Milícia: como o crime organizado entra na vida cotidiana e onde o fenômeno é mais forte no Brasil

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A milícia, no contexto brasileiro, é uma forma de organização criminosa armada que busca controlar territórios e obter renda a partir de atividades legais e ilegais. A atuação pode envolver cobrança de valores de moradores e comerciantes, exploração de serviços, controle de imóveis e terrenos e imposição de regras pela ameaça ou pela violência. O fenômeno é particularmente documentado no Rio de Janeiro, onde pesquisadores acompanham sua expansão territorial há quase duas décadas. A palavra “milícia”, porém, não deve ser utilizada indistintamente para qualquer grupo armado. Em outros países e em diferentes períodos históricos, o termo pode designar forças compostas por civis e até reconhecidas pelo Estado. No Brasil contemporâneo, quando o assunto é segurança pública, o termo normalmente aparece associado às organizações criminosas que exercem controle territorial e exploração econômica. Quando a milícia passa a fazer parte da vida do morador A característica que diferencia a milícia de uma quadrilha dedicada exclusivamente a determinados crimes é justamente a tentativa de transformar o território em fonte permanente de renda e poder. Para o morador, isso pode significar que atividades aparentemente comuns do cotidiano passam a estar submetidas à organização criminosa. A cobrança ilegal pode atingir comerciantes, transportadores, moradores e prestadores de serviços. Dependendo do território, grupos armados podem interferir na oferta clandestina de internet e televisão, no transporte, no mercado imobiliário e em atividades comerciais. O problema não termina na cobrança de dinheiro. O controle territorial também pode significar restrição da circulação, imposição de regras, ameaças contra moradores e comerciantes e conflitos relacionados à ocupação de terrenos e imóveis. Pesquisas sobre o Rio de Janeiro também identificam a dimensão econômica do fenômeno. O domínio territorial pode funcionar como instrumento para controlar mercados e atividades urbanas, fazendo com que o crime organizado deixe de ser apenas um problema policial e passe a interferir na vida econômica e social das comunidades. É justamente aí que a milícia se torna diferente de uma simples presença armada: o objetivo é transformar o controle do território em poder econômico e social. Rio de Janeiro concentra o principal fenômeno documentado O levantamento mais recente do GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado, divulgado em dezembro de 2025 com dados referentes a 2024, estima que aproximadamente 4 milhões de pessoas viviam sob controle ou influência de grupos armados na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Isso correspondia a 34,9% da população da região. O estudo encontrou aproximadamente 201 km² sob controle ou influência das milícias, correspondentes a 49,4% da área total submetida a grupos armados na Região Metropolitana do Rio. Esse dado precisa ser lido com cuidado: ele considera conjuntamente áreas de controle e influência, enquanto o Comando Vermelho aparece à frente quando analisado apenas o controle territorial consolidado. A pesquisa também mostra que a presença miliciana sofreu retração em relação ao auge registrado nos anos anteriores. Entre 2020 e 2024, a área submetida a grupos armados caiu 7,1%, movimento associado principalmente à redução da presença das milícias e à retomada de determinadas áreas por outras organizações. Mesmo assim, o patamar de 2024 permanece muito superior ao registrado no início da série histórica. Rio de Janeiro: a Zona Oeste como principal área de concentração Na cidade do Rio de Janeiro, a Zona Oeste aparece historicamente como uma das principais áreas de atuação das milícias. No levantamento referente a 2023, o GENI/UFF e o Fogo Cruzado identificaram 118,9 km² de território da Zona Oeste submetidos ao domínio de grupos armados, dos quais 83,1% estavam sob controle das milícias. Na cidade inteira, considerando os territórios dominados por grupos armados em 2023, as milícias respondiam por 66,2% da área, enquanto o Comando Vermelho representava 20,7%, o Terceiro Comando Puro 9,3% e o Amigos dos Amigos 2,4%. A fotografia, entretanto, está mudando. O levantamento de 2025 mostra que as milícias continuam com a maior extensão territorial quando controle e influência são somados, mas o Comando Vermelho passou a concentrar a maior parcela da população submetida ao controle armado. E quais cidades têm presença de milícias? Não existe, atualmente, um ranking nacional confiável de cidades brasileiras por presença de milícias que permita colocar municípios de diferentes estados em uma mesma lista como se fossem equivalentes. Os dados mais detalhados estão concentrados no Rio de Janeiro e sua Região Metropolitana. O próprio mapa produzido pelo GENI/UFF e Fogo Cruzado trabalha com territórios, bairros, municípios e evolução histórica, justamente porque a situação pode ser completamente diferente de um bairro para outro. Na Região Metropolitana do Rio, municípios como Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo, São João de Meriti, Queimados, Japeri, Magé, Itaguaí e Seropédica aparecem na literatura e nos levantamentos sobre a atuação de grupos armados. Isso não significa que todo o território desses municípios esteja dominado por milícias. Essa ressalva é fundamental para evitar uma distorção jornalística: dizer que uma cidade possui presença de grupos armados não significa afirmar que toda a cidade esteja sob domínio de uma milícia. O que os brasileiros dizem sobre o problema Uma pesquisa nacional do DataSenado, realizada de 5 a 28 de junho de 2024 com 21.808 entrevistados, perguntou