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Brasil não virou país de classe média, aponta estudo da Unicamp

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Economista Daniel Höfling fez tese de doutorado na Unicamp
Economista Daniel Höfling fez tese de doutorado na Unicamp

Entre 2004 e 2012, cerca de 35 milhões de brasileiros, número próximo ao da população da Argentina, deixaram a condição de miséria e ascenderam para a baixa classe média, graças ao crescimento da economia do país e às políticas sociais implementadas pelo governo federal. A despeito do avanço social experimentado por esse contingente no período, o Brasil não se transformou em um país de classe média, como interpretam alguns analistas. A conclusão é da tese de doutorado do economista Daniel de Mattos Höfling, defendida no Instituto de Economia (IE) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), sob a orientação do professor Waldir José de Quadros.

De acordo com Höfling, a baixa classe média é diferente da classe média tradicional, formada a partir dos anos 1970. Esta última é constituída por pessoas que exercem profissões como professor universitário, advogado, engenheiro etc, que normalmente possuem casa própria e têm acesso à saúde, educação, lazer e cultura. “Ainda que tenham avançado socialmente, os integrantes da baixa classe média seguem em grande medida apartados do acesso a esses bens e serviços. Para esse segmento, o lazer, por exemplo, se dá basicamente por meio do consumo, ou seja, pela visita ao shopping. São brasileiros que deixaram a condição de miséria, mas ainda passam por dificuldades estruturais. Abandonaram a pobreza, mas encontram-se distantes do que imaginamos como padrão de vida de classe média”, afirma o economista.

Uma das novidades da pesquisa, conforme o autor, emergiu por causa da metodologia empregada, que não se ateve somente à questão da renda, como ocorre na maioria das análises sobre o tema. “O estudo também contemplou o aspecto da ocupação para poder identificar não somente quantos são os componentes da baixa classe média, mas também em quais segmentos eles atuam. Nós consideramos as dez principais ocupações exercidas pelos integrantes da baixa classe média. O que pudemos constatar é que a maioria dessas pessoas se concentra em quatro principais profissões: vendedor, escriturário, operário da construção civil e trabalhador doméstico”, elenca Höfling.

Esse conjunto de trabalhadores, reforça o economista, teve a vida melhorada nos anos tomados para análise, mas segue sendo um segmento muito suscetível aos humores da economia. “São trabalhadores que exercem atividades precarizadas, sazonais ou que não exigem maiores qualificações. Assim, num momento de crise como o que estamos vivendo, esse grupo costuma ser o mais afetado, por exemplo, pelo desemprego. Ainda não temos dados fechados da PNAD [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)] de 2014, mas as informações preliminares indicam que parte desse contingente retornou à condição anterior, justamente por causa dos efeitos da crise econômica”, diz.

Insustentável

Um aspecto que explica essa tendência de regressão, prossegue o autor da tese de doutorado, é o fato de o crescimento econômico que contribuiu para a expansão da baixa classe média no país ter sido fundado em modelo não sustentável. O avanço da economia brasileira no período, observa Höfling, foi impulsionado principalmente pela exportação de commodities, aproveitando um momento de grande apetite do mercado internacional, notadamente o chinês. “O grande problema é que a economia não pode ficar dependente desse modelo primário exportador. Trata-se de uma alternativa que tem limite, e esse limite já foi atingido”, considera.

A crítica presente no trabalho do economista é dirigida justamente ao pensamento exageradamente otimista, segundo o qual os ganhos sociais obtidos pelos integrantes da baixa classe média teriam consolidado o Brasil como um país de classe média. “Nosso estudo é de caráter suprapartidário. Ou seja, não tem compromisso com esta ou aquela corrente ideológica. O que nós entendemos é que houve, sim, uma melhora nas condições sociais de uma parcela significativa da população brasileira no período analisado. Muitas pessoas deixaram a linha da miséria. Além disso, mais jovens ingressaram na universidade e vemos mais trabalhadores de baixa renda em lugares antes frequentados apenas pela elite. Tudo isso é inquestionável. Entretanto, é preciso tomar cuidado para não considerar que nada mais precisa ser feito, pois já teríamos atingindo o patamar de país desenvolvido. Essa visão é equivocada, visto que estamos bem longe disso”, adverte Höfling.

Entre os desafios que o país precisa superar para alcançar um estágio acima do atual, continua o economista, estão a definição de uma política de Estado voltada à industrialização e o investimento principalmente em educação, saúde e infraestrutura.  “Muita coisa ainda precisa ser feita. A educação básica, por exemplo, não sofreu mudanças significativas nos últimos anos”, pontua o pesquisador. Para sustentar a sua investigação, Höfling promoveu um estudo histórico, cujo ponto de partida foi a década de 1930.

Segundo ele, uma compreensão que surgiu da investigação é que a classe média tradicional é fruto do período de industrialização e consolidação do Estado Nacional. “Os integrantes desse segmento foram trabalhar em órgãos do Estado ou na indústria ou serviços relacionados à indústria. A baixa classe média, porém, resulta de condições diferentes. Ela não nasce de um cenário de mudança estrutural. Em boa medida, ela surge na esteira de um ciclo de consumo e da expansão de crédito”, esclarece Höfling.

Agronegócio

Além de analisar o Brasil de modo geral, a tese de doutorado também desmembrou os dados para as cinco regiões do país. O que mais chamou a atenção nesse caso, conforme o economista, foi o desempenho do Centro-Oeste, onde a baixa classe média experimentou uma ascensão mais acentuada que nas demais regiões. “Em boa medida, essa ascensão ocorreu por causa do agronegócio. Não do agronegócio em si, mas do dinamismo que ele empresta à economia local, impulsionando setores como o comércio e a construção civil”, detalha o economista.

 

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