Manobra contábil infla gastos com guias bilíngues enquanto redução de verba para segurança e trânsito provoca pânico e esmagamentos em megablocos
A Prefeitura de São Paulo, sob o comando de Ricardo Nunes (MDB), inflou o número de guias turísticos bilíngues enquanto reduziu itens essenciais de infraestrutura para o Carnaval de Rua de 2026, que registrou cenas de pânico e superlotação neste domingo (8). Apesar do discurso oficial de que 100% da operação seria custeada por patrocinadores, uma manobra contábil desmembrou os contratos para esconder que o gasto público total permanece na casa dos R$ 42 milhões. O reflexo do planejamento falho foi sentido na Rua da Consolação, onde os megablocos de Calvin Harris e Acadêmicos do Baixo Augusta provocaram tumultos, derrubada de grades e atendimentos médicos de emergência por esmagamento.
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A estratégia da gestão municipal foi retirar itens tradicionais do contrato de infraestrutura — como sinalização de trânsito e agentes de apoio — e contratá-los separadamente via SPTuris. Enquanto o investimento direto em estrutura operacional básica foi negligenciado, o custo com guias turísticos saltou de R$ 1,45 milhão em 2025 para R$ 8,7 milhões este ano.
Na prática, a prefeitura gastou mais com recepcionistas bilíngues do que com banheiros químicos ou segurança preventiva nos trajetos. O sucateamento da logística foi denunciado internamente pelo presidente da CET, Milton Roberto Persol, que admitiu em e-mail que os R$ 3,9 milhões liberados para a companhia seriam insuficientes para garantir a segurança viária dos foliões.

O resultado do subfinanciamento operacional culminou em um cenário de risco no último final de semana. Na Consolação, foliões relataram ter quase sido pisoteados, e o acesso à via precisou ser bloqueado pela Polícia Militar após a multidão derrubar grades de contenção para escapar do sufocamento. O bloco do DJ Calvin Harris foi paralisado diversas vezes devido ao volume de pessoas passando mal, enquanto o Baixo Augusta sofreu um atraso de duas horas. Mesmo diante dos incidentes, o prefeito Ricardo Nunes classificou a infraestrutura como “perfeita” e “um sucesso”, minimizando as críticas de organizadores e moradores que apontaram a inadequação de vias estreitas para o porte dos eventos contratados.
A disparidade nos números revela uma prioridade na alocação de recursos: a prefeitura contratou um efetivo de guias 19 vezes maior do que o sugerido pelo próprio estudo técnico inicial, sob o pretexto de oferecer informações turísticas. Enquanto isso, o monitoramento por câmeras do programa Smart Sampa focou na segurança pública e prisões de foragidos, mas falhou em evitar os focos de tensão e pânico gerados pelo excesso de público. A manobra contábil permite que a gestão mantenha o discurso de “investimento privado” para fins eleitorais, enquanto utiliza o Tesouro Municipal para compensar as lacunas de um modelo de patrocínio que não cobre as necessidades básicas da maior festa de rua do país.




