
Reportagens da Revista Piauí apontam vínculos financeiros entre o senador, o advogado Willer Tomaz e empresas ligadas à Best Bet, que recebeu licença da Loterj para operar apostas no Rio de Janeiro
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A Polícia Federal solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de um inquérito para apurar se o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mantinha participação societária não declarada na Best Bet, empresa de apostas ligada ao advogado Willer Tomaz, com quem o parlamentar compartilhava poderes de acesso a uma conta bancária empresarial. A suspeita envolve uma estrutura de companhias registradas no Brasil e em Portugal, a autorização concedida pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) e movimentações financeiras que estão sob análise dos investigadores.
A relação empresarial começou a ser estruturada em janeiro de 2023, quando Tomaz criou a Cathedral Holdings, com capital de 50 mil euros e sede em Funchal, na Ilha da Madeira, em Portugal. No mês seguinte, foi constituída a Rede Loto Ltda., responsável pela marca Best Bet, com capital de R$ 1 milhão. A empresa brasileira era controlada pela Cathedral, segundo os registros apresentados pela Revista Piauí.
Em maio daquele ano, a Best Bet recebeu autorização para explorar apostas após participar de um processo de licenciamento da Loterj, durante a gestão do então governador Cláudio Castro (PL-RJ). A empresa passou a integrar o grupo de 13 operadoras autorizadas pelo órgão estadual. Em julho, a companhia começou a atuar nacionalmente, embora sua licença tivesse sido concedida pelo Rio de Janeiro. A extensão da operação seria posteriormente contestada pelo governo federal na Justiça.



Empresas registradas no mesmo endereço
Outra companhia entrou na estrutura empresarial em 2023. Tomaz criou a Alcazar Holdings, também sediada na Ilha da Madeira, além da Alcazar Brasil Ltda., registrada em São Paulo. Conforme os dados levantados pela Piauí, Cathedral e Alcazar tinham o mesmo proprietário formal, Willer Tomaz, e o mesmo administrador, Mateo Scudeler. As duas estavam registradas na sala 105 do edifício Marina Club, em Funchal.
A Revista informou que esteve no endereço em outubro e não encontrou sinais de funcionamento efetivo das empresas no local. Os registros consultados indicavam que a Cathedral tinha apenas um funcionário, enquanto a Alcazar não registrava empregados.
Os dados contábeis também apontaram movimentações que podem indicar relações financeiras entre as duas companhias. Em 2025, a Cathedral registrou crédito de 984 mil euros a receber, ante 7,8 mil euros no ano anterior. No mesmo período, a Alcazar passou de uma dívida de 8,1 mil euros para 824 mil euros.
Um auditor fiscal da Autoridade Tributária e Aduaneira de Portugal, ouvido pela revista sob anonimato, avaliou que os números são compatíveis com a possibilidade de financiamento entre as empresas. “É possível que a Cathedral tenha financiado a Alcazar, total ou parcialmente”, afirmou, segundo a publicação.
Acesso bancário de Flávio Bolsonaro
O principal elo entre a Alcazar e o senador foi revelado pelo UOL: Flávio Bolsonaro aparecia como usuário máster de uma conta da empresa no Santander, ao lado de Willer Tomaz.
Esse tipo de cadastro permite administrar o acesso aos serviços bancários digitais e, conforme as permissões concedidas, consultar extratos, cadastrar usuários e autorizar operações financeiras. Segundo as reportagens, apenas Flávio e Tomaz tinham essa condição na conta da Alcazar.
A existência desse vínculo bancário, somada às relações societárias entre Cathedral, Alcazar e Best Bet, levou a Polícia Federal a solicitar a abertura de investigação sobre a hipótese de participação não declarada do senador na empresa de apostas. A suspeita ainda depende de apuração e não equivale à comprovação de sociedade oculta ou de irregularidade criminal.
Outro dado divulgado pelo UOL diz respeito ao escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Segundo reportagem publicada em 20 de outubro de 2026, a banca faturou R$ 14 milhões entre 2023 e 2026. Parte dos pagamentos, de acordo com o veículo, teria sido direcionada à conta do Santander compartilhada com Tomaz.
