Vídeos mostram policiais e homens armados em mansão do jogador Richarlison, a ação foi ordem judicial do advogado Willer de Flávio Bolsonaro

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Atacante afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões na mansão da Ilha Comprida, em Angra dos Reis, e cobra a devolução do imóvel ou o ressarcimento do valor; advogado Willer Tomaz contesta a versão e afirma que a posse foi reconhecida pela Justiça. Foto @richarlison

Imagens obtidas pelo Fórum Investiga registram agentes fardados e um homem com fuzil na propriedade após reintegração de posse em 2022; defesa de Willer Tomaz afirma que a operação cumpriu ordem judicial e nega envolvimento do senador na disputa

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Por Sandra Venancio – Jornal Local

Vídeos obtidos pelo núcleo de jornalismo investigativo Fórum Investiga mostram policiais militares fardados e homens armados na área de uma mansão em Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), após uma reintegração de posse realizada em maio de 2022. O imóvel é objeto de uma disputa judicial entre grupos empresariais ligados ao advogado Willer Tomaz, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL), e ao jogador Richarlison. Segundo a reportagem da revista Fórum, as imagens e depoimentos reunidos posteriormente pela Polícia Federal levantam questionamentos sobre a atuação da segurança na propriedade e as circunstâncias da ocupação.

A controvérsia ganhou repercussão política devido à relação de amizade entre Tomaz e Flávio Bolsonaro. O senador já havia visitado a mansão antes de a disputa judicial se intensificar, segundo reportagens anteriores. Flávio, porém, nega participação no conflito imobiliário, e a defesa de Tomaz afirma que a aquisição dos direitos sobre o imóvel e a reintegração de posse ocorreram de forma regular, por determinação judicial.

Imagens registram policiais após retirada de ocupantes

De acordo com o Fórum Investiga, uma das gravações foi feita na manhã de 14 de maio de 2022, um dia depois de uma decisão judicial determinar a retirada dos ocupantes da propriedade. No vídeo, um homem que se apresenta como funcionário dos antigos responsáveis pelo imóvel relata que ele, a esposa e os filhos precisaram deixar a ilha durante a operação.

Na gravação, o homem afirma que havia policiais armados no local e descreve a retirada como uma experiência marcada por intimidação. O relato é uma declaração da testemunha registrada no vídeo e não estabelece, isoladamente, se houve abuso na execução da ordem judicial.

A decisão de reintegração de posse foi proferida pelo juiz Ivan Pereira, da 2ª Vara Cível de Angra dos Reis, conforme a reconstrução publicada pela Fórum. A medida foi cumprida por oficial de Justiça com apoio policial.

A operação gerou questionamentos depois que a mulher de um dos empresários ligados ao grupo que ocupava o imóvel, grávida à época, foi retirada da residência. Segundo a publicação, decisões posteriores alteraram o andamento do conflito, que continuou a ser discutido judicialmente.

Homem aparece com fuzil em outro vídeo

Uma segunda gravação mostra um homem portando o que a reportagem identifica como um fuzil na propriedade. O vídeo teria sido feito por um ex-funcionário autorizado pelo ex-deputado estadual mineiro Alencar Silveira a retirar pertences pessoais do local.

Na gravação, o homem armado pergunta se o visitante tinha autorização para entrar. O ex-funcionário responde que havia conversado com Alencar e que precisava buscar seus objetos. Em seguida, o homem armado orienta que ele se aproxime de um ponto de acesso e chame o caseiro.

A identidade do homem armado, seu vínculo com a propriedade e a natureza de sua autorização para portar a arma não foram esclarecidos no material fornecido. Também não há, nas informações apresentadas, confirmação independente sobre eventual participação de policiais militares em atividades de segurança privada no local.

O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, analisou preliminarmente as imagens a pedido da Fórum. Ele classificou a situação como potencialmente grave e afirmou que a cena lhe parecia uma atuação semelhante à de uma milícia.

“Não é coisa de agentes policiais que estejam a serviço do Estado”, declarou o advogado à publicação, ressalvando que não conhecia todos os fatos.

A avaliação é uma interpretação jurídica preliminar, não uma conclusão de investigação oficial. Para determinar se houve irregularidade, seria necessário esclarecer quem eram os homens armados, por ordem de quem atuavam e quais eram as atribuições dos policiais presentes.

Depoimento à Polícia Federal questionou a segurança

A reportagem informa que a presença de homens armados também foi abordada em depoimento prestado à Polícia Federal em 5 de novembro de 2024. Donato Capobianco Galvez, ligado a uma empresa que figurava anteriormente na cadeia de ocupação da ilha, teria questionado a regularidade da segurança.

