Vitória inédita reposiciona o país no mapa do gelo e transforma estratégia de marca em exposição histórica

Pela primeira vez em mais de cem anos de presença nos Jogos de Inverno, o Brasil ouviu seu hino no topo do pódio olímpico. O responsável foi Lucas Pinheiro Braathen, que conquistou a medalha de ouro no slalom gigante nos Jogos Olímpicos de Inverno e garantiu ao país o primeiro título da história na competição, ao defender oficialmente as cores brasileiras após mudança de nacionalidade esportiva.
<Siga o Jornal Local no canal do WhatsApp
Mais do que um feito individual, a vitória reposiciona o Brasil em um território historicamente dominado por potências do hemisfério norte. A medalha é a primeira da América Latina em Jogos de Inverno e apenas a terceira de todo o Hemisfério Sul, alterando simbolicamente o eixo tradicional Europa–América do Norte que concentra as conquistas no gelo.
Nos bastidores da conquista, uma estratégia de branding ganha destaque. A grife italiana Moncler foi responsável pelos uniformes de toda a delegação brasileira, incluindo o macacão azul-marinho com detalhes em verde e amarelo usado no pódio. Ao optar por vestir um país sem tradição em medalhas de inverno, a marca fugiu do padrão de investimento concentrado em seleções consolidadas e alto favoritismo.
A escolha ganha ainda mais relevância diante do fato de que a próxima edição dos Jogos de Inverno será sediada na Itália, berço de gigantes do luxo como Prada e Dolce & Gabbana. Nesse ambiente competitivo entre moda e esporte de alto rendimento, visibilidade internacional é ativo estratégico.
Braathen, nascido na Noruega e filho de mãe brasileira, era apontado como uma das principais promessas do esqui alpino quando anunciou aposentadoria precoce em 2023, após divergências com a federação norueguesa relacionadas a contratos de patrocínio. Um ano depois, retornou às pistas representando o Brasil, país com o qual mantém vínculos familiares e culturais.
A Moncler não limitou sua presença ao patrocínio individual. Por meio da linha técnica Grenoble, especializada em alta performance para esportes de inverno, a empresa associou sua identidade à delegação inteira. O uniforme incorporou referências discretas à bandeira brasileira, equilibrando desempenho técnico e construção simbólica de identidade nacional.
O risco existia: sem medalha, a estratégia dependeria quase exclusivamente da narrativa de representatividade e do mercado consumidor brasileiro, que demonstra crescimento no segmento premium. Com o ouro, porém, o retorno deixa de ser expectativa e se converte em marco histórico.
Ao vestir todos os atletas brasileiros justamente na edição em que o país conquista seu primeiro ouro olímpico de inverno, a Moncler transforma uma aposta fora do roteiro em protagonismo global — e associa sua marca a um dos capítulos mais improváveis da história olímpica brasileira.