O material investigativo citado pela Piauí também menciona viagens conjuntas, utilização de aeronaves particulares e movimentações bancárias entre os dois. Um relatório da Polícia Federal levantou a hipótese de que contas ligadas a Tomaz poderiam ter sido utilizadas para concentrar, movimentar e redistribuir recursos destinados a terceiros. Os valores dessas operações não foram divulgados no material.
Exclusão da conta ocorreu após decisão judicial
Um episódio ocorrido em maio de 2025 acrescentou um elemento à cronologia. Em 22 de maio daquele ano, uma funcionária de Tomaz solicitou ao Santander a retirada de Flávio Bolsonaro da condição de usuário máster da conta da Alcazar.
Na ocasião, segundo a reportagem da Piauí, o senador estava em Portugal com Tomaz. No dia seguinte, os dois viajaram com suas famílias de Cascais, em Portugal, para Nice, na França, em um jato contratado em nome da Cathedral. O pedido de exclusão não apresentou justificativa para a alteração cadastral.
Quatro meses antes, em janeiro de 2025, o ministro André Mendonça, do STF, havia decidido que a Best Bet não poderia continuar operando em todo o território nacional, restringindo sua atuação ao Rio de Janeiro. A decisão ocorreu após uma disputa judicial sobre a abrangência territorial das licenças estaduais para apostas.
O governo federal havia iniciado, em 2024, a regulamentação do setor e contestado a operação nacional de empresas licenciadas apenas pela Loterj. O órgão estadual recorreu à Justiça e obteve uma decisão favorável no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), posteriormente questionada pelo governo federal. A controvérsia chegou ao STF, que restringiu a atuação da Best Bet ao território fluminense. A empresa encerrou suas atividades em meados de 2025, conforme a publicação.
Durante esse período, Tomaz também convidou os senadores Dr. Hiran e Soraya Thronicke, respectivamente presidente e relatora da CPI das Bets, para uma reunião em seu escritório, em Brasília, sobre a atuação da Loterj. Segundo a Piauí, Cláudio Castro participou presencialmente, enquanto o então presidente da Loterj, Hazenclever Cançado, acompanhou por videochamada.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam irregularidades
Questionado pela Piauí sobre a data em que passou a ter acesso à conta da Alcazar, Flávio Bolsonaro não respondeu. O senador também não esclareceu se tinha participação societária na Best Bet ou acesso aos negócios da Cathedral.
Em manifestação anterior, após a divulgação da existência da conta bancária, Flávio afirmou que “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”.
Tomaz também contestou as informações. Segundo a declaração reproduzida pela revista, o advogado afirmou que a conta “nunca lhe pertenceu” e que “jamais criou usuário em nome do senador Flávio Bolsonaro em qualquer plataforma”.
A Piauí informou que procurou o advogado para esclarecer a relação bancária, as semelhanças contábeis entre Cathedral e Alcazar e as questões judiciais envolvendo a Best Bet, mas não recebeu resposta.
A apuração também situa a relação entre Tomaz e Flávio no contexto do financiamento e dos interesses econômicos em torno do mercado de apostas. Entre os empresários citados pela revista estão Fernando Oliveira Lima, conhecido como Fernandin OIG, ligado à 7 Games Bet, e Ernildo Júnior de Farias Santos, associado à Pix Bet. A publicação relaciona esses empresários ao apoio à candidatura presidencial do senador e à expectativa de mudanças na política federal para o setor.
Tomaz também é mencionado em investigações sobre suspeitas de irregularidades envolvendo recursos do INSS. Esse procedimento constitui uma frente distinta de apuração e, assim como a investigação sobre a Best Bet, não deve ser confundido com condenação definitiva.
O ponto central do caso permanece a esclarecer: se o acesso de Flávio Bolsonaro à conta da Alcazar decorria apenas de uma relação pessoal ou se integrava uma estrutura de participação econômica nos negócios vinculados à Best Bet. A resposta depende da análise dos registros bancários, societários e financeiros e das conclusões das autoridades responsáveis pela investigação.


