Há quatro décadas o histórico prédio do Jockey Clube Campineiro vinha sendo utilizado somente para os jogos de sinuca, xadrez e cartas e para esporádicos bate-papos entre os antigos associados. A sua construção apenas não passou despercebida nos últimos anos porque ganhou nova pintura durante o projeto de revitalização do centro histórico da cidade e por receber iluminação especial na época do Natal. A inauguração de um Piano Bar no primeiro andar do antigo edifício, no entanto, resgatará todo o charme e o glamour que marcaram a história daquele prédio histórico até os anos 1960.
O Jockey Piano Bar, um americanbar que mescla a sofisticação do passado com a tecnologia de um moderno ponto de encontro, abre as suas portas para o publico no dia 16 de maio, a partir das 17h. A proposta foi transformar o antigo salão que já abrigou bailes, recitais e grandes festas freqüentadas pela sociedade campineira, em um ambiente confortável e intimista, para um diferenciado ponto de encontro que garanta cultura e entretenimento de bom gosto.
O Jockey Piano Bar funcionará independente das atividades ainda mantidas pelo Jockey Clube para seus associados. O espaço foi locado pelo clube aos empresários e irmãos Luciana e Diego Lagos. A família é do ramo e esteve à frente da administração de um restaurante e pizzaria por mais de 10 anos. No ano passado, depois de concluírem os cursos de Planejamento e Administração de Bares de Restaurante e de Gerenciamento de Restaurantes, eles decidiram implantar uma ação completamente privada, constituída em um novo conceito de americanbar na cidade.
A implantação do Jockey Piano Bar foi estimulada pelo Secretário de Cultura de Campinas, Francisco de Lagos, pai dos empresários, um dos entusiastas da revitalização do centro de Campinas. Um de seus maiores empenhos tem sido a atração de empreendimentos privados que contribuam para a valorização dos espaços culturais e do centro histórico de Campinas, tendência seguida pelas principais e mais importantes cidades do mundo todo.
Segundo Lagos, há três anos ele foi convidado por um jornalista de Campinas para conhecer as instalações do Jockey, onde alguns amigos reuniam-se às quintas-feiras para comer rabada e bater-papo. Entre os presentes, estava o presidente do Jockey, Luiz Gonzaga Coutinho Queiroz, que reatou a situação do Clube. Os amigos, então, o desafiaram a somar-se ao grupo para ajudar o Jockey a ser revitalizado. “Embora tenha sido amor à primeira vista pelo local, aquele andar ainda ficou vazio por mais de um ano. Daí, meus filhos tiveram a idéia de instalar o americanbar no Jockey”, conta Lagos.
No caso do prédio do Jockey Clube, o projeto precisava ser tão imponente quanto à sua construção, datada de 1925 e inspirada nos palacetes franceses do final do século XVIII. Desta forma, a idéia de locar o primeiro andar do Jockey Clube para a instalação do Jockey Piano Bar contemplou perfeitamente dois projetos: o idealizado pelos jovens empresários, e o do antigo clube, que buscava inquilinos para auxiliá-lo na manutenção do imóvel. A diretoria busca parceiros que preocupam, também, em resgatar o lugar de honra ao qual o Jockey Clube sempre teve direito na noite campineira e que contribuíam para que a entidade reencontre a sua finalidade.
A locação de salas não é uma novidade para o Clube: suas salas já foram alugadas para um cartório (que ainda funciona no local) e, tempos atrás, para uma empresa de apostas licenciada do Jockey de São Paulo, com a finalidade de assegurar a folha de pagamento e nas despesas gerais do suntuoso prédio. Até mesmo porque a maior parte dos associados, cerca de 500 no total – é remido e está dispensado do pagamento da mensalidade. O Jockey não renovou o contrato com a empresa de apostas por entender que a mesma não contribuía para o processo de revitalização.
Lugar de histórias
Quem freqüentou a noite campineira entre as décadas de 1920 e 1950 recorda-se dos bailes de gala e das festas que eram realizadas nos salões, freqüentados pela alta sociedade da região. O público era formado inicialmente por sócios do Clube Campineiro e, também, pelos associados do Jockey Club de Campinas. O nome Jockey Clube Campineiro foi adotado em 1957, quando houve a fusão das duas entidades.
