Manutenção da taxa básica transfere renda para detentores de títulos públicos e pressiona crédito, investimento e emprego
Por Sandra Venancio – Jornal Local
A decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central de manter a taxa Selic em 15% ao ano consolida um cenário em que o custo da política monetária recai de forma direta sobre a economia real, enquanto amplia a remuneração dos detentores da dívida pública. Com a taxa básica no maior patamar desde 2006, a política de juros altos reforça a centralidade do sistema financeiro na dinâmica econômica e eleva o gasto público com juros em ritmo acelerado.
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Na prática, a Selic elevada aumenta automaticamente a remuneração de uma parcela relevante dos títulos da dívida pública federal, especialmente os papéis indexados à taxa básica. Esses títulos são usados como principal instrumento de aplicação por bancos, fundos de investimento e grandes investidores institucionais, que obtêm retornos elevados com risco reduzido, já que o pagamento é garantido pelo Tesouro Nacional.

O estoque da dívida pública brasileira supera a casa dos trilhões de reais, e sua composição faz com que decisões do Copom tenham impacto imediato sobre o orçamento federal. Estimativas adotadas no próprio debate econômico indicam que cada ponto percentual adicional da Selic acrescenta dezenas de bilhões de reais por ano às despesas com juros. Esses recursos deixam de ser direcionados a investimentos públicos, políticas sociais e infraestrutura.
Quem ganha com a Selic alta
Os principais beneficiários da manutenção dos juros em patamar elevado são instituições financeiras, fundos de investimento e gestores de grandes volumes de capital, que concentram a maior parte dos títulos públicos em circulação. Bancos utilizam esses papéis como ativos centrais de seus balanços e garantias de operações, enquanto fundos DI e multimercados conservadores ampliam ganhos sem exposição ao risco produtivo. Investidores estrangeiros também mantêm participação relevante, atraídos pelo diferencial de juros em relação a economias centrais.
Enquanto isso, setores dependentes de crédito enfrentam restrição crescente. A indústria aponta encarecimento do financiamento e adiamento de investimentos. Na construção civil, o impacto atinge o crédito imobiliário, reduz lançamentos e compromete empregos ao longo de toda a cadeia produtiva. No comércio e nos serviços, o consumo é afetado pelo aumento do custo do crédito às famílias, já pressionadas pelo endividamento.
Do ponto de vista institucional, a manutenção da Selic elevada também funciona como instrumento de sinalização do Banco Central ao mercado financeiro. A política monetária permanece orientada pela preocupação com expectativas inflacionárias e riscos fiscais, mesmo diante de indicadores que mostram desaceleração da atividade econômica e inflação em trajetória mais próxima do centro da meta nos próximos anos.
Internamente, a leitura de analistas é de que o Banco Central opera sob forte sensibilidade ao comportamento dos detentores da dívida pública, uma vez que movimentos fora do esperado pelo mercado podem gerar instabilidade cambial e aumento do custo de financiamento do próprio Estado. Esse mecanismo cria um ciclo no qual juros altos reforçam a atratividade dos títulos públicos, ampliam o gasto com juros e reduzem o espaço fiscal para políticas de estímulo ao crescimento.
O resultado é um deslocamento do eixo da economia: a remuneração do capital financeiro cresce mais rapidamente do que a renda do trabalho e o investimento produtivo. Apesar de atender às expectativas do mercado, a decisão do Copom aprofunda o debate sobre os limites sociais e econômicos de uma política monetária que mantém o Brasil entre os países com maiores juros reais do mundo.
Banco Master fazia parte de um conglomerado financeiro
Diversas estruturas relacionadas a fundos de investimento, especialmente Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e outros fundos multimercado e de participações. Esses fundos tinham nomes variados e faziam parte das atividades de captação e gestão de recursos associadas ao grupo, segundo documentos oficiais do banco.
Além disso, há registros de fundos de pensão e outros investidores institucionais que aplicaram recursos em letras financeiras e títulos ligados ao Banco Master, o que mostra que o grupo atuava de forma integrada com gestores de fundos e entidades investidoras, ainda que nem sempre sob a cobertura de proteção como a do Fundo Garantidor de Crédito.
Por outro lado, com a liquidação extrajudicial do Banco Master determinada pelo Banco Central em 2025, muitas dessas estruturas de fundos ficaram “à deriva”, incluindo cerca de 52 FIDCs sob administração ligada ao grupo, que agora dependem de assembleias e decisões para transferir administração e proteger investidores




