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Haddad: “Quem está feliz com 620 mil famílias na extrema pobreza em SP?”

Para Haddad, a gestão Dória vem sendo marcada por equívocos, não apenas econômicos, como políticos, e esses erros estão cobrando um preço ao capital político do governador, hoje esfacelado.

 

 

 

Estado mais rico da Federação, São Paulo colhe o atraso e a estagnação econômica, como o resto do país, advindos da visão míope da política de Paulo Guedes, que propicia lucros a curto prazo aos bancos, enquanto o povo passa fome. Para retomar o desenvolvimento, é necessário romper com esse pensamento, defende Fernando Haddad, pré-candidato ao governo de São Paulo pelo PT. Em entrevista ao programa Roda Viva, na noite desta segunda-feira (6), Haddad afirmou que parte dos empresários apoia Bolsonaro não porque a economia cresce, mas porque os salários estão caindo.

O que está acontecendo é que o trabalhador está perdendo e o empresário, ganhando. Essa conta não fecha no médio e longo prazo, porque você tem de ampliar o mercado consumidor. Nós estamos restringindo o mercado interno”, ponderou. “Tem prazo de validade essa política de Guedes e Bolsonaro, ela não vai funcionar”, concluiu, reiterando que os empresários devem olhar para um horizonte mais longo quando pensam na atividade econômica, porque ela terá impactos na área social. Ele defende um canal de diálogo com o setor para mudar essa situação.

“Estamos esgarçando, [há] 60 mil pessoas em situação de rua na região metropolitana de São Paulo”, advertiu. “38% dos brasileiros ganham até um salário mínimo. Se a gente não olhar para esse lado da sociedade, só olhar para a Bolsa, para o lucro, para o quanto cada um manda em dólar para fora, vamos aplaudir Bolsonaro. Isso não é construção de país, não é sustentável”, criticou.

“Ou a gente cresce todos juntos, e o empresário pode ganhar, mas desde que o trabalhador ganhe até um pouco mais, porque é ele que está na base da pirâmide, ou o modelo econômico se torna inviável muito rapidamente”. Ele citou dados da situação de penúria social, tanto em São Paulo, quanto no resto do país. “Quem é que pode estar feliz com 620 mil famílias na extrema pobreza na cidade mais rica do país? Uma cidade que hoje tem em caixa R$ 30 bilhões de reais, graças à renegociação da dívida que foi feita na minha gestão”, apontou.

“Cadê o investimento nas pessoas?”, indagou. “Qual é o problema de reivindicar um olhar para quem mais precisa hoje? É uma ofensa pedir para olhar para quem saiu pior da pandemia? , insistiu Haddad. “Quem é que pode estar feliz com 620 mil famílias na extrema pobreza na cidade mais rica do país? Uma cidade que hoje tem em caixa R$ 30 bilhões de reais, graças à renegociação da dívida que foi feita na minha gestão”.

Para Haddad, a gestão Dória vem sendo marcada por equívocos, não apenas econômicos, como políticos, e esses erros estão cobrando um preço ao capital político do governador, hoje esfacelado. “Dória fez uma inflexão antipopular, que custou caro ao PSDB, a ponto de ele, que era naturalmente uma pessoa candidata à Presidência, por governar o maior Estado da Federação, se inviabilizar completamente”, sugeriu.

 

Bolsonaro corta verba para a educação

Haddad denunciou os retrocessos na área de educação promovidos por Bolsonaro, com cortes sucessivos ao setor. “É o quarto ano de corte de verba sistemático, ele não tem dó da educação, nem da cultura, do meio ambiente, ciência e tecnologia. Bolsonaro tem um problema com tudo o que dialoga com o futuro”, denunciou o petista, lembrando ainda dos escândalos de corrupção do governo no MEC.

“Mobiliário escolar, agora mais de R$ 1 bilhão desviado, transporte escolar, compra de ônibus escolar desviada, kit robótica desviado, e por aí vai. É o quinto ministro da Educação em quatro anos. Eu fiquei sete, ininterruptamente”, declarou. Haddad alertou que o corte de ICMS proposto por Bolsonaro, hoje em tramitação no Congresso, vai retirar mais de R$ 19 bilhões de recursos da educação para estados e municípios, prejudicando ainda mais a educação básica.

 

Dívida histórica e representatividade negra na política

Haddad abordou os efeitos dos retrocessos do governo atual para a população negra e falou dos desafios para aumentar sua participação na política nacional. Ele destacou avanços do PT no âmbito do ensino superior por meio, por exemplo, do Sisu, que mudou a cara do ensino nas universidades públicas. “Hoje, para se ter uma ideia, mais de 50% dos alunos das federais são afrodescendentes. Quando eu era estudante, esse número não chegava a 5%”, observou.

“Os governos Lula e Dilma fizeram um esforço monumental para reparar, na área da educação, esse problema. Não conseguimos reparar em outras esferas, tanto econômica quanto política”, lamentou Haddad. “Há sub-representação de mulheres e negros no Parlamento, é só fazer a conta”. O ex-prefeito lembrou que, em sua gestão da capital paulista, foi aprovada a Lei de Cotas no serviço público. “[Antes], tinha dois ou três procuradores negros na história de São Paulo. Nós, em um concurso, admitimos 14”.

 

Universidades e ensino médio

Haddad criticou a política de João Dória para as universidades públicas estaduais, citando a ameaça feita pelo tucano de retirar a autonomia financeira. “No governo Quércia, as universidades públicas estaduais conseguiram autonomia financeira, [por meio de] um decreto que destina parte do ICMS, quase 10%, para Unicamp, Unesp e USP”, disse.

“Dória cogitou rever essa política, ameaçou as universidades, inclusive instalando uma CPI, sem eira nem beira, só para pressionar os reitores e os docentes”, lembrou. Haddad assegurou que irá constitucionalizar essa autonomia para que nenhum governador tente acabar com o que ele considera uma importante conquista do ensino superior no estado.

Ele reforçou a importância das escolas técnicas e lembrou de sua expansão quando era ministro da Educação no governo Lula. “Eu herdei a rede federal com 140 escolas e entreguei, sozinho, 214”, destacou. Haddad lamentou que o Centro Paula Souza esteja “debilitado” pelo abandono da atual gestão, mas que ainda pode ser referência para um novo ensino médio universal no Estado.

O pré-candidato voltou a enfatizar a necessidade de adoção do ensino médio em tempo integral, desde que com uma projeto pedagógico adequado, e apontou avanços do setor no Nordeste, durante os governos do PT.

 

Analfabetismo infantil

Haddad afirmou ainda que é necessário enfrentar o desafio de erradicar o analfabetismo de crianças de 10 anos, hoje na casa dos 50%. Ele antecipou que irá lançar um plano estadual de alfabetização que atenda os municípios no pós-pandemia. “Muitos [prefeitos] não está conscientes do nível de obstáculos que terão de superar”, frisou.

Ele lembrou que durante sua gestão no Ministério da Educação, o país obteve os melhores indicadores históricos. “Saímos de 28% para 60% de crianças com 10 anos com aprendizado adequado para a sua idade”, ressaltou.

 

Programa de governo

Haddad explicou que o PT trabalha na construção de um programa de governo para São Paulo regionalizado, para estabelecer diálogo levando-se em conta particularidades de cada cidade. “Estamos dialogando com essas regiões para saber qual é o sonho dessa região, como ele se vê projetada no futuro”.

Sua pré-candidatura também está trabalhando na ampliação das alianças, informou o petista. “Já temos o PV e o PCdoB conosco, e há uma chance grande ter o PSOL e a Rede”.

 

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