Depois que as grandes festas deixaram de ser realizadas, restou apenas a movimentação gerada pelas apostas no turfe. A partir da década de 1970, com as restrições às corridas de cavalos, o local foi desativado. Apenas uns poucos associados e antigos freqüentadores utilizavam a sede social do antigo prédio para um bate-papo ou carteado.
A instalação do Jockey Piano Bar resgatará os aspectos de ordem cultural e tradicional do lugar, mas com um toque de modernidade. “Projetamos e planejamos um espaço para que as pessoas se encontrem e ouçam uma boa música, mas, também, que sirva como um romântico cenário para que os apaixonados voltem a utilizá-lo para o pedido de casamento à mulher amada”, comenta Luciana Lagos.
Desta forma, a nostalgia dividirá as atenções dos freqüentadores com a mais alta tecnologia dos tempos atuais. Garçons trajando camisa, gravata e colete em risca de giz, como em décadas passadas, atenderão às mesas anotando os pedidos em moderníssimas comandas eletrônicas sem fio para garantir rapidez e agilidade no atendimento.
Decoração Interna
A riqueza de detalhes e simbolismos da decoração impressiona. Com a concepção do arquiteto espanhol Rafael Sangrador, a decoração e adequação do salão ao americanbar, duraram exatamente 14 meses, dado o detalhamento previsto no projeto, que foi acompanhado semanalmente pelos técnicos do Condepac. No salão principal, sobre as altas portas de madeira, pintadas de vermelho com ferragens douradas, estão os vitrais coloridos e semi-abobadados, feitos à mão. As paredes foram recobertas por painéis de veludo italiano na cor cereja para que não houvesse interferência arquitetônica.
O mesmo tecido foi utilizado para as cortinas, com estampas em baixo relevo da Flor de Lis, símbolo da França. Entre tantas versões sobre esta flor, adotada pelo rei Luís XVII como emblema durante as Cruzadas, está a história de sua origem. A planta íris, chamada de fleur-de-louis (flor de Luis), antes de evoluir para Flor de Lis, representa com as três pétalas, a fé, a sabedoria e o valor.
Também chama a atenção o teto do salão, em toda a sua extensão forrado por espelhos quadrados e retangulares, de onde pendem onze lustres originais de bronze e cristal. O piso manteve o antigo assoalho, em madeira de ipê e amarelinho, que já suportou os arrasta-pés em valsas, boleros, tangos etc. Listras alternadas formam um composée a partir de uma grande estrela central.
Ao fundo, está um pequeno e charmoso palco, em forma de semi-arco. A base é decorada por painéis quadrados de couro e traz, ao centro, o símbolo do Jockey Clube (cabeça de um cavalo sob a ferradura). No alto, nas laterais, uma espécie de guirlanda representa os antigos e ricos cafezais que garantiram o progresso e a riqueza da cidade.
Um aparador foi estrategicamente posicionado no frontão do palco para permitir o contato mais intimista entre o público e o músico que estiver se apresentando. Geralmente, será um pianista e, em outros momentos, trios ou quartetos. Os proprietários, inclusive, tiveram o cuidado de restaurar o piano de cauda alemão Zeitter & Winkelmann Braunschweig, patrimônio do Jockey Clube, datado de 1918.
Nos intervalos das intervenções ao vivo, os freqüentadores contarão com uma seleção eletrônica do melhor do jazz, blues e MPB executado por um moderno equipamento eletrônico, e que permitirá que a agradável conversa não seja obrigada a disputar com o som, e vice e versa.
Aliás, uma das preocupações dos projetistas foi com a acústica, resolvida com a instalação de 12 portas de triplo vidro produzidas especialmente para eliminar a invasão de som exterior e garantir, assim, a sonoridade adequada do local. Ladeando o palco, sancas em gesso abertas, também originais da construção, foram mantidas e utilizadas para compor o sistema de iluminação indireta.
Numa parceria da direção do Jockey Clube Campineiro com a iniciativa privada, o prédio histórico será o primeiro a contar com um projeto de iluminação cênica, concebido pela arquiteta Renata Meireles, e que tem como elemento principal a valorização das colunas e afrescos no topo do edifício.
