Depois de Breu, de 2007, um libelo contra o negror e a barbárie dos nossos dias, balé notadamente marcado pela preponderância de movimentos de chão, Rodrigo Pederneiras sentiu uma necessidade quase imperativa de transitar para polo oposto. E logo, também, por polos opostos. Acerca das polaridades intrínsecas à condição humana e do princípio de interdependência e complementaridade que rege as relações, uma crônica do antropólogo Roberto Da Matta serviu de ponto de partida para a criação de ímã pelo coreógrafo.
Suave e vital, trivial e estranho, harmônico e dissonante, o novo balé do Grupo Corpo é todo pontilhado com duos e caracterizado pela alternância constante entre o cheio e o vazio na ocupação do espaço cênico.
Com música do + 2, trio formado por Domenico, Kassin e Moreno, cenografia e iluminação de Paulo Pederneiras, e figurinos de Freusa Zechmeister, o espetáculo faz a sua estréia nacional em 5 de agosto no Teatro Alfa, São Paulo, em temporada que se estende até o dia 16.
Completa o programa, o barroco Bach, balé de 1996, com música de Marco Antônio Guimarães (Uakti) sobre a obra do alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), que há oito não é apresentado no Brasil.
O Grupo Corpo se apresenta no Teatro Alfa desde a inauguração em 1998 e abre a sua Temporada de Dança desde a primeira, em 2004. Este ano, o Alfa terá ainda as apresentações de: Cia. de Dança Débora Colker, sete apresentações do espetáculo 4 por 4, de 21 a 25 de agosto; Pina Bausch Tanztheater Wuppertal, três apresentações das coreografias Café Muller e A Sagração da Primavera, entre 24 e 26 de setembro; Ballet National de Marseille com Métamorphoses, com cenários e figurinos dos Irmãos Campana, três apresentações de 2 a 4 de outubro; Cia. de Dança Quasar, duas apresentação da nova coreografia Céu na Boca, em 17 e 18 de outubro; São Paulo Cia. de Dança, quatro apresentações que marcam a estréia da nova coreografia, ainda sem título, além de Gnawa e Polígono, entre 22 e 25 de outubro; e Ballet Preljocaj, três apresentações do espetáculo Blanche Neige, com figurinos de Jean-Paul Gaultier, de 6 a 8 de novembro.
estranhamento e beleza
Anticonvencional por excelência, o + 2 conformou-se antes como um projeto do que como um conjunto musical. Com trajetórias que se entrelaçam, Domenico Lancelotti, Kassin e Moreno Veloso reuniram-se para tocar uma ideia no mínimo peculiar: celebrar suas afinidades e diferenças através da realização de trabalhos individuais, em que os outros dois entravam como… mais dois. O projeto consistia na gravação três CDs ‘solo’. Ou seja, cada um assinaria seu disco, com repertório próprio, mas o corpo sonoro de todos os trabalhos seria fruto de uma criação conjunta. Em cinco anos, a meta estava cumprida.
Nesse período, a originalidade e a qualidade da música produzida pelo (anti)trio despertou a atenção de gente como Joe Boyd – produtor de discos de Eric Clapton, Pink Foyd, Nick Drake e 10.000 Maniacs, entre outros –, que bancou a finalização do CD inaugural do projeto, lançado pelo selo Hannibal; e David Byrne, que, com a extinção do Hannibal, adquiriu para a sua gravadora Luaka Bop os direitos do + 2. Resultado: Máquina de Escrever Música (Moreno + 2, de 2001), Sincerely Hot (Domenico + 2, de 2003) e Futurismo (Kassin + 2, de 2006) figuram (até) hoje nas prateleiras de algumas das lojas de discos mais antenadas do planeta.
Em 2007, o convite para compor a trilha do próximo balé do Corpo foi recebido por Domenico, Kassin e Moreno como uma grata surpresa. Uma oportunidade, que não estava nos planos, de arrematar, com chave de ouro, o projeto concebido em 2001, com a realização do primeiro (e só o tempo dirá se o único) trabalho autoral a levar a assinatura não apenas de um deles… mais dois, mas dos três. Ou do + 2, agora um trio, afinal.
