Pressão comercial mira Macron e expõe uso político de barreiras econômicas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que pretende impor uma tarifa de 200% sobre vinhos e champanhes franceses como forma de pressionar o presidente da França, Emmanuel Macron, a aderir ao chamado “Board of Peace”, iniciativa idealizada por Trump e apresentada como um mecanismo internacional para mediação de conflitos. A declaração foi feita em Washington, no dia 19, e provocou reação cautelosa entre governos e diplomatas.
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A ameaça marca uma nova escalada na utilização de instrumentos comerciais como ferramenta direta de coerção política. O setor de vinhos e espumantes é estratégico para a economia francesa, tanto pelo volume de exportações quanto pelo peso simbólico do produto na identidade nacional. Uma tarifa desse porte praticamente inviabilizaria a entrada desses produtos no mercado norte-americano, afetando produtores, cooperativas e toda a cadeia de exportação.

Nos bastidores diplomáticos, a leitura é de que Trump tenta acelerar a adesão internacional ao conselho antes de consolidar apoio interno e externo à proposta. Convites foram enviados a dezenas de países, incluindo o Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não se posicionou oficialmente sobre a participação brasileira, e a avaliação no Itamaraty é de cautela diante da falta de regras claras, governança definida e garantias de neutralidade do órgão.
A iniciativa do “Conselho da Paz” vem sendo vista com reservas por líderes europeus, que interpretam o projeto como uma tentativa de reposicionar os Estados Unidos como árbitro central de crises internacionais, contornando organismos multilaterais já existentes. A ameaça tarifária contra a França intensifica essa percepção e reacende memórias de disputas comerciais anteriores entre Washington e a União Europeia, especialmente durante o primeiro mandato de Trump.
A retórica agressiva também expõe fissuras na relação entre Trump e Macron, que já tiveram embates públicos em temas como clima, comércio internacional e papel da Otan. Ao condicionar a retirada de tarifas à adesão política, Trump desloca o conflito do campo econômico para o diplomático, elevando o custo de uma eventual recusa francesa.
A ofensiva tarifária ocorre em um momento de reorganização do tabuleiro geopolítico internacional. O uso explícito de sanções comerciais para forçar alinhamento político sinaliza uma estratégia de pressão direta que pode gerar reações em cadeia, inclusive dentro da União Europeia. Para analistas, a ameaça contra vinhos e champanhes franceses serve como teste: medir até onde aliados históricos estão dispostos a ceder diante de um projeto ainda difuso, mas ancorado no peso econômico e político dos Estados Unidos.