Balcão e bar
A Flor de Lis reaparece, agora bordada em fio de seda, nos quadrados de veludo que recobrem o mogno da base do balcão do bar que ocupa toda a lateral direita do ambiente. Corrimões de latão dourado, para apoio, iguais aos expostos nas paredes, também decoram a base do balcão. Sobre ele, uma chopeira de porcelana artística branca, torre italiana, com duas torneiras, assegura que o chope Stella Artois (tipo Premium Lager) seja tirado no capricho.
Ainda lembrando a época das Cruzadas, lanças douradas despontam no alto das estantes de madeira onde são exibidas as bebidas, no bar. Inicialmente, a adega será formada por 1.500 garrafas, das quais 76 são rótulos de vinho de 12 países escolhidos pela sommelier Carina Cooper, do grupo de especialistas da Associação Brasileira de Sommerliers (ABS), e 101 são opções de destilados e licores, sem contar as bebidas quentes, como os whiskys de 08 a 25 anos.
No bar, serão oferecidos alguns drinques exclusivos preparados pelo bartender Paulo Manuel, como o Luxuria (rum branco, sucos de abacaxi e de laranja e licor Grand Marnier) e o Red Avenue (gim, framboesas, DaVinci de framboesa e prosecco).
O mobiliário forma um grande lounge, com sofás e cadeiras Chesterfield na cor preta, poltronetas na cor tijolo e mesinhas de centro. Quatro mesas com jogos de cadeiras garantem maior conforto para quem optar pelo jantar. As mesas para refeição comportarão 16 pessoas e, entre balcão e mesas aparadoras a acomodação será para 82 clientes sentados.
Implantação e Cardápio
A instalação do Jockey Piano Bar foi precedida por diagnóstico, pesquisas e Plano de Negócios elaborado pelo consultor paulistano Joseph Hariri, responsável por todas as fases do projeto. Os cuidados com os detalhes estendem-se ao cardápio de petiscos e comidinhas rápidas, elaborado pela consultora de Bares e Restaurantes, Concetta Marcelina.
Alguns pratos foram batizados com nomes de instrumentos ou nomenclaturas relacionadas à música, como Salmão Celesta (salmão em crosta crocante com ervas e coalhada seca). Celesta é o nome do instrumento de percussão semelhante a um pequeno piano com lâminas metálicas em vez de cordas. Entre os diferentes petiscos, destaca-se a Bruschetta Pianola (bruschetta de espinafre, queijo parmesão e pinoli). Pianola é o mecanismo que se adapta aos pianos, para fazê-los tocar automaticamente.
Informações históricas
Cronologia do Jockey Clube de Campinas
1877 – primeiros registros das corridas de cavalos em Campinas. As parelhas de cavalos eram realizadas na Avenida Andrade Neves. O local era próximo à estação de trens, para facilitar o transporte de cavalos trazidos de São Paulo para as corridas, e aos botecos de prostituição. Foi Joaquim Ferreira Penteado quem doou os terrenos para a criação do Hipódromo do Bonfim, batizado de Clube Campineiro. Ele foi fundado por Antonio Egydio de Souza Aranha com o auxílio dos barões do café.
1878 – (1º de setembro) Luís Antonio de Pontes Barbosa é eleito o primeiro presidente do Clube de Corridas. A inauguração ocorreu no dia 29 de setembro com a participação de seis mil pessoas. A festa reuniu toda a sociedade campineira.
De 1889 a 1927 – a epidemia de febre amarela paralisou as atividades no hipódromo. Mas, em 1913, teve início a construção da sede social, no centro da cidade.
1929 – inauguração do prédio para abrigar o Clube Campineiro.
De 1929 a 1950 – auge das festas, saraus e grandes eventos no salão do Clube Campineiro.
1957 – O hipódromo foi desapropriado pela Prefeitura, provocando a fusão do Clube Campineiro com o Jockey Club de Campinas. A partir daí uma única instituição cuidaria da parte de eventos sociais e do turfe.
Anos 1960 – presidente Jânio Quadros proíbe a realização de duas corridas no mesmo dia. O Jockey Campineiro começou a fazer corridas alternadas aos circuitos do Rio de Janeiro. A partir desta época os bailes e saraus diminuíram e as atividades do clube limitaram-se às apostas no turfe.
