Tratado avança apesar da resistência francesa e aprofunda disputa política dentro da Europa
A União Europeia deu nesta sexta-feira (9) o sinal verde para o acordo de livre comércio com o Mercosul, destravando um pacto negociado há mais de duas décadas e que passa a reunir um mercado estimado em 722 milhões de consumidores. A decisão foi tomada em Bruxelas pelos representantes permanentes dos Estados-membros, que autorizaram a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a assinar formalmente o tratado na próxima semana, durante cerimônia no Paraguai. A etapa seguinte, de confirmação pelos governos dos 27 países do bloco, é considerada protocolar e deve ocorrer nas próximas horas.
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O avanço ocorre em um contexto de forte tensão geopolítica e econômica. O acordo prevê a eliminação de tarifas de importação sobre 91% das mercadorias comercializadas entre os dois blocos e é tratado por Bruxelas como peça-chave para reposicionar a União Europeia em um cenário global marcado por guerras comerciais, protecionismo crescente e instabilidade diplomática. Estimativas internas apontam que as exportações europeias para a América do Sul podem crescer até 39%, com potencial de geração de cerca de 440 mil empregos no continente.

Embora o entendimento seja celebrado por países com forte perfil exportador, como Alemanha e Espanha, a aprovação aprofundou fissuras políticas internas, especialmente na França. Paris liderou a oposição ao tratado ao longo dos últimos anos, alegando riscos ao setor agrícola e concorrência desleal com produtos sul-americanos. A resistência francesa, no entanto, perdeu força após a Itália mudar de posição nos últimos dias, depois de negociar concessões com a Comissão Europeia, incluindo a antecipação de cerca de € 45 bilhões em subsídios agrícolas e ajustes na nova taxa de carbono sobre fertilizantes importados.
Sem o apoio italiano, a França não conseguiu formar a minoria de bloqueio necessária no Conselho da União Europeia. Apesar de contar com o respaldo de países como Polônia, Hungria, Irlanda e Áustria, o grupo não atingiu o critério mínimo que combina número de países e percentual da população total do bloco.
O movimento teve impacto imediato nas ruas. Agricultores franceses voltaram a protestar em Paris, levando tratores a áreas centrais da capital e ampliando a crise política enfrentada pelo governo. O acordo se tornou um dos principais focos de desgaste do presidente Emmanuel Macron, que vê a oposição explorar o tema para fragilizar ainda mais um Executivo pressionado por questões internas e pela perda de apoio no Parlamento.
O tratado também ganhou peso estratégico nos últimos meses diante da postura dos Estados Unidos. A retomada de uma agenda tarifária agressiva por Donald Trump, somada à recente intervenção americana na Venezuela e às ameaças envolvendo a Groenlândia, território autônomo ligado ao Reino da Dinamarca, reforçou dentro da União Europeia o discurso de autonomia estratégica e redução da dependência de parceiros tradicionais.
Negociado desde 1999, o acordo entre União Europeia e Mercosul passou por longos períodos de paralisia e só foi retomado com força no fim de 2024, impulsionado por uma articulação conjunta de governos sul-americanos e por setores industriais europeus interessados em ampliar mercados. O governo brasileiro teve papel central na reativação das negociações, em um momento em que o bloco sul-americano buscava reposicionamento internacional após anos de isolamento comercial.
Apesar do aval político, o caminho até a implementação ainda não está livre de obstáculos. O Parlamento Europeu precisa ratificar o texto final até abril, e a França já articula uma ofensiva para barrar o acordo nessa etapa. Paralelamente, eurodeputados discutem levar o tratado ao Tribunal de Justiça da União Europeia, o que poderia atrasar sua entrada em vigor por vários anos.
Em 2024, o comércio entre os dois blocos movimentou € 111 bilhões. A União Europeia exporta majoritariamente máquinas, produtos químicos e equipamentos de transporte, enquanto o Mercosul concentra suas vendas em produtos agrícolas, minerais, celulose e papel. Esses setores estão no centro do embate político europeu e explicam a resistência de países com forte base rural.
Pressão interna e risco de judicialização
Com a derrota no Conselho, a França aposta agora em duas frentes: mobilizar o Parlamento Europeu para rejeitar o tratado e acionar o Tribunal de Justiça da União Europeia. Caso avance, a judicialização pode atrasar o acordo por anos, mantendo a instabilidade política e econômica em torno de um dos pactos mais ambiciosos já firmados pelo bloco europeu.




