de lavagem de dinheiro já identificados em investigações no estado
Um áudio captado após a entrevista coletiva da Operação Poço de Lobato expôs uma conversa reservada na qual o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, chama a atenção do governador Tarcísio de Freitas para o “mercado de esmeraldas”, apontando movimento atípico e crescente no setor. O diálogo, feito à margem do evento sobre a megaoperação que mira o Grupo Refit, não integra oficialmente o caso, mas reacendeu o debate sobre o uso de pedras preciosas como instrumento de lavagem de dinheiro no país.
>> Siga o canal do Jornal Local no WhatsApp
O registro foi feito logo após a coletiva que detalhou os desdobramentos da Poço de Lobato, ação que mirou um suposto esquema de sonegação fiscal bilionária envolvendo distribuidoras e refinarias de combustíveis. No áudio, o chefe do Ministério Público paulista mostra ao governador documentos e menciona “ofertas repetidas”, indicando que o fluxo de esmeraldas com certificação estaria se intensificando. O comentário é interrompido por cumprimentos ao governador, mas o alerta ficou registrado.

Apesar de o episódio não constar entre os elementos divulgados da Poço de Lobato, operações anteriores no estado reforçam que o mercado de pedras preciosas tem sido utilizado por organizações criminosas para ocultação de recursos. O uso de gemas de alto valor, com origem difícil de rastrear e precificação instável, é um dos métodos preferidos por grupos envolvidos em narcotráfico, corrupção e fraudes tributárias, segundo investigações recentes.
Em agosto, uma ofensiva do Ministério Público paulista contra um esquema de lavagem de dinheiro que envolvia o empresário Sidney Oliveira, da Ultrafarma, e o executivo Mário Otávio Gomes, da FastShop, encontrou dois pacotes de esmeraldas na residência de Celso Éder Gonzaga de Araújo, em Alphaville. Ele e a esposa foram denunciados pelo Gedec sob a acusação de operar a movimentação de recursos ilícitos do grupo. A apreensão incluiu também mais de R$ 1 milhão em espécie e grandes quantias em dólares e euros.
Dois meses depois, em outubro, uma ação da Polícia Federal contra uma rede de apostas apontada por movimentar dinheiro do tráfico internacional localizou duas esmeraldas de grandes proporções na casa do influenciador Bruno Alexssander Souza Silva, conhecido como Buzeira. As pedras, acompanhadas de certificado de autenticidade, foram avaliadas em cerca de US$ 323 milhões — valor que chamou a atenção dos investigadores pela possível discrepância em relação ao mercado real. Carros de luxo, joias, armas e dinheiro vivo também foram achados no imóvel.
Em ambos os casos, a dinâmica é semelhante: aquisição de gemas de alto valor com emissão de laudos de procedência, seguida por circulação em circuitos financeiros paralelos. Investigadores veem esse padrão como forma de dar aparência lícita a valores oriundos de atividades criminosas — mecanismo que, segundo especialistas consultados, tende a se expandir devido à ausência de controle rígido no setor e à existência de certificadoras privadas com pouca fiscalização.
Alerta ao governador reforça suspeita sobre conexão entre fraudes fiscais e mercado de gemas
Fontes ligadas ao Ministério Público relatam que o comentário do procurador-geral não foi acidental: há preocupação com o aumento súbito de oferta de esmeraldas com laudo de autenticidade apresentadas a empresários e intermediários financeiros no estado. Investigadores agora tentam identificar se há relação entre o mercado de combustíveis — alvo da Poço de Lobato — e fluxos paralelos de pedras preciosas.
Até o momento, não há evidências públicas que conectem diretamente o Grupo Refit às operações com gemas, mas especialistas em crimes financeiros apontam que esse tipo de item costuma aparecer quando grandes esquemas de sonegação tentam “desaparecer” parte dos valores movimentados.
Além disso, operadores do setor mineral afirmam que o mercado de esmeraldas vem registrando alta incomum na procura por laudos de certificação privados nos últimos meses, especialmente para peças de alto valor, o que aumenta a possibilidade de irregularidades. Investigadores analisam padrões semelhantes aos encontrados em operações como Lava Jato, Cofre Verde e Narco Bet, nas quais gemas funcionavam como “lastro” para mascarar fortunas ilegais.