1968 – inauguração do Hipódromo Boa Vista (região Oeste da cidade), inicialmente destinado ao treinamento de animais.
1974 – presidente Emílio Garrastazu Médici libera as corridas. A volta dos páreos no Hipódromo Cidade Jardim esvazia as corridas em Campinas. Em 8 de maio foi realizado o último páreo campineiro.
1977 – (setembro) fusão também dos sócios do Jockey Club de Campinas e do Clube Campineiro, modificando o seu nome para Jockey Clube Campineiro.
1994 – (22 de dezembro) prédio do Jockey Clube é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc).
Curiosidades
Tudo no Jockey Clube ainda remete à ostentação que marcou o auge do ciclo do café em Campinas. Do prédio original, erguido em 1929 em estilo eclético, com características art nouveau e elementos neo-renascentistas, como era tendência na época, restam muitos elementos que estão sendo restaurados ou recuperados. Um deles é o elevador (o primeiro a ser instalado em Campinas), com peças douradas e porta pantográfica, que continuará a conduzir o público do térreo ao primeiro andar, no qual funcionará o Piano Bar. As escadarias são de mármore de Carrara. Os lustres e espelhos de cristal são europeus. O sobrado, como era chamado, foi palco de diversas manifestações esportivas e culturais, das apostas no turfe aos jogos de baralho e snooker aos bailes e festas importantes da cidade.
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As mulheres não freqüentavam o Jockey Clube durante a semana. Somente em dias de sarau e festas, geralmente cercadas de muito luxo. Os bailes contavam com orquestras, e os casais bailavam aos acordes de violinos. Foi um tempo de riqueza e ostentação que reunia a nata da sociedade. Trajes, apenas os de gala: os homens sempre vestiam smoking e, às mulheres, eram indispensáveis os vestidos longos e os chapéus. Os talheres eram de prata. E até o chope, oferecido na sala de jogos, era servido em copos de cristais.
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Durante o processo de identificação de valores culturais do Jockey Clube Campineiro, o Condepacc identificou vários quadros de autores como A. Castanhede, B. Neuville, Nic Bay, Oscar V. da Silva, Nair Lopes, Martins Ferreira e F. F. Forton, que formam um importante acervo artístico e histórico, além de peças valiosas, como “Homem Pitando Fumo”, de Oscar Pereira da Silva (1918), e “Moça Sobre Pedras”, de Antonio Parrero (1894).
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Santos Dumont, Getúlio Vargas, Juscelino Kubischek e Jânio Quadros foram algumas das tantas personalidades que já visitaram ou freqüentaram os salões do Jockey Clube Campineiro. Músicos famosos, como o espanhol Andrés Segovian e o violonista francês Jorge Boulanger já se apresentaram ali. Guiomar Novaes foi uma das grandes pianistas a encantar os freqüentadores do Jockey Clube, utilizando para seu concerto o piano de cauda alemão Zeitter & Winkelmann Braunschweig restaurado graças ao cuidado dos irmãos Luciana e Diego Lagos.
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O atual presidente da entidade, Luiz Gonzaga Coutinho Queiroz, guarda com cuidado um riquíssimo acervo fotográfico dos eventos ali realizados, assim como histórias pitorescas e curiosas. Uma delas aconteceu na ocasião em que Tim Maia visitou o Jockey Clube. O cantor tentou utilizar o elevador, o primeiro instalado em Campinas, juntamente com mais quatro pessoas. A máquina não suportou o peso e os quatro acompanhantes tiveram que optar pela escadaria de mármore para que o elevador conduzisse o cantor, sozinho, do térreo ao primeiro andar do edifício.
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O prédio conta com área é de 1.371,80 metros quadrados, divididos em três pavimentos e está localizado na Praça Antonio Pompeo, no Centro de campinas, a poucos metros do marco zero da cidade.
Serviço:
Jockey Piano Bar
Endereço: Praça Antônio Pompeo, s/nº – Centro – Campinas – SP
Telefone: (19) 3232-6180
pianobar@jockeypianobar.com.br
Funcionamento:
De segunda a quinta-feira, das 17h30 às 24h.
Quinta e sexta-feira, das 17h30 à 0h
Sábado, das 19h às 02h
Serviço de manobrista




