Atuação indireta passa por tecnologia, financiamento, diplomacia e cooperação institucional
A interferência de potências estrangeiras em processos eleitorais não costuma ocorrer por meios diretos ou declarados. No caso do Brasil, eventuais ações dos Estados Unidos tenderiam a se dar de forma indireta, diluída em mecanismos institucionais, econômicos, tecnológicos e comunicacionais, muitos deles formalmente legais, mas politicamente sensíveis.
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Um dos principais vetores é o ambiente digital. Empresas norte-americanas controlam as maiores plataformas de redes sociais, sistemas de busca e infraestrutura de publicidade online utilizados em campanhas eleitorais brasileiras. Mudanças em algoritmos, políticas de moderação de conteúdo, impulsionamento pago e retirada de perfis ou páginas podem afetar o alcance de candidatos, pautas e narrativas políticas durante o período eleitoral, mesmo quando justificadas por regras internas das plataformas.

Órgãos de inteligência estrangeiros como FBI e CIA operam, historicamente, por meio de cooperação policial, acordos de segurança, intercâmbio de dados e ações de inteligência voltadas a interesses estratégicos. Foto Antonio Cruz/Agencia Brasil
Outro eixo relevante é o financiamento indireto. Embora a legislação brasileira proíba doações estrangeiras a campanhas, recursos podem circular por meio de fundações, institutos, consultorias, cursos de formação política, eventos internacionais e organizações não governamentais que atuam na capacitação de lideranças, ativismo digital ou observação eleitoral. Esses fluxos, quando não transparentes, levantam questionamentos sobre influência externa na definição de agendas e estratégias políticas.
A diplomacia também é um instrumento recorrente. Declarações públicas de autoridades norte-americanas sobre democracia, estabilidade institucional, resultados eleitorais ou legitimidade de processos podem repercutir internamente, reforçando ou enfraquecendo atores políticos específicos. Visitas oficiais, encontros reservados com candidatos, governadores, parlamentares ou membros do Judiciário durante períodos sensíveis costumam ser analisados com atenção por setores políticos e diplomáticos.
Há ainda a cooperação institucional. Programas de intercâmbio, treinamentos e acordos envolvendo áreas como segurança cibernética, combate à desinformação, inteligência financeira e sistema de justiça ampliam a presença técnica de órgãos e especialistas estrangeiros em estruturas estratégicas do Estado brasileiro. Embora formalmente voltados à cooperação, esses vínculos podem gerar dependência tecnológica ou alinhamento de procedimentos a interesses externos.
O campo econômico completa o quadro. Sinais emitidos por grandes investidores, agências de risco, bancos e organismos financeiros com sede ou forte influência nos Estados Unidos impactam o mercado, o câmbio e a percepção de estabilidade do país. Em períodos eleitorais, essas reações podem pressionar governos e candidatos, influenciando discursos, compromissos e programas econômicos.
Especialistas em relações internacionais observam que a interferência contemporânea raramente assume a forma de manipulação explícita de votos. Ela opera pela moldagem do ambiente informacional, pela influência sobre elites políticas e econômicas e pela definição dos limites do debate público aceitável.
Influência externa
Levantamentos sobre interferência eleitoral em democracias apontam que ações indiretas, via plataformas digitais, financiamento de organizações e diplomacia pública, são mais frequentes do que intervenções abertas, especialmente em países estratégicos da América Latina.
Espionagem e influência
Órgãos de inteligência estrangeiros como FBI e CIA operam, historicamente, por meio de cooperação policial, acordos de segurança, intercâmbio de dados e ações de inteligência voltadas a interesses estratégicos. No contexto brasileiro, o risco identificado por analistas é a coleta de informações sensíveis sobre autoridades, empresas estatais, setores estratégicos e processos políticos, além do monitoramento de lideranças e movimentos internos. Vazamentos seletivos, uso de informações para constrangimento político, cooptação de quadros institucionais e influência sobre investigações e decisões judiciais figuram entre as preocupações recorrentes. Para o Estado brasileiro, o desafio é reforçar a soberania informacional, proteger comunicações oficiais, auditar acordos de cooperação, controlar o acesso a bancos de dados sensíveis e reduzir a dependência tecnológica, prevenindo traições institucionais e ingerências externas em decisões políticas e eleitorais.
A máquina invisível da eleição
A inteligência artificial passou a ocupar um espaço central nas disputas de poder em ano eleitoral, operando longe dos holofotes e fora do alcance do eleitor comum. No Brasil, sistemas automatizados de análise de dados, monitoