Vacância no governo expõe efeito dominó após investigações, prisão de aliado e disputa por controle político às vésperas das eleições

O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro ficou inelegível nesta segunda-feira (24) e está fora da disputa por uma vaga no Senado nas eleições de outubro. A decisão ocorre em meio ao julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que analisa acusações de abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.
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Com a saída de Castro, o comando do estado passa interinamente ao presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto, em um cenário considerado atípico e que evidencia uma crise institucional no Executivo fluminense.
A sucessão emergencial foi provocada por uma sequência de afastamentos. O ex-vice-governador Thiago Pampolha deixou o cargo após assumir função no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ). Já o presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar (União), está licenciado desde dezembro de 2025, após ser preso na Operação Unha e Carne, da Polícia Federal.
Segundo as investigações, Bacellar teria vazado informações sigilosas relacionadas ao inquérito contra Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias, apontado como intermediador no comércio ilegal de armas para o Comando Vermelho. Mensagens interceptadas embasaram decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que determinou sua prisão e afastamento da presidência da Alerj.
Pela legislação estadual, caberá agora ao presidente do Tribunal de Justiça organizar, em até dois dias, uma eleição indireta. Os 70 deputados estaduais terão prazo de 30 dias para escolher um nome que comandará o estado até as eleições de outubro.
Réu e julgamento em andamento
Cláudio Castro é réu no TSE em processo que apura supostas irregularidades em contratações realizadas pela Fundação Ceperj e pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). A ação foi movida pelo Ministério Público Eleitoral, que aponta uso da estrutura pública para obtenção de vantagem eleitoral.
Mesmo com a renúncia, o processo segue e pode resultar na confirmação da inelegibilidade. O julgamento foi retomado nesta terça-feira (24), após pedido de vista do ministro Nunes Marques. Até o momento da suspensão, o placar era de 2 votos a 0 pela cassação, com cinco votos ainda pendentes.
Além de Castro, também são investigados Thiago Pampolha, Rodrigo Bacellar e Gabriel Rodrigues Lopes, ex-presidente da Ceperj.
De acordo com a acusação, cerca de 27.665 contratações teriam sido realizadas sem amparo legal, com repasses que somam R$ 248 milhões. O Ministério Público sustenta que o modelo foi utilizado para ampliar a base eleitoral do então governador.
Bastidores, facções e disputa por poder
A sucessão atípica no governo do Rio expõe um cenário de fragilidade institucional agravado por investigações que conectam agentes públicos a esquemas paralelos e, no caso de Bacellar, a suspeitas de interferência em apurações envolvendo o crime organizado.
Nos bastidores, a inelegibilidade de Castro abre espaço para uma reconfiguração acelerada das forças políticas no estado, com impacto direto na disputa pelo Senado e no controle da máquina pública em ano eleitoral.
A eleição indireta tende a se transformar em campo de disputa estratégica entre grupos políticos que buscam manter influência até outubro. Há também avaliação de que decisões judiciais e operações policiais recentes estão sendo utilizadas como instrumentos de pressão e reorganização de poder, em um ambiente onde interesses políticos, institucionais e de segurança pública se entrelaçam.
O caso reforça a atuação do Tribunal Superior Eleitoral no endurecimento contra práticas que envolvem uso eleitoral da estrutura pública, ao mesmo tempo em que revela um Rio de Janeiro sob tensão política e institucional às vésperas de mais uma eleição decisiva.