Segundo o trecho reproduzido pela Fórum, ele afirmou que a segurança não parecia ser privada nem regular e que a reintegração ocorreu somente após apoio da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

O depoimento integra o inquérito nº 2024.0002098-DPF/ARS/RJ, instaurado em maio de 2024 para apurar suspeitas relacionadas à ocupação e à negociação do terreno. A existência do inquérito indica que os fatos foram objeto de investigação, mas não significa que todas as suspeitas tenham sido confirmadas.

O Jornal Local não teve acesso independente à íntegra do procedimento policial, aos vídeos originais ou às decisões judiciais mencionadas. Por isso, os detalhes do inquérito e dos registros audiovisuais são atribuídos à reportagem que os divulgou.

Disputa envolve grupo ligado a Richarlison

A propriedade foi objeto de uma disputa entre a empresa WT Administração de Imóveis e Bens, vinculada a Willer Tomaz, e pessoas ligadas ao grupo empresarial do qual Richarlison participou. Entre os nomes mencionados na reportagem estão o empresário Renato Velasco e Alencar Silveira.

O conflito envolve a legitimidade dos direitos sobre o imóvel e a sequência de contratos e decisões judiciais relacionados à ocupação. As versões das partes são divergentes: a defesa de Tomaz sustenta que a reintegração ocorreu legalmente, enquanto o grupo adversário questionou a maneira como a posse foi obtida e executada.

Em nota enviada à Fórum, a defesa de Tomaz afirmou que a reintegração foi determinada judicialmente e posteriormente confirmada por instâncias superiores, incluindo o Superior Tribunal de Justiça (STJ). Alegou também que a empresa Sport70, da qual Richarlison foi sócio, renunciou formalmente a pretensões sobre o imóvel.

Na segunda manifestação encaminhada ao veículo, a defesa acusou Renato Rocha Velasco de recorrer a vigilância armada, com suposta participação de policiais, além de violência física e ameaças para ocupar ilegalmente a propriedade. Essas afirmações são acusações da defesa e não devem ser tratadas como fatos comprovados sem documentação e apuração independentes.

A defesa de Tomaz também criticou a avaliação de Kakay, argumentando que a presença de policiais no cumprimento de uma ordem judicial não constitui, por si só, indício de irregularidade.

Relação com Flávio Bolsonaro amplia repercussão política

A ligação entre Tomaz e Flávio Bolsonaro acrescentou uma dimensão política ao conflito. Segundo reportagens anteriores citadas pela Fórum, o senador conheceu a mansão em 2020 e retornou à região em janeiro de 2021 acompanhado do advogado.

O parlamentar foi arrolado como testemunha em processo relacionado à disputa e confirmou a amizade com Tomaz, mas negou envolvimento na controvérsia possessória. A defesa do advogado também afirmou que Flávio não participou da disputa nem teve responsabilidade pela segurança do imóvel.

Em outra frente, a reportagem da Fórum menciona suspeitas investigadas pela Polícia Federal sobre uma possível sociedade não declarada entre Tomaz e o senador. A existência de uma investigação ou suspeita não comprova a sociedade, e a informação precisa ser confrontada com os elementos efetivamente reunidos no inquérito e com as manifestações dos envolvidos.

A Polícia Militar do Rio de Janeiro confirmou à Fórum o recebimento do pedido de esclarecimentos e informou que a solicitação foi registrada no processo administrativo SEI-350001/026491/2026. Até a atualização da reportagem original, não havia respondido às perguntas encaminhadas. A assessoria de Flávio Bolsonaro também não havia se manifestado.

O que ainda precisa ser esclarecido

Os vídeos e o depoimento descritos pela Fórum levantam questões sobre a identificação dos homens armados, a natureza do serviço de segurança, a participação de agentes públicos e as circunstâncias da execução da ordem judicial.

A apuração também precisa distinguir o cumprimento legal de uma decisão de eventuais excessos cometidos durante a operação. A presença de policiais armados em uma reintegração não caracteriza automaticamente abuso ou milícia. Da mesma forma, a existência de uma ordem judicial não elimina a necessidade de investigar possíveis irregularidades na execução da medida.

O caso reúne versões conflitantes sobre a posse da propriedade e acusações recíprocas entre grupos empresariais. Até que sejam examinados os registros oficiais, as imagens originais e as manifestações das autoridades responsáveis, não é possível concluir, apenas com base no material divulgado, que tenha ocorrido atuação miliciana ou participação criminosa dos envolvidos.

O Jornal Local mantém aberto o espaço para manifestações de Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz, dos representantes de Richarlison e Renato Velasco e da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

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