Narrativas conflitantes envolvendo diretores do BC e cobertura da imprensa agravam crise institucional
A convocação para acareação no STF sobre o caso Banco Master abriu uma fissura pública entre alas do Banco Central e provocou uma disputa narrativa que envolve dirigentes da autarquia, setores do mercado financeiro e veículos de comunicação. O foco recai sobre decisões internas que antecederam a liquidação da instituição e sobre o papel de cada autoridade no processo.

O diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino Santos, tornou-se personagem central após reuniões técnicas com o proprietário do Master, Daniel Vorcaro, serem interpretadas como indicativo de alinhamento ao banco em crise. A reunião de 17 de novembro, realizada horas antes da prisão do empresário no Aeroporto de Guarulhos, constava em agenda institucional e integrava as tratativas finais sobre o destino do conglomerado. Essa documentação foi usada posteriormente pela defesa de Vorcaro, que alegou atuação colaborativa para buscar alternativas de capitalização, incluindo interlocuções com fundos no Oriente Médio.
No BC, a liquidação do Master foi aprovada por unanimidade pela diretoria colegiada. Apesar disso, relatos dão conta de que decisões preliminares dividiram internamente as áreas envolvidas: enquanto a Diretoria de Organização do Sistema Financeiro defendia intervenção imediata e rejeitava a venda ao BRB, a área de Fiscalização considerou cenários intermediários antes de encaminhar o voto final pela liquidação. Os desdobramentos alimentaram versões concorrentes sobre a atuação individual de diretores.
A repercussão ganhou novo contorno com críticas direcionadas a Aquino em textos publicados nos últimos dias, que exaltam o protagonismo de Renato Gomes, então responsável pela Organização do Sistema Financeiro. Os conteúdos atribuem a Gomes a identificação de fraudes em contratos consignados utilizados para operações de crédito envolvendo o BRB e o Master, e sugerem que sua posição foi determinante para barrar a venda. Ele e outros dirigentes indicados em gestões anteriores deixam o BC nesta quarta-feira (31), após exoneração oficializada no Diário Oficial da União.
Paralelamente, grupos do funcionalismo e movimentos sociais manifestaram apoio a Aquino, apontando risco de personalização de responsabilidades e transferência de tensão institucional a agentes específicos. O diretor, servidor de carreira desde 1998 e primeiro homem negro em uma diretoria do BC, será ouvido como testemunha na próxima etapa da investigação.
No Supremo, o ministro Dias Toffoli manteve a acareação apesar da contestação da Procuradoria-Geral da República e de questionamentos sobre sua realização durante o recesso. A PF conduz depoimentos para identificar contradições entre envolvidos, podendo retomar o confronto direto de versões se houver divergências significativas.
Dinheiro, influência e conexões institucionais
A crise do Master se desenvolveu paralelamente a articulações políticas para evitar a liquidação, com aproximação de Vorcaro a parlamentares do Centrão e tentativas de captação internacional de recursos, inclusive em Abu Dhabi. A carteira de consignados adquirida pelo BRB, estimada em R$ 12 bilhões, é eixo da investigação policial e pode implicar fluxos financeiros irregulares, caso se confirmem operações com lastro comprometido.
A possível movimentação de executivos do BC para o setor privado após o período de quarentena também levanta questionamentos sobre portas giratórias entre regulados e reguladores, especialmente em um ambiente de disputa entre bancos públicos, conglomerados privados e gestoras internacionais interessadas no esvaziamento ou reconfiguração do BRB. A continuidade das investigações pode revelar a extensão dessas influências no processo decisório.