Ao contrário dos trabalhos anteriores, integralmente povoados por canções – ainda que nada convencionais –, a trilha de ímã é 100% instrumental. Mas, tal e qual seus antecedentes, traz o pensamento musical que une seus criadores. O de aliar experimentação (busca) e apuro (rebuscamento). Colocar os recursos tecnológicos a serviço da construção de uma estética e da exploração de novas possibilidades sonoras (e não da manipulação enganosa de erros e acertos). E trabalhar com a sobreposição de timbres e texturas de instrumentos de origens e naturezas as mais diversas – como a guitarra e a ocarina (um dos instrumentos de sopro mais antigos do mundo); o balafon (o avô do xilofone) e o violoncelo; o sinth e a cuíca; o MPC e a kalimba.
O resultado é sempre um misto de estranhamento e beleza. E, no caso da trilha de ímã, trafega pela abstração (Chorume, de Moreno, tema marcado pela ausência de melodia), por temas essencialmente melódicos (Sopro, de Domenico); pela música tipicamente eletrônica (Padre Baloeiro, de Kassin); e pela utilização pouco usual dos suportes eletrônicos – como a do MPC por Domenico em Quebrando um galho, onde a bateria eletrônica é utilizada como instrumento não de programação e repetição de batidas, como no funk e no hip hop, mas de execução, com os peds acionados ao vivo. E revela influências que vão do bossanovista João Donato, ao nigeriano Fela Kuti, um ícone da música afro dos anos 70, passando pelo multiinstrumentista contemporâneo japonês Cornelius.
A trilha, de 40 minutos e 13 temas, conta com as participações de Alberto Continentino (baixo), Henrique Band (sax tenor), Marlon Sette (trombone), Altair Martins (trompete), Thiago Queiroz (sax barítono) e de três companheiros de Domenico, Kassin e Moreno na Orquestra Imperial: Stephane San Juan (percussão); Felipe Pinaud (flautas e arranjos de metais); e Bidu Cordeiro (trombone).
Manhã
A coreografia de ímã começa propositadamente no chão, com sete casais de bailarinos marcando com pés e pélvis um ritmo que sequer se insinua no tema de notas longas que abre a trilha especialmente composta pelo +2. Referência direta à área cênica que sintetiza e simboliza a coreografia de Breu, a escolha pode ser vista também como parte de uma metáfora do balé de dualidades que irá se seguir. Pois, logo o Corpo se desprenderá do chão para, nos doze temas musicais seguintes, voltar a ele uma única e brevíssima vez.
A fugacidade, aliás, dá o tom do desenho de ocupação espacial traçado para o balé por Rodrigo Pederneiras. Tudo se forma com a mesma rapidez com que se desforma (ou transforma). E nada parece se conformar completamente. Solos, duos, quartetos, quintetos, sextetos, formações maiores ou menores de grupo se constituem e se dissipam a todo momento, num jogo incessante de união e dispersão – tradução cinética da química (ou da física) perversa que faz com que os opostos se atraiam e se repilam desde o princípio dos tempos.
A vivacidade, a diversidade e o despojamento da partitura de movimentos urdida por Rodrigo inspira Paulo Pederneiras a tingir a cena de cores matinais. Com ênfase nas variações próprias do arrebol, quando o sol apenas se prenuncia e elas começam se insinuar, exibindo sua generosa paleta de tons e sobretons suaves, tênues, quase débeis.
O (anti)cenário de Paulo Pederneiras serve de suporte à iluminação cenográfica concebida por ele para o espetáculo. Para acolher melhor as flutuações de cor, um cinza claro sólido recobre o piso, a rotunda e as pernas do teatro. E ponto. O resto é luz. Uma questão técnica, no entanto, se interpunha à realização plena da ideia de criar “arrebol cenográfico”: como operar as transições sutis de cor nas passagens de cena? Com refletores convencionais de iluminação de espetáculos, não importa quantos se viesse a utilizar, simplesmente não seria possível produzir o efeito desejado. O único equipamento capaz de emitir variações de cor a partir de uma mesma fonte de luz seriam os refletores de led. Mas, estes, engatinhavam ainda no mundo dos espetáculos. A última palavra no assunto até então reunia o branco e as três cores básicas. Podia reproduzir todas as cores, mas não as passagens quase imperceptíveis de cor que Paulo pretendia.
