
Sem saber que o microfone estava aberto, Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha do PL, defendeu prazo de dois para acabar com o benefício e incentivar empreendedorismo
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A campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, propôs uma regra de transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família que conseguirem emprego com carteira assinada ou iniciarem um negócio próprio. A proposta foi apresentada na segunda-feira (19) pela economista Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha, em entrevista à rádio CBN Bahia. Segundo ela, a medida pretende incentivar a autonomia financeira das famílias, mas levantou questionamentos sobre as condições para a continuidade do benefício após esse período. .
“Vai ter regra de transição de dois anos [para o Bolsa Família] para que possa abrir seu negócio, ou aceitar emprego de carteira assinada”, afirmou Daniella. Na entrevista, ela defendeu que o programa funcione como uma proteção durante a busca por melhores condições econômicas. “As pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família. Aquilo é uma proteção, mas é o início de uma jornada. Todo mundo merece sonhar com algo com mais oportunidade, dignidade”, declarou.
Segundo as informações divulgadas sobre a proposta, a transição permitiria que os beneficiários mantivessem o auxílio durante dois anos enquanto buscassem emprego formal ou desenvolvessem uma atividade empreendedora.
Após a repercussão das declarações, Flávio Bolsonaro negou que pretenda acabar com o Bolsa Família ou reduzir os benefícios. Daniella Marques também esclareceu que a intenção seria estimular a saída do programa quando houvesse condições financeiras para isso e permitir o retorno dos beneficiários que perdessem a renda. A posição divulgada posteriormente é relevante para compreender o alcance da proposta: a entrevista inicial mencionou uma transição de dois anos, mas não deve ser interpretada, isoladamente, como confirmação de que todas as famílias seriam automaticamente excluídas do programa após 24 meses, independentemente de sua situação econômica.
A discussão ocorre em um momento em que o Bolsa Família atende milhões de famílias brasileiras. Em outubro de 2026, o governo federal atualizou os valores do programa em 15,04%, elevando o benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691 por família. O reajuste foi estabelecido pelo Decreto nº 13.120 e passou a valer na folha de pagamentos de outubro. Os valores adicionais variam conforme a composição familiar e os critérios previstos na legislação.
A legislação atual já prevê mecanismos de transição para famílias cuja renda aumenta. A chamada Regra de Proteção permite que determinados beneficiários continuem recebendo parte do auxílio após conseguirem renda superior ao limite de entrada no programa. Para famílias que ingressam nessa regra a partir de julho de 2025, o prazo pode chegar a 12 meses quando há aumento de renda considerado instável, respeitados os critérios legais. Há condições específicas para rendimentos estáveis e regras anteriores preservadas para famílias que já estavam enquadradas no mecanismo.
A diferença entre o modelo atual e a proposta apresentada pela campanha está no prazo de transição defendido e nas condições para a manutenção do auxílio. Para avaliar os efeitos da mudança, será necessário conhecer os critérios de elegibilidade, as garantias para trabalhadores que perderem o emprego, as condições de retorno ao programa e os mecanismos de apoio ao empreendedorismo. Também será importante verificar como a campanha pretende tratar situações em que não há oferta de trabalho formal ou em que um pequeno negócio não gera renda suficiente para sustentar a família.
O debate coloca em discussão o papel da transferência de renda na política social brasileira e as formas de estimular a inserção profissional sem interromper a proteção de famílias ainda vulneráveis. Até que os detalhes sejam formalizados, a proposta deve ser tratada como uma diretriz apresentada pela equipe econômica da campanha, e não como uma regra já aprovada ou em vigor.
O Brasil tinha 38,8 milhões de trabalhadores informais no trimestre de junho a agosto de 2026, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE.
- Trabalhadores informais: 38,8 milhões.
- Taxa de informalidade: 37,5% da população ocupada.
- Total de pessoas ocupadas no país: 103,5 milhões.
- Trabalhadores do setor privado sem carteira assinada: cerca de 13,7 milhões.
A informalidade inclui empregados sem carteira assinada, trabalhadores por conta própria sem CNPJ e empregadores sem registro empresarial, entre outras categorias.


