Sentença ocorre a poucos meses das eleições e intensifica a crise política no país
Por Sandra Venancio
A ex-primeira-ministra de Bangladesh, Sheikh Hasina, foi condenada à morte nesta segunda-feira (17) por crimes contra a humanidade, em um julgamento que reacende a turbulência política no país e ameaça desencadear uma nova onda de protestos. O veredito, proferido pelo Tribunal de Crimes Internacionais em Daca, responsabiliza a ex-líder pela violenta repressão às manifestações estudantis de 2024.
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A decisão, anunciada em meio a um forte esquema de segurança e sem a presença de Hasina — que está exilada na Índia desde agosto de 2024 — encerra meses de depoimentos e análises de documentos oficiais. Segundo o tribunal, há “provas suficientes” de que ela ordenou ações que resultaram em mortes e ferimentos generalizados durante as mobilizações que contestavam o sistema de cotas do governo, acusado de favorecer veteranos de guerra e excluir grande parte dos jovens do acesso ao funcionalismo público.

A repressão do movimento conhecido como Geração Z deixou mais de mil mortos e milhares de feridos, conforme estimativas da ONU. Para os juízes, os ataques contra manifestantes caracterizaram-se como sistemáticos e dirigidos contra a população civil — elementos que configuram crimes contra a humanidade.
Hasina, de 78 anos, rebateu a decisão e classificou o julgamento como politicamente motivado. Em declarações divulgadas por aliados, afirmou que não lhe foi garantido o direito a uma ampla defesa e acusou o tribunal de parcialidade. A ex-premiê reconheceu que seu governo “perdeu o controle da situação” durante as manifestações, mas negou que tenha ordenado ações premeditadas contra civis. Ela prometeu “enfrentar seus acusadores” apenas diante de uma corte que considere justa.
Durante o processo, Hasina foi representada por um defensor público indicado pelo Estado, que pediu sua absolvição e alegou ausência de provas robustas. Ela ainda pode recorrer à Suprema Corte, mas sua equipe condiciona qualquer tentativa de apelação à formação de um governo “democraticamente eleito”, afirmaram aliados.
A condenação ocorre às vésperas das eleições parlamentares previstas para fevereiro , num cenário já marcado pela tensão. O partido de Hasina, a Liga Awami, foi impedido de disputar o pleito, e especialistas temem que a sentença agrave a instabilidade social e política, incentivando novos atos de rua.
Sheikh Hasina governou Bangladesh desde 2009 e consolidou-se como uma das figuras mais influentes da Ásia. Sob seu comando, o país impulsionou a indústria têxtil e ganhou destaque econômico. Contudo, sua trajetória também foi marcada por denúncias de autoritarismo, prisões de opositores, restrições à imprensa e execuções extrajudiciais.
Filha de Sheikh Mujibur Rahman, líder da independência do país, Hasina começou sua carreira defendendo a democracia. Hoje, enfrenta sua fase mais crítica — e um julgamento que pode redefinir o futuro político de Bangladesh.




