Minha vó Amélia caprichava numa receita de pão que aprendi a reconhecer como pães do Mundo. Muito simples, ela dizia: pão de Cristo!. Ainda posso ouvir seu sotaque enérgico e carinhoso… “Menino!, busca se a madrinha Filó tem muda do pão de Cristo. E assunta com ela se tá no ponto, viu!… só num precisa comentar que da última vez ela me deu fermento vencido. Se ela num tiver, agradece do mesmo jeito e averigua qua dona Arminda… ou, quem sabe?, dona Dindinha, essa nunca falta. Pergunta e se vira no que for preciso… até alguma daquelas moça nova, as Andrade da rua da estação; elas é nova, aqui, mas são de família antiga. Amanhecendo estiado, amanhã é dia de fainar o Pão…”
primeiro dia Em meus dias meninos, lá nas Minhas Geraes,
misturar a muda do fermento em:- era comum percorrer casas e arredores conhecidos.
– 4 colheres (sopa) de farinha, Dentre aquelas e estes houve sempre doadores,
– 1 litro de água morna, pouco adoçada alguns permanentes, alguns mais carentes. – 1 colher (sopa) de sal Retornávamos (da busca) com fermento
misturar tudo, cobrir com guardanapo. e melhor sociabilidade!.
Mexer sempre, toda hora tem que se lembrar. Re-tornávamo-nos
Mexer e orar, mexer e agradecer. nós mesmos.
Havia circulação… de palavras, de pessoas, de posturas, referências e receitas. Inovações todo mundo podia mas Pão de Cristo era a mais antiga. E a mais curtida, demorava o tempo de partilhar/participar. Entre iniciar a faina, incorporar o fermento e comer o pão corriam vividos 4 ou 5 dias e, em tempo chuvoso e frio, talvez até mais… DEMORA significava circular os seres e seus saberes.
No segundo dia:
– de manhã: mexer o fermento Fazer o pão era “cheio de histórias”, incorporava a muda recebida
depois sovar até que dá o ponto. ao momento apropriado. Era pão prolongado, em cada
De tarde: dividir o fermento em tres partes. feitura a massa-fermento incluía a relação repartida
Com uma destas formar a massa com: entre tres ou mais residências.
– 3 ovos, Era valioso repartir entre muitos,
– 4 colheres (sopa) de açúcar, até quase ficar com o mínimo, o suficiente era o mérito maior.
– meia xícara de manteiga, Pois conseguir o suficiente (não sobrar nem faltar) significava
– 1 kilo de farinha. fartura e distribuição, juntos, alimento pra corpo e alma.
repartir as outras partes do fermento.
Mais experiência tinha quem mais conviveu. Memória e produção, crescimento e circulação. O melhor pão, bonito ou corado por igual, a melhor textura ou a massa mais leve… o quanto se obtivesse era sinal de bênção recebida e promessa realizada, repartida de graça. Não nos ocorria sobressalto: e….se ninguém na cidade tiver fazendo (e repartindo) fermento, como é que fica?. Nunca nos ocorreu ausência cultural de Pão pois nessa receita, assim como nas interações, a certeza compartia: doar e receber são permanências, tanto quanto viver o é. Houve sempre alguém fazendo e doando, houve sempre alguém recebendo e fazendo o pão de Cristo.
Terceiro dia.
manhã: enrolar a massa nas formas. O ritmo da vida era (é ainda?…) expressão e projeto.
Cobrir com guardanapo, deixar crescer. Vida é mais ampla que a mera performance.
Colocar num copo d’água uma bolinha de massa. Entre a memória e o produzir conhecimento
Quando crescido, quando a bolinha subir, assar. fluíam (fluem) espaço, tempos e linguagens.
Untar a forma com manteiga e farinha. Nenhum destes autoriza hierarquia ou privilégio,
Na assadura, untar a massa com fios de ovos. e, embora afazeres diferenciem personagens conforme
protagonismo e visibilidade, antiguidade significa experiência
mas não esquecimento.
Jornalista Adriano Salmar Nogueira Taveira,
Professor Pesquisador em Filosofia da ciência.
É primavera, tempo pós-eleição é tempo de governabilidade;
Preparemo-nos, as mãos na massa:- mexer e repartir o pão!.
Somos herdeiros de momentos e tempos apropriados, nossa participação constitui um feliz final de ano 2006.
Ao amigo Clóvis, compadre-companheiro de Regatas e de eleições, um abraço….




