Juros e cortes de gastos dividem economistas diante da alta da dívida pública

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Os juros tem participação decisiva na evolução do endividamento, com possíveis consequências para os recursos destinados à saúde, à educação, à previdência e à assistência social. Foto Agencia Brasil

Endividamento bruto chegou a 82,9% do PIB em agosto de 2026; especialistas divergem sobre o peso dos juros, o ajuste fiscal e os efeitos de eventuais reduções nas despesas sociais

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A dívida bruta do governo geral atingiu 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a R$ 11,1 trilhões, em agosto de 2026, segundo dados do Banco Central (BC). O aumento do endividamento alimenta o debate sobre as medidas que o próximo governo deverá adotar para estabilizar as contas públicas, com economistas de diferentes correntes divergindo sobre o papel dos juros, das despesas primárias e dos investimentos estatais.

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Economistas de orientação liberal ou ortodoxa defendem o controle das despesas públicas e a obtenção de resultados primários positivos como instrumentos para conter o crescimento da dívida. Já pesquisadores ligados a correntes desenvolvimentistas questionam a adoção de cortes abrangentes e sustentam que o custo dos juros tem participação decisiva na evolução do endividamento, com possíveis consequências para os recursos destinados à saúde, à educação, à previdência e à assistência social.

A discussão ganhou repercussão após a revista Forbes publicar um artigo que sugere a necessidade de cortes de até R$ 450 bilhões para estabilizar a dívida brasileira, com base em estudos do Instituto Fiscal Independente (IFI), vinculado ao Senado. Durante a campanha presidencial, também foi atribuída a Flávio Bolsonaro (PL) uma proposta de redução de R$ 250 bilhões nas despesas públicas, que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou por considerar que poderia atingir benefícios sociais.

Juros respondem por parcela expressiva do endividamento

Os números do Banco Central mostram que os juros nominais do setor público consolidado somaram R$ 1,182 trilhão nos 12 meses encerrados em agosto de 2026, o equivalente a 8,86% do PIB. No mesmo período, o déficit primário acumulado foi de R$ 82,1 bilhões, ou 0,62% do PIB.

No acumulado de 2026 até agosto, a dívida bruta aumentou 4,2 pontos percentuais do PIB. De acordo com o Banco Central, os juros nominais contribuíram com 6,5 pontos percentuais para a variação, enquanto as emissões líquidas de dívida acrescentaram 1,5 ponto. O crescimento nominal do PIB e a valorização cambial atuaram em sentido contrário, reduzindo parcialmente o avanço do indicador.

Os dados mostram que os juros tiveram participação importante no crescimento da dívida, mas também registram a influência das emissões de títulos e do resultado fiscal. A contribuição de cada componente varia conforme o período analisado.

Economistas contestam cortes generalizados

A professora Simone Deos, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), avalia que a dívida pública brasileira não deve ser tratada isoladamente como evidência de risco iminente de insolvência. A economista destaca que a maior parte da dívida pública brasileira é denominada em reais, o que diferencia sua estrutura daquela de países fortemente endividados em moeda estrangeira.

O professor Fernando Henrique Lemos Rodrigues, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), também questiona a prioridade atribuída à relação entre dívida e PIB. Para ele, a análise precisa considerar as características da economia brasileira, a capacidade de arrecadação do Estado e a composição do endividamento.

Rodrigues critica a comparação direta entre as contas públicas e o orçamento doméstico. Na avaliação do professor, o Estado dispõe de instrumentos de arrecadação, financiamento e investimento que não estão disponíveis para uma família ou uma pequena empresa.

Os dois pesquisadores defendem que a busca pelo equilíbrio fiscal não deve resultar automaticamente em cortes de serviços públicos. Para essa corrente econômica, investimentos em infraestrutura, políticas sociais e atividade produtiva podem gerar renda, emprego e arrecadação, embora os efeitos dependam do desenho e da execução de cada política.

Comparação internacional exige cautela

A dívida brasileira também é comparada à de economias desenvolvidas. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) referentes a 2024, citados no debate, indicavam endividamento elevado em países como Japão, Estados Unidos, Itália, Reino Unido e Canadá. A Índia apresentava uma proporção próxima à brasileira, conforme a metodologia utilizada.

A comparação, porém, não permite concluir que níveis semelhantes de endividamento produzam os mesmos riscos em todos os países. Estrutura da dívida, moeda de emissão, custo de financiamento, crescimento econômico, arrecadação e credibilidade fiscal influenciam a capacidade de administrar os compromissos públicos.

Debate sobre a política de juros

A taxa básica de juros é outro ponto central da discussão. Economistas desenvolvimentistas argumentam que juros elevados encarecem o financiamento do Estado e favorecem os detentores de títulos públicos, ao mesmo tempo que podem restringir o crédito e o investimento privado.

Rodrigues afirma que a pressão por cortes de gastos pode favorecer a manutenção de juros altos. O professor atribui essa dinâmica à influência de instituições financeiras sobre o debate econômico e critica a vinculação da redução dos juros à obtenção de superávits primários.

Essa interpretação representa a avaliação do pesquisador e não comprova a existência de coordenação entre instituições financeiras e autoridades monetárias para manter os juros elevados.

O Banco Central, por sua vez, considera as expectativas de inflação, a atividade econômica, os riscos fiscais e outros fatores na definição da política monetária. A autoridade monetária argumenta que desequilíbrios fiscais podem pressionar a demanda, as expectativas de inflação e as condições de financiamento da economia.

A obtenção de superávit primário, por si só, não determina automaticamente uma redução da taxa básica. As decisões dependem da avaliação do conjunto de indicadores econômicos pelo Comitê de Política Monetária (Copom).

Alternativas para estabilizar a dívida

Simone Deos defende uma combinação de redução dos juros, coordenação da política cambial e avaliação da qualidade das despesas públicas. A pesquisadora considera que o uso das reservas internacionais e medidas de atuação no mercado de câmbio devem integrar o debate sobre a política econômica.

A proposta exige, entretanto, considerar os riscos de intervenções cambiais, os efeitos sobre a inflação e as condições necessárias para preservar a estabilidade financeira. Reservas internacionais também cumprem a função de proteção da economia contra choques externos, o que precisa ser levado em conta em qualquer estratégia de utilização desses recursos.

Rodrigues, por sua vez, defende o fortalecimento dos investimentos públicos e das empresas estatais como instrumentos de desenvolvimento econômico. Segundo o professor, determinadas despesas podem ampliar a atividade econômica e gerar receitas futuras, desde que os investimentos produzam resultados e sejam acompanhados de planejamento.

O debate para o próximo governo, portanto, envolve mais do que escolher entre cortar despesas ou reduzir juros. A estabilização da dívida depende da combinação entre resultado primário, custo do financiamento, crescimento econômico, arrecadação e gestão do orçamento. O desafio será definir medidas capazes de conter o endividamento sem comprometer a prestação de serviços públicos e os investimentos necessários ao desenvolvimento.

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