PF investiga voos de Flávio Bolsonaro pagos por empresas ligadas a advogado investigado no caso do INSS

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Entre os participantes da estrutura de propriedade da aeronave também estaria a Prime You, empresa associada ao banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. Foto Divulgação redes sociais

Documentos apreendidos pela Polícia Federal apontam viagens em jato executivo, acesso a conta bancária de empresa offshore e possíveis vínculos econômicos que ainda dependem de esclarecimento

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A Polícia Federal investiga viagens do senador Flávio Bolsonaro (PL) em jatos executivos cujos pagamentos são associados a empresas ligadas ao advogado Willer Tomaz, investigado na Operação Sem Desconto, que apura suspeitas de fraudes envolvendo recursos de aposentados e pensionistas do INSS. Documentos obtidos pelos investigadores registram ao menos três trechos de viagens entre Portugal e França, em abril e maio de 2025, contratados por meio da Cathedral Holdings S.A., empresa registrada na Ilha da Madeira, em Portugal, e acionista única da Rede Loto, companhia do setor de apostas.

A investigação também identificou registros que relacionam Flávio Bolsonaro à movimentação bancária de outra empresa offshore ligada a Willer Tomaz. Documentos extraídos do serviço de armazenamento iCloud do advogado indicariam que o senador constava como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holdings. Para os investigadores, o registro levanta a hipótese de participação econômica ou societária de fato do parlamentar na estrutura empresarial. A existência desse acesso, isoladamente, não comprova participação societária nem prática de irregularidade.

Viagens internacionais sob investigação

Segundo os documentos descritos na reportagem de origem, comprovantes de viagens foram encontrados no computador de Willer Tomaz durante as apurações. Um dos registros aponta um voo de Lisboa para Nice, na França, em 11 de abril de 2025, contratado junto à empresa de táxi aéreo NetJets.

Outro deslocamento ocorreu em 23 de maio daquele ano, quando Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz partiram de Cascais, em Portugal, com destino a Nice. Familiares também teriam participado das viagens, seguidas de um novo trecho aéreo para Paris.

A Polícia Federal busca esclarecer quem contratou e efetivamente pagou os voos, qual foi a origem dos recursos e se os deslocamentos tinham alguma relação com as atividades empresariais investigadas. Esses pontos são relevantes para determinar a natureza dos pagamentos e eventual existência de benefícios econômicos concedidos ao senador.

A Cathedral Holdings S.A. aparece nos documentos como responsável pela contratação dos trechos. A empresa tem entre seus integrantes Willer Tomaz, sua esposa, Flávia Oliveira Corrêa, sua irmã, Jorge Barbosa Dias e Igor Mateus Barbosa Moura, parente de Dias, conforme as informações divulgadas sobre a investigação.

A defesa de Willer, entretanto, contesta que os pagamentos tenham sido realizados pela empresa e afirma que o advogado arcou pessoalmente com as despesas.

Offshore e propriedade de aeronave

Outro eixo da apuração envolve a Alcazar Holdings, empresa registrada na Ilha da Madeira que tinha Willer Tomaz como único sócio formal. A offshore detinha participação de 33,33% na Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., apontada como proprietária do jato executivo Embraer Legacy 650, de matrícula PP-NLR.

A documentação bancária analisada pela PF indicaria Flávio Bolsonaro como “usuário master” da conta da Alcazar Holdings no Santander. Esse tipo de perfil pode permitir acesso ampliado às funções de gerenciamento da conta, mas seu alcance concreto depende das permissões concedidas pela instituição financeira e dos registros de utilização.

Os investigadores avaliam se esse vínculo operacional pode indicar participação econômica do senador na estrutura empresarial, apesar de ele não aparecer formalmente como sócio da offshore. A hipótese precisa ser confrontada com contratos, procurações, registros bancários, eventuais transferências e esclarecimentos dos envolvidos.

Entre os participantes da estrutura de propriedade da aeronave também estaria a Prime You, empresa associada ao banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. A conexão societária mencionada nos documentos não demonstra, por si só, que todos os envolvidos tenham participado de uma mesma operação irregular.

Rede Loto e autorização para operar

A Cathedral Holdings também está no centro da apuração por ser a acionista única da Rede Loto, empresa do setor de apostas que obteve autorização da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) em 25 de maio de 2023, segundo as informações apresentadas na reportagem de origem.

O despacho de autorização foi assinado por Hazenclever Cançado, então presidente da autarquia. A reportagem de origem afirma que sua indicação para o cargo foi feita por Flávio Bolsonaro. A relação entre a indicação política, a autorização empresarial e os demais vínculos descritos precisa ser examinada com base nos atos oficiais, nos critérios de licenciamento e nos documentos que registraram a decisão administrativa.

O histórico empresarial também inclui Jorge Barbosa Dias, apontado como sócio de Willer Tomaz na Rede Loto. Segundo o material divulgado, Dias respondeu a um processo por suspeitas relacionadas a jogo ilegal e lavagem de dinheiro em 2022 e foi absolvido em 2023. A absolvição deve ser considerada na descrição de seu histórico, sem que acusações anteriores sejam tratadas como condenação.

O que dizem as defesas

A defesa de Willer Tomaz afirma que os pagamentos das viagens foram feitos pessoalmente pelo advogado e que os deslocamentos foram passeios de lazer entre amigos e familiares, sem contrapartida.

Em nota, a defesa declarou que se tratou de “passeios de lazer entre amigos e suas famílias, custeados por Willer e sem contrapartida de qualquer natureza”. Também repudiou a associação do nome do advogado a práticas ilícitas e sustentou que a Cathedral é a única sócia da Rede Loto, sem participação de pessoas investigadas por jogo ilegal.

Flávio Bolsonaro afirmou que sua relação com Willer Tomaz é exclusivamente pessoal. Segundo a declaração atribuída ao senador, “associar essa afinidade pessoal a suposições de irregularidades é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos”.

As manifestações das defesas contestam a interpretação de que as relações pessoais e empresariais descritas indiquem irregularidades. A apuração deverá distinguir a existência documentada de viagens e acessos bancários das hipóteses sobre participação econômica, origem dos recursos e eventual contrapartida.

O que a investigação precisa esclarecer

O material descrito na reportagem reúne três conjuntos de informações: viagens internacionais contratadas por meio de uma empresa ligada ao advogado, registro de acesso bancário de Flávio Bolsonaro a uma offshore e conexões empresariais envolvendo a propriedade de um jato executivo e uma empresa de apostas.

Esses elementos podem orientar diligências, mas não equivalem a uma conclusão de culpa. Para estabelecer eventual responsabilidade, será necessário esclarecer quem pagou cada despesa, quais eram as permissões bancárias efetivamente atribuídas ao senador, se houve participação financeira ou societária não formalizada e se existiu alguma contrapartida relacionada às relações empresariais ou administrativas citadas.

Até que esses pontos sejam comprovados, as informações devem ser tratadas como elementos de uma investigação em andamento, com as suspeitas atribuídas à Polícia Federal e as versões das defesas registradas de forma integral e contextualizada.

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