aos moradores qual era o principal problema de segurança pública em suas próprias cidades. A presença de milícias foi apontada por 3% dos brasileiros. O resultado muda significativamente entre os estados. O Rio de Janeiro registrou 11%, enquanto Mato Grosso chegou a 7%. Na outra ponta, Santa Catarina registrou 1%. Gráfico 1 — Estados onde moradores mais apontaram a presença de milícias como principal problema de segurança Rio de Janeiro       11% | ███████████ Mato Grosso            7% | ███████ Roraima                4% | ████ Bahia                  4% | ████ Piauí                  3% | ███ Rio Grande do Norte    3% | ███ Paraíba                3% | ███ Alagoas                3% | ███ Minas Gerais           3% | ███ Rio Grande do Sul      3% | ███ Distrito Federal       3% | ███ Rondônia               2% | ██ Amazonas               2% | ██ Tocantins              2% | ██ Maranhão               2% | ██ Ceará                  2% | ██ Pernambuco             2% | ██ Sergipe                2% | ██ Espírito Santo         2% | ██ São Paulo               2% | ██ Paraná                  2% | ██ Mato Grosso do Sul      2% | ██ Goiás                   2% | ██ Santa Catarina          1% | █ Fonte: DataSenado, pesquisa realizada entre 5 e 28 de junho de 2024. A pergunta era qual o principal problema de segurança na cidade do entrevistado. Os percentuais representam percepção da população, e não medição de território controlado por milícias. Há uma informação especialmente importante para a reportagem: 11% dos moradores do Rio de Janeiro apontaram a presença de milícias como principal problema de segurança, percentual significativamente superior à média nacional de 3%. Isso não significa que 11% dos cariocas vivam em território controlado por milícias. São fenômenos diferentes: a pesquisa mede percepção, enquanto o mapa GENI/UFF/Fogo Cruzado procura medir controle e influência territorial. O fenômeno não se resume à violência armada Outro dado ajuda a compreender a dimensão do problema. O estudo do GENI/UFF e Fogo Cruzado registra que, em 2024, as milícias representavam 49,4% da extensão territorial sob controle ou influência de grupos armados na Região Metropolitana do Rio. Quando analisada apenas a população sob controle direto, porém, o Comando Vermelho aparecia à frente, com aproximadamente 1,607 milhão de pessoas, ou 47,2% da população submetida ao controle armado. A diferença revela algo importante: território e população não são a mesma coisa. Uma organização pode controlar áreas extensas e pouco povoadas, enquanto outra pode dominar áreas menores com maior concentração populacional. Parece uma sutileza estatística, mas é justamente o tipo de detalhe que impede uma manchete de virar uma fábrica de desinformação. Milícia também significa poder econômico A expansão das milícias criou uma espécie de economia paralela em determinados territórios. O controle territorial pode facilitar a exploração de serviços, comércio, imóveis e terrenos. É por isso que pesquisadores tratam o fenômeno como uma questão que ultrapassa a segurança pública. O próprio GENI destaca que o controle territorial interfere em políticas públicas relacionadas a transporte, habitação, educação e cultura. O levantamento histórico mostra ainda que, entre 2007 e 2024, a área sob controle das milícias cresceu 315%. Quando são somadas áreas de controle e influência, o crescimento chegou a 501%. Ao mesmo tempo, o estudo aponta uma mudança na dinâmica recente: as milícias perderam parte do território que haviam conquistado, enquanto outras organizações passaram a disputar essas áreas. Portanto, não se trata de um mapa estático. O controle territorial muda conforme prisões, mortes de lideranças, operações policiais e guerras entre organizações criminosas. Uma questão que chega à política A dimensão política é uma das partes mais sensíveis do fenômeno. Quando uma organização criminosa consegue controlar moradores, comércio, circulação e atividades econômicas de determinado território, ela também pode criar condições para interferir na vida política local. Pesquisas sobre grupos armados no Rio já tratam o controle territorial como elemento relevante para compreender relações entre crime organizado, território e poder político. Isso não permite afirmar automaticamente que determinado político seja ligado a uma milícia. Cada acusação desse tipo exige prova específica, investigação e contraditório. O que os dados permitem afirmar é que o controle territorial cria uma situação na qual economia, segurança, moradia e política podem se cruzar. É justamente nessa interseção que uma investigação jornalística precisa avançar. O mapa da milícia no Brasil ainda é incompleto Existe uma dificuldade importante para uma reportagem nacional: o Brasil não possui um sistema único que produza, para todas as cidades, um mapa comparável de territórios sob controle de milícias. O levantamento mais estruturado é o realizado no Rio de Janeiro pelo GENI/UFF e pelo Fogo Cruzado, que utiliza denúncias do Disque-Denúncia, informações georreferenciadas e validação com imprensa e literatura especializada. A série histórica permite acompanhar a evolução desde 2007. O que os números mostram Brasil: 3% apontaram a presença de milícias como principal problema de segurança. Rio de Janeiro: 11% fizeram essa indicação, o maior percentual estadual apresentado pelo DataSenado. Região Metropolitana do Rio: cerca de 4 milhões de pessoas estavam sob controle ou influência de grupos armados em 2024. Milícias: respondiam por 49,4% da área sob controle ou influência de grupos armados na região, cerca de 201 km². Zona Oeste do Rio: em 2023, 83,1% da área dominada por grupos armados estava sob controle das milícias. Foto Fernando Frazão/Agencia Brasil

