Governo avalia custos, composição e efeitos diplomáticos de eventual participação
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não decidiu se o Brasil aceitará o convite para integrar um conselho internacional voltado à busca de uma solução para a guerra na Faixa de Gaza. A definição depende de uma avaliação política e diplomática em curso no Palácio do Planalto e no Itamaraty, que envolve desde a composição do grupo até possíveis impactos financeiros e estratégicos para o país.
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No centro das discussões está a falta de clareza sobre o formato e os objetivos concretos do conselho. O governo quer saber quais países fariam parte da iniciativa, qual o peso político de cada integrante e quais posições essas nações adotam em relação ao conflito entre Israel e o Hamas. Há preocupação sobre o risco de o Brasil se associar a um fórum sem capacidade real de influência ou que reproduza alinhamentos já cristalizados no cenário internacional.

Outro ponto sensível é a possibilidade de que decisões do conselho impliquem custos diretos ou indiretos ao Brasil, seja por meio de contribuições financeiras, compromissos humanitários ampliados ou desgaste diplomático com parceiros estratégicos. A avaliação interna considera que qualquer participação precisa estar alinhada à tradição da política externa brasileira, baseada na defesa do multilateralismo, do cessar-fogo e da solução de dois Estados.
Diplomatas envolvidos nas discussões admitem que o cenário ainda é marcado por incertezas. Não há definição clara sobre o grau de poder decisório do conselho, se suas resoluções terão caráter vinculante ou apenas consultivo, nem como se dará a interlocução com organismos multilaterais já existentes. A leitura predominante é que aceitar o convite sem essas garantias pode expor o Brasil a cobranças políticas sem contrapartidas concretas.
A hesitação também reflete o momento delicado da política externa brasileira no Oriente Médio. O governo busca manter uma posição equilibrada, crítica à ofensiva militar em Gaza e, ao mesmo tempo, defensora do diálogo diplomático, evitando movimentos que possam ser interpretados como alinhamento automático a qualquer dos lados do conflito.
Por ora, a decisão permanece em aberto. O Planalto avalia que, sem informações detalhadas sobre a estrutura, os objetivos e os custos do conselho, não há base suficiente para um posicionamento definitivo. A tendência é que o Brasil só avance caso fique claro que a iniciativa terá efetividade diplomática e compatibilidade com os interesses nacionais.
A indefinição ocorre em meio a disputas internacionais sobre a condução de iniciativas paralelas à ONU para tratar do conflito em Gaza. Nos bastidores da diplomacia, há receio de que novos conselhos funcionem mais como instrumentos de pressão política do que como espaços efetivos de negociação, o que reforça a cautela brasileira antes de qualquer adesão formal.




