Governador evita encontro autorizado por Moraes e movimento escancara resistência da família Bolsonaro a qualquer sucessão fora do clã
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, adiou a visita que faria a Jair Bolsonaro no 19º Batalhão da Polícia Militar, em Brasília, onde o ex-presidente está detido. Oficialmente, o adiamento foi justificado por “motivos de agenda”. Na prática, o cancelamento foi interpretado, dentro e fora do campo bolsonarista, como um recuo calculado diante do desgaste político que o encontro poderia gerar em um momento de disputa aberta pelo comando do espólio eleitoral do ex-presidente.
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A visita estava autorizada e previamente marcada, mas passou a ser vista como um gesto de alto risco para Tarcísio. O governador vem sendo pressionado a se alinhar publicamente à estratégia da família Bolsonaro para 2026, que inclui a defesa da candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto e a tentativa de limitar qualquer projeto presidencial alternativo dentro do próprio campo da direita. O encontro com Bolsonaro, preso e politicamente fragilizado, seria menos um gesto de solidariedade e mais uma sinalização de submissão a esse arranjo.

Nos últimos dias, o tensionamento ficou explícito. Em vídeo divulgado na terça-feira (20), Eduardo Bolsonaro afirmou que Tarcísio deve disputar a reeleição em São Paulo, descartando qualquer ambição presidencial do governador. A fala foi lida como um recado direto: não há espaço para protagonismo fora da família. Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem atuado para consolidar seu nome como herdeiro natural do bolsonarismo, reforçando a ideia de que a sucessão passa exclusivamente pelo sobrenome.
Dentro desse ambiente, Tarcísio é visto como uma liderança útil, mas controlável. A desconfiança dos filhos de Bolsonaro em relação ao governador não é recente e se baseia no temor de que ele construa capital político próprio, com apoio empresarial e institucional, escapando da tutela familiar. O adiamento da visita evitou, ao menos temporariamente, um gesto que poderia selar publicamente essa hierarquia.
CLÃ, ESPÓLIO ELEITORAL E O FUTURO DA DIREITA
Com Jair Bolsonaro preso, isolado e sem horizonte jurídico claro, a reorganização do bolsonarismo passou a ser conduzida como um assunto familiar. A prioridade tem sido preservar o controle sobre o capital eleitoral acumulado desde 2018, distribuindo candidaturas e apoios de forma centralizada. Nesse desenho, aliados que não pertencem ao núcleo familiar são tolerados enquanto cumprem funções específicas, mas encontram limites claros para avançar.
O adiamento da visita de Tarcísio não encerra o conflito. Pelo contrário, indica uma tentativa de ganhar tempo em meio a um cerco político crescente. A leitura predominante é que o governador seguirá sendo pressionado a aceitar o papel que lhe foi reservado: disputar São Paulo e ajudar a manter influência regional, sem ameaçar a linha sucessória definida pelos Bolsonaro. No bolsonarismo, o critério de confiança não passa por desempenho ou viabilidade eleitoral, mas pela lealdade absoluta ao clã que controla o projeto político.




