Estrada em Alagoas virou alvo da PF após indícios de desvio, superfaturamento e falhas graves na execução
A pavimentação de uma estrada em Alagoas financiada com recursos indicados pelo deputado Arthur Lira (PP-AL) entrou no centro de uma investigação federal após apresentar buracos profundos, rachaduras e desgaste precoce em trechos já concluídos. A obra, orçada em R$ 23 milhões, é investigada pela Operação Overclean, da Polícia Federal, que apura um suposto esquema de fraudes, corrupção e desvio de recursos públicos envolvendo contratos de infraestrutura.
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Do total contratado, ao menos R$ 13 milhões tiveram origem em emendas de relator, mecanismo que ficou conhecido como orçamento secreto pela falta de transparência na autoria e nos critérios de distribuição. A execução ficou a cargo da Allpha Pavimentações, empresa que teve contratos semelhantes questionados em outros estados. A obra foi paralisada no fim de 2024, após a deflagração da operação, mas imagens feitas cerca de um ano depois mostram que o asfalto aplicado já se encontra deteriorado, com falhas estruturais visíveis.

Nos trechos entregues, a pavimentação apresenta sinais de baixa durabilidade incompatíveis com uma obra recente. A Polícia Federal trabalha com a hipótese de que parte dos recursos tenha sido desviada para pagamento de propina, repetindo um padrão identificado em outros contratos da mesma empresa. Relatórios de controle também apontam indícios de irregularidades nas medições apresentadas para comprovar a execução do serviço, além da aplicação de uma camada de asfalto mais fina e de qualidade inferior à prevista em contrato, o que pode caracterizar superfaturamento.
O órgão responsável pela execução é o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas em Alagoas. O comando regional do órgão passou por mudanças políticas recentes, mas as indicações para a chefia local têm ligação direta com o grupo político de Arthur Lira. Quando o contrato foi assinado, em 2022, o Dnocs alagoano era dirigido por um aliado do deputado, substituído posteriormente por outro nome também indicado pelo mesmo grupo.
A contratação da Allpha em Alagoas teve origem em um pregão realizado na Bahia, em 2021, posteriormente investigado pela Polícia Federal. O contrato alagoano foi firmado por adesão à ata de preços desse certame, modalidade que dispensa nova licitação e permite replicar valores previamente registrados, prática que vem sendo questionada por órgãos de controle em obras financiadas com emendas parlamentares. A execução teve início em dezembro de 2023.
Mensagens apreendidas pela investigação indicam interlocução entre representantes da empresa e integrantes da estrutura do Dnocs em Alagoas sobre atrasos de pagamento e pendências documentais, reforçando a suspeita de uma relação operacional direta entre a empreiteira e gestores públicos. Arthur Lira afirma não ter qualquer participação na execução ou fiscalização da obra e sustenta que o papel do parlamentar se limita à indicação dos recursos.
O caso se insere em um contexto mais amplo. Um dos principais aliados políticos de Lira, o deputado Elmar Nascimento (União-BA), também é investigado na Overclean por suspeitas semelhantes em obras de pavimentação na Bahia, igualmente executadas pela Allpha e marcadas por rápida deterioração do asfalto. Os sócios da empresa foram presos preventivamente no fim de 2024, suspeitos de corrupção, peculato e superfaturamento.
A investigação também alcançou o entorno político de Lira. Em dezembro, uma ex-assessora direta do deputado, responsável por articular e coordenar a distribuição de emendas orçamentárias na Câmara desde 2021, foi alvo de busca e apreensão. A apuração busca identificar se houve interferência política na destinação dos recursos, na escolha da empresa executora e na blindagem institucional dos contratos.
A estrada investigada tem cerca de 14 quilômetros e recebeu R$ 13 milhões em emendas de relator. A Polícia Federal estima que o esquema envolvendo a Allpha pode ter causado prejuízos milionários aos cofres públicos, com contratos firmados por adesão a atas suspeitas, medições infladas e pagamento de propinas para garantir a liberação de recursos.




