Trégua digital e reuniões reservadas indicam busca por neutralidade do Centrão em 2026
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) interrompeu a ofensiva pública contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e passou a adotar um discurso mais cauteloso em relação ao governo federal, em um movimento que coincide com articulações políticas visando as eleições de outubro. Após um período marcado por críticas frequentes ao Planalto, o presidente do PP deixou de atacar o governo nas redes sociais e iniciou conversas com dirigentes petistas sobre possíveis alianças regionais, segundo apuração de bastidores políticos.
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O recuo ocorre após um ano de embates digitais. Até novembro passado, o senador havia feito ao menos 94 publicações com críticas diretas ou indiretas ao governo e a integrantes do PT. A última manifestação ocorreu em meados de novembro, quando mencionou desequilíbrio nas contas públicas. Desde então, os ataques cessaram, num movimento interpretado internamente como um acordo informal de não agressão com o Palácio do Planalto.

Centrão em reposicionamento e disputa silenciosa por alianças
Um dos principais sinais da mudança foi uma reunião realizada em janeiro, que reuniu Ciro Nogueira, o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, e o presidente nacional do PT, Edinho Silva. O encontro teve como foco cenários eleitorais estaduais e possibilidades de composições locais, especialmente em estados estratégicos do Nordeste. Do ponto de vista do governo federal, a estratégia é reduzir o risco de alinhamento desses partidos ao campo bolsonarista e, no mínimo, garantir neutralidade na disputa nacional.
Apesar da trégua pública, Ciro mantém em destaque nas redes sociais um vídeo no qual acusa o governo de incentivar ataques contra ele após o avanço de investigações da Polícia Federal envolvendo o setor de combustíveis. No mesmo contexto, apurações atingiram o Banco Master, ligado a um empresário apontado como próximo ao senador, o que mantém um ambiente de tensão latente nos bastidores, mesmo com o discurso mais moderado.
PP e União Brasil negociam a formação de uma federação partidária que, somados, reúnem mais de uma centena de deputados e uma das maiores bancadas do Senado. O agrupamento se tornou alvo simultâneo de investidas do governo Lula e de articulações ligadas ao senador Flávio Bolsonaro (PL). A tendência predominante, segundo interlocutores do Congresso, é adiar qualquer definição nacional e liberar alianças regionais conforme o contexto local.
As conversas com o PT se concentram em estados onde a legenda governista mantém influência decisiva, como Pernambuco, Ceará e Maranhão. No Ceará, por exemplo, reuniões recentes discutiram cenários que envolvem tanto a federação PP-União Brasil quanto lideranças tradicionais da política local, em um tabuleiro ainda em aberto. Não houve definição formal sobre apoios, mas as negociações indicam tentativa de recomposição de pontes rompidas no ano anterior.
O movimento de Ciro Nogueira é acompanhado com cautela por lideranças políticas, considerando seu papel central na articulação da centro-direita e o histórico de atuação como ministro-chefe da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro. A leitura predominante é que o silêncio estratégico e a reaproximação institucional fazem parte de uma reorganização mais ampla do Centrão, que busca preservar espaço e influência independentemente do desfecho da disputa presidencial.