Grupos milicianos não atuam apenas com armas e disputa territorial. No Rio de Janeiro, pesquisas mostram uma estrutura que interfere em serviços, comércio, imóveis e circulação de moradores; dados nacionais indicam que a percepção do problema varia bastante entre os estados.

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Por Sandra Venancio – Jornal Local

A milícia, no contexto brasileiro, é uma forma de organização criminosa armada que busca controlar territórios e obter renda a partir de atividades legais e ilegais. A atuação pode envolver cobrança de valores de moradores e comerciantes, exploração de serviços, controle de imóveis e terrenos e imposição de regras pela ameaça ou pela violência. O fenômeno é particularmente documentado no Rio de Janeiro, onde pesquisadores acompanham sua expansão territorial há quase duas décadas.

A palavra “milícia”, porém, não deve ser utilizada indistintamente para qualquer grupo armado. Em outros países e em diferentes períodos históricos, o termo pode designar forças compostas por civis e até reconhecidas pelo Estado. No Brasil contemporâneo, quando o assunto é segurança pública, o termo normalmente aparece associado às organizações criminosas que exercem controle territorial e exploração econômica.

Quando a milícia passa a fazer parte da vida do morador

A característica que diferencia a milícia de uma quadrilha dedicada exclusivamente a determinados crimes é justamente a tentativa de transformar o território em fonte permanente de renda e poder.

Para o morador, isso pode significar que atividades aparentemente comuns do cotidiano passam a estar submetidas à organização criminosa. A cobrança ilegal pode atingir comerciantes, transportadores, moradores e prestadores de serviços. Dependendo do território, grupos armados podem interferir na oferta clandestina de internet e televisão, no transporte, no mercado imobiliário e em atividades comerciais.

