Deputado federal vira alvo do STF em esquema bilionário de desvio de recursos públicos
A Operação Overclean, conduzida pela Polícia Federal, chegou à nona fase e aprofundou o cerco sobre o uso de emendas parlamentares no Nordeste. O novo alvo é o deputado federal Félix Mendonça Júnior (PDT-BA), quarto parlamentar investigado no inquérito que apura desvios sistemáticos de recursos públicos destinados a obras de infraestrutura que, em muitos casos, nunca saíram do papel.
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Por determinação do ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, agentes cumpriram nove mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao deputado em Brasília e na Bahia. A decisão também autorizou o bloqueio de R$ 24 milhões em contas associadas aos investigados, indicando a dimensão financeira do esquema sob apuração.

A investigação identificou o envio de milhões de reais em emendas atribuídas a Félix Mendonça Júnior para ao menos três municípios baianos: Boquira, Ibipitanga e Paratinga. Os valores somam cerca de R$ 25 milhões. Segundo a Polícia Federal, parte desses recursos teria sido desviada por meio de contratos fraudulentos, pagamentos ilegais e obras inexistentes.
Mensagens extraídas do celular de Marcelo Gomes, assessor do deputado, apreendido em junho de 2025, revelam diálogos com o empresário Evandro Baldino que tratam diretamente de repasses a prefeitos das cidades beneficiadas. As conversas mencionam transferências via PIX, valores específicos e comemorações pelo recebimento do dinheiro, sugerindo a existência de um fluxo financeiro paralelo envolvendo agentes públicos e privados.
O avanço da Overclean também escancara o rastro do chamado orçamento secreto. Em Campo Formoso, na Bahia, moradores seguem aguardando o asfaltamento de uma estrada prometida com recursos federais. Parte do dinheiro veio de uma emenda de 2021 sem identificação do autor, posteriormente vinculada a um convênio com a Codevasf. Auditorias apontaram inconsistências graves, e a obra foi paralisada. O município era administrado por Elmo Nascimento, irmão do deputado federal Elmar Nascimento, citado em relatórios da investigação.
Empreiteiras aparecem como peças centrais do esquema. A Allpha Pavimentações, responsável por obras fantasmas na Bahia, recebeu R$ 67 milhões em recursos federais nos últimos quatro anos, majoritariamente do orçamento secreto. Seus proprietários foram presos em 2024 transportando malas de dinheiro. Segundo a Polícia Federal, a Overclean apura uma movimentação total de R$ 1,4 bilhão em quatro anos.
O esquema se estende a outros estados. Em Alagoas, municípios como Rio Largo e Estrela de Alagoas receberam dezenas de milhões em emendas, mas seguem com obras inacabadas, unidades de saúde fechadas e problemas crônicos de infraestrutura. Pavimentações realizadas com recursos federais apresentaram afundamentos e falhas poucos meses após a conclusão. Parte dessas obras está ligada a emendas indicadas por deputados influentes do estado.
No Ceará, a investigação alcança repasses direcionados a cidades administradas por familiares de parlamentares, com indícios de favorecimento político e uso de empresas envolvidas em fraudes, superfaturamento e serviços mal executados. A repetição do padrão reforça a suspeita de um modelo estruturado de desvio, sustentado por emendas parlamentares, órgãos federais e construtoras de fachada.
O deputado Félix Mendonça Júnior nega irregularidades e afirma que nunca negociou a execução de emendas nem intermediou contratos. Diz colaborar com as investigações. As defesas de assessores e empresários citados não foram localizadas.
A Operação Overclean expõe não apenas casos isolados, mas um sistema de poder que transforma emendas parlamentares em moeda política, com impactos diretos sobre populações que seguem sem estrada, sem saneamento e sem serviços básicos, enquanto bilhões circulam longe do interesse público.
Retranca
Municípios citados na investigação: Boquira, Ibipitanga, Paratinga e Campo Formoso (BA); Rio Largo e Estrela de Alagoas (AL); Itarema e Acaraú (CE).




