Criptomoedas são oferecidas por divulgação de conteúdo pró-Flávio Bolsonaro em projeto que usa vídeos de crianças de Uganda

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Segundo o advogado, a semelhança estaria na utilização de incentivos financeiros para estimular terceiros a distribuir conteúdo relacionado a um candidato. Foto Reprodução vídeo

Projeto Brasil 22 Token oferece tokens a participantes que compartilham material nas redes sociais; especialista em direito eleitoral aponta semelhanças com mecanismo que levou Pablo Marçal à inelegibilidade

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Um projeto denominado Brasil 22 Token passou a oferecer criptomoedas a usuários que promovam o empreendimento nas redes sociais, ao mesmo tempo em que manifesta apoio ao voto em Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República. A iniciativa, lançada na terça-feira (6), utiliza também vídeos de crianças de Uganda publicados. O caso foi divulgado nesta quinta-feira (8) pela Folha de S.Paulo e repercutido pela revista Fórum.

Segundo as informações publicadas, o projeto oferece tokens B22 por meio de um mecanismo denominado airdrop. Para participar, o usuário precisa cumprir determinadas etapas, entre elas compartilhar o projeto nas redes sociais, encaminhar o link da publicação e informar uma carteira digital para receber os ativos. O próprio site mantém uma seção intitulada “Nosso apoio ao voto 22”, referência ao número eleitoral utilizado por Flávio Bolsonaro.

Em um dos vídeos utilizados na divulgação, crianças aparecem usando camisetas com a marca B22 Token e cantando uma música relacionada ao voto no número 22. A publicação também faz referência a outros nomes ligados à campanha de Flávio Bolsonaro, entre eles Nikolas Ferreira e Pablo Marçal. O vídeo, segundo a reportagem da Folha de S.Paulo, já havia ultrapassado 1,2 milhão de visualizações.

Recompensa financeira e legislação eleitoral

A oferta de ativos digitais como recompensa pela divulgação de conteúdo político-eleitoral é o principal ponto de questionamento jurídico. A legislação eleitoral estabelece restrições a mecanismos de competição, ranqueamento ou premiação que ofereçam vantagem econômica para estimular publicações político-eleitorais em páginas, perfis ou canais na internet.

O advogado eleitoral Hélio Silveira, ouvido pela Folha de S.Paulo, comparou o funcionamento do projeto ao modelo utilizado por Pablo Marçal durante a campanha para a Prefeitura de São Paulo em 2024. Segundo o advogado, a semelhança estaria na utilização de incentivos financeiros para estimular terceiros a distribuir conteúdo relacionado a um candidato.

Silveira também afirmou que, dependendo da relação entre a estrutura empresarial responsável pelo projeto e a promoção eleitoral, o mecanismo poderia ser analisado pela Justiça Eleitoral sob a hipótese de utilização irregular de recursos privados em benefício de campanha.

Projeto diz que não tem vínculo com Flávio

O Brasil 22 Token afirma que não possui ligação oficial com Flávio Bolsonaro, com o PL ou com a campanha presidencial. O projeto sustenta que seu apoio ao voto 22 é uma manifestação própria e que a distribuição dos tokens não estaria condicionada ao voto ou à preferência eleitoral dos participantes.

A iniciativa também declara que não é oficial, não é endossada por candidato, partido ou campanha e não representa doação eleitoral.

A campanha de Flávio Bolsonaro, segundo as informações disponíveis na reportagem publicada nesta quinta-feira, ainda não havia apresentado manifestação pública sobre o projeto.

Caso Marçal

O episódio foi relacionado ao caso envolvendo Pablo Marçal durante as eleições municipais de 2024. Naquele pleito, produtores de conteúdo e apoiadores eram estimulados a divulgar trechos de vídeos do então candidato, com possibilidade de remuneração ou premiação conforme o desempenho das publicações.

Em dezembro de 2025, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) manteve a inelegibilidade de Marçal por oito anos no processo relacionado ao uso dos chamados “concursos de cortes”. A Corte reconheceu, naquele julgamento, uso indevido dos meios de comunicação social e manteve multa de R$ 420 mil por descumprimento de ordem judicial. O tribunal, porém, afastou naquela decisão condenações de primeira instância relativas a abuso de poder econômico e captação e gastos ilícitos de recursos.

Marçal posteriormente passou a participar da campanha de Flávio Bolsonaro. A aproximação é apontada como um dos elementos que fizeram com que o novo projeto fosse comparado ao modelo utilizado na campanha municipal de 2024.

A existência de semelhanças entre os mecanismos, entretanto, não significa que a Justiça Eleitoral tenha considerado o Brasil 22 Token irregular. Eventual caracterização de ilícito dependerá da apuração sobre a origem dos recursos, os responsáveis pelo projeto, a forma de distribuição dos tokens, a eventual relação com a campanha e a finalidade eleitoral das publicações.

O caso coloca no centro do debate eleitoral uma modalidade de propaganda digital que combina redes sociais, ativos digitais e conteúdo produzido fora do território brasileiro. A utilização de vídeos de crianças de Uganda também levanta questões sobre a origem e a autorização do material utilizado na divulgação, aspectos que precisam ser esclarecidos pelos responsáveis pelo projeto e, caso haja investigação, pelas autoridades competentes.

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