O problema não termina na cobrança de dinheiro. O controle territorial também pode significar restrição da circulação, imposição de regras, ameaças contra moradores e comerciantes e conflitos relacionados à ocupação de terrenos e imóveis.

Pesquisas sobre o Rio de Janeiro também identificam a dimensão econômica do fenômeno. O domínio territorial pode funcionar como instrumento para controlar mercados e atividades urbanas, fazendo com que o crime organizado deixe de ser apenas um problema policial e passe a interferir na vida econômica e social das comunidades.

É justamente aí que a milícia se torna diferente de uma simples presença armada: o objetivo é transformar o controle do território em poder econômico e social.

Rio de Janeiro concentra o principal fenômeno documentado

O levantamento mais recente do GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado, divulgado em dezembro de 2025 com dados referentes a 2024, estima que aproximadamente 4 milhões de pessoas viviam sob controle ou influência de grupos armados na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Isso correspondia a 34,9% da população da região.

O estudo encontrou aproximadamente 201 km² sob controle ou influência das milícias, correspondentes a 49,4% da área total submetida a grupos armados na Região Metropolitana do Rio. Esse dado precisa ser lido com cuidado: ele considera conjuntamente áreas de controle e influência, enquanto o Comando Vermelho aparece à frente quando analisado apenas o controle territorial consolidado.

A pesquisa também mostra que a presença miliciana sofreu retração em relação ao auge registrado nos anos anteriores. Entre 2020 e 2024, a área submetida a grupos armados caiu 7,1%, movimento associado principalmente à redução da presença das milícias e à retomada de determinadas áreas por outras organizações. Mesmo assim, o patamar de 2024 permanece muito superior ao registrado no início da série histórica.

Rio de Janeiro: a Zona Oeste como principal área de concentração

Na cidade do Rio de Janeiro, a Zona Oeste aparece historicamente como uma das principais áreas de atuação das milícias.

No levantamento referente a 2023, o GENI/UFF e o Fogo Cruzado identificaram 118,9 km² de território da Zona Oeste submetidos ao domínio de grupos armados, dos quais 83,1% estavam sob controle das milícias.

Na cidade inteira, considerando os territórios dominados por grupos armados em 2023, as milícias respondiam por 66,2% da área, enquanto o Comando Vermelho representava 20,7%, o Terceiro Comando Puro 9,3% e o Amigos dos Amigos 2,4%.

A fotografia, entretanto, está mudando. O levantamento de 2025 mostra que as milícias continuam com a maior extensão territorial quando controle e influência são somados, mas o Comando Vermelho passou a concentrar a maior parcela da população submetida ao controle armado.

E quais cidades têm presença de milícias?

Não existe, atualmente, um ranking nacional confiável de cidades brasileiras por presença de milícias que permita colocar municípios de diferentes estados em uma mesma lista como se fossem equivalentes.

Os dados mais detalhados estão concentrados no Rio de Janeiro e sua Região Metropolitana. O próprio mapa produzido pelo GENI/UFF e Fogo Cruzado trabalha com territórios, bairros, municípios e evolução histórica, justamente porque a situação pode ser completamente diferente de um bairro para outro.

Na Região Metropolitana do Rio, municípios como Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo, São João de Meriti, Queimados, Japeri, Magé, Itaguaí e Seropédica aparecem na literatura e nos levantamentos sobre a atuação de grupos armados. Isso não significa que todo o território desses municípios esteja dominado por milícias.

Essa ressalva é fundamental para evitar uma distorção jornalística: dizer que uma cidade possui presença de grupos armados não significa afirmar que toda a cidade esteja sob domínio de uma milícia.

O que os brasileiros dizem sobre o problema

Uma pesquisa nacional do DataSenado, realizada de 5 a 28 de junho de 2024 com 21.808 entrevistados, perguntou aos moradores qual era o principal problema de segurança pública em suas próprias cidades. A presença de milícias foi apontada por 3% dos brasileiros.

O resultado muda significativamente entre os estados. O Rio de Janeiro registrou 11%, enquanto Mato Grosso chegou a 7%. Na outra ponta, Santa Catarina registrou 1%.

