Ato relâmpago sobre ativos do sistema financeiro pode ter beneficiado banco ligado a André Esteves
Duas decisões aceleradas assinadas por Renato Dias de Brito Gomes, então diretor de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central, reacenderam dúvidas sobre possível favorecimento ao BTG Pactual em operações que envolvem montante próximo de R$ 11 bilhões. As medidas ocorreram no contexto das turbulências que antecederam a liquidação do Banco Master.

Gomes, que deixa o cargo após o término do mandato, ganhou projeção pública recente ao ser associado aos bastidores da queda do Master. A controvérsia atual envolve atos administrativos que teriam permitido ao BTG assumir posição privilegiada sobre ativos e carteiras oriundos de instituições em crise, durante negociações sob supervisão do Banco Central. Embora não haja comprovação de ilegalidade, os questionamentos recaem sobre o curto intervalo entre a análise técnica e a aprovação dos atos, considerados fora da rotina decisória usual.
As operações citadas ocorreram em paralelo à deterioração da carteira de crédito consignado que conectava o Master ao Banco de Brasília (BRB). O volume movimentado, estimado em cerca de R$ 12 bilhões, alimentou a investigação que motivou a liquidação e a atuação da Polícia Federal. O entorno do caso aponta que a resolução desses contratos criou janelas de oportunidade para players do mercado, entre eles o BTG, aumentando o escrutínio sobre o processo regulatório.
A presença de André Esteves, figura influente no mercado financeiro desde o período de consolidação do BTG, adiciona tensão ao debate. Analistas avaliam se redes de relacionamento institucional podem ter influenciado preferências ou prioridades na tramitação interna dos processos. A hipótese de lobby corporativo não é confirmada, mas relacionamentos prévios entre dirigentes públicos e o setor privado colocam o tema sob atenção de especialistas em governança.
No ambiente político, existe receio de impactos sobre a percepção de independência do Banco Central. A transição de quadros remanescentes da gestão anterior, a saída de Gomes e a reorganização interna da diretoria reforçam leituras divergentes: para uma ala, tratou-se de correção de rota; para outra, de substituição motivada por pressões externas.
Conexões, fluxos e portas giratórias
O episódio reacende debates sobre práticas de “porta giratória” entre reguladores e grandes instituições do setor financeiro. A movimentação de executivos para cargos estratégicos após períodos de quarentena, o fluxo de ativos ligados a carteiras em resolução e a centralidade de fundos e bancos privados em operações emergenciais formam um mosaico que pode indicar assimetria de influência.
A proximidade temporal entre decisões regulatórias e oportunidades de mercado associadas ao BTG será examinada pela auditoria interna e pode gerar requerimentos no Congresso para esclarecimentos adicionais. Enquanto isso, cresce a demanda por transparência nos critérios decisórios e por rastreamento de eventuais beneficiários indiretos das medidas adotadas no ciclo de intervenção e liquidação.