E eis que, semanas antes da estreia de imã, fez-se a luz. Um dos maiores fabricantes de equipamento para teatro no mundo aprovou os últimos testes de um equipamento que vinha desenvolvendo e que deve revolucionar a história da iluminação de espetáculos: refletores potentíssimos dotados de leds de sete cores, capazes de produzir um leque infindável de nuances e matizes, com direito a passagens graduais. E, assim, como que por um lance de sorte, o diretor artístico do Grupo Corpo pôde, afinal, dar à luz seu arrebol, e ímã se tornou o primeiro espetáculo no mundo a fazer uso desse equipamento inovador.
Trabalhando com três gradações de cinza como uma espécie de “sobrebase”, que ora esconde e ora revela as cores estranhas e dissonantes dos elementos subpostos, Freusa Zechmeister constrói um figurino desestruturado. Em malhas soltas de formatos e cortes variados, que conferem personalidades diferenciadas aos bailarinos, ele alude à estética do vestuário íntimo, dos underwears. Camisetas soltas, com ou sem manga ou decote, bodies, sarouels, shorts, macaquinhos, meiões, cintas-liga, e, por baixo, no início apenas vagamente à mostra, mas a qualquer momento expostos, corseletes, tops, sutiãs e, também, barrigas, torsos, pernas, costas.
Como se vê, depois do breu, deu-se, afinal, a manhã.
Por Angela de Almeida – Julho/2009
Bach
Um Bach mais que barroco. Mineiro. De um azul intenso. E grafite. E dourado. Como as igrejas do ciclo do ouro, nas antigas Geraes – talhadas pelo gênio de Aleijadinho. Um Bach divinamente profanado. Que despenca de súbito dos céus para outra vez ascender às alturas. Um Bach que cantata, mas que também ciranda.
Vigésima sexta coreografia na cronologia da companhia mineira de dança, Bach estreou mundialmente em setembro de 1996 na tradicional Bienal da Dança de Lyon, arrancando dez minutos ininterruptos de aplausos.
Clássico, contemporâneo, universal, interiorano, divino, profano, solene, malemolente, Bach brota de uma criação livre e iluminada do músico Marco Antônio Guimarães, do Uakti, em torno da obra do maior compositor de todos os tempos. Bach, a primeira produção do Grupo Corpo como companhia residente da Maison de La Danse, de Lyon – condição que ocupou por três anos consecutivos.
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O GRUPO CORPO tem patrocínio da Petrobras, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
GRUPO CORPO no TEATRO ALFA – SERVIÇO
local: Teatro Alfa (R. Bento Branco de Andrade Filho, 722 – tel. 5693.4000)
datas: 5 a 9 de agosto e 12 a 16 de agosto, de quarta a domingo.
horários: quartas, quintas e sábados, 21h; sextas, 21h30; domingo, 18h
Preços: Setor I e II = R$ 90,00 – Setor III= R$ 70,00 – IV = R$ 40,00
Lotação: 1110 lugares
Duração: ímã (40m) – intervalo de 15m – Bach (40m)
Classificação etária: 12 anos
Estacionamento: Valet = R$ 20,00 – Self = R$ 12,00
Como Comprar:
Os ingressos dos espetáculos promovidos pelo Instituto Alfa de Cultura no Teatro Alfa estarão à venda sempre com 15 dias de antecedência.
Por Telefone: 5693-4000 e 0300-789-3377 (Serviço exclusivo do Teatro Alfa)
Venda efetuada com cartões de crédito (Amex, Visa, MasterCard e Diners Club), de segunda à sábado das 11h às 19h e domingos das 11h às 17h. Em dias de eventos até 1 (uma) hora antes do início dos mesmos. Os ingressos poderão ser retirados no próprio teatro no dia do espetáculo.
Ingresso Rápido – 4003.1212 – www.ingressorapido.com.br
Pessoalmente – Bilheteria do Teatro Alfa:
Venda efetuada com cartões de crédito (Amex, Visa, MasterCard, Diners Club), cartões de débito (Visa Electron e Redeshop) ou dinheiro, de segunda à sábado das 11h às 19h e domingos das 11h às 18h. Em dias de eventos até o início dos mesmos.
Site: www.teatroalfa.com.br