Há uma informação especialmente importante para a reportagem: 11% dos moradores do Rio de Janeiro apontaram a presença de milícias como principal problema de segurança, percentual significativamente superior à média nacional de 3%.

Isso não significa que 11% dos cariocas vivam em território controlado por milícias. São fenômenos diferentes: a pesquisa mede percepção, enquanto o mapa GENI/UFF/Fogo Cruzado procura medir controle e influência territorial.

O fenômeno não se resume à violência armada

Outro dado ajuda a compreender a dimensão do problema. O estudo do GENI/UFF e Fogo Cruzado registra que, em 2024, as milícias representavam 49,4% da extensão territorial sob controle ou influência de grupos armados na Região Metropolitana do Rio. Quando analisada apenas a população sob controle direto, porém, o Comando Vermelho aparecia à frente, com aproximadamente 1,607 milhão de pessoas, ou 47,2% da população submetida ao controle armado.

A diferença revela algo importante: território e população não são a mesma coisa. Uma organização pode controlar áreas extensas e pouco povoadas, enquanto outra pode dominar áreas menores com maior concentração populacional. Parece uma sutileza estatística, mas é justamente o tipo de detalhe que impede uma manchete de virar uma fábrica de desinformação.

Milícia também significa poder econômico

A expansão das milícias criou uma espécie de economia paralela em determinados territórios. O controle territorial pode facilitar a exploração de serviços, comércio, imóveis e terrenos.

É por isso que pesquisadores tratam o fenômeno como uma questão que ultrapassa a segurança pública. O próprio GENI destaca que o controle territorial interfere em políticas públicas relacionadas a transporte, habitação, educação e cultura.

O levantamento histórico mostra ainda que, entre 2007 e 2024, a área sob controle das milícias cresceu 315%. Quando são somadas áreas de controle e influência, o crescimento chegou a 501%.

Ao mesmo tempo, o estudo aponta uma mudança na dinâmica recente: as milícias perderam parte do território que haviam conquistado, enquanto outras organizações passaram a disputar essas áreas. Portanto, não se trata de um mapa estático. O controle territorial muda conforme prisões, mortes de lideranças, operações policiais e guerras entre organizações criminosas.

Uma questão que chega à política

A dimensão política é uma das partes mais sensíveis do fenômeno. Quando uma organização criminosa consegue controlar moradores, comércio, circulação e atividades econômicas de determinado território, ela também pode criar condições para interferir na vida política local. Pesquisas sobre grupos armados no Rio já tratam o controle territorial como elemento relevante para compreender relações entre crime organizado, território e poder político.

Isso não permite afirmar automaticamente que determinado político seja ligado a uma milícia. Cada acusação desse tipo exige prova específica, investigação e contraditório.

O que os dados permitem afirmar é que o controle territorial cria uma situação na qual economia, segurança, moradia e política podem se cruzar. É justamente nessa interseção que uma investigação jornalística precisa avançar.

O mapa da milícia no Brasil ainda é incompleto

Existe uma dificuldade importante para uma reportagem nacional: o Brasil não possui um sistema único que produza, para todas as cidades, um mapa comparável de territórios sob controle de milícias.

O levantamento mais estruturado é o realizado no Rio de Janeiro pelo GENI/UFF e pelo Fogo Cruzado, que utiliza denúncias do Disque-Denúncia, informações georreferenciadas e validação com imprensa e literatura especializada. A série histórica permite acompanhar a evolução desde 2007.

O que os números mostram

  • Brasil: 3% apontaram a presença de milícias como principal problema de segurança.
  • Rio de Janeiro: 11% fizeram essa indicação, o maior percentual estadual apresentado pelo DataSenado.
  • Região Metropolitana do Rio: cerca de 4 milhões de pessoas estavam sob controle ou influência de grupos armados em 2024.
  • Milícias: respondiam por 49,4% da área sob controle ou influência de grupos armados na região, cerca de 201 km².
  • Zona Oeste do Rio: em 2023, 83,1% da área dominada por grupos armados estava sob controle das milícias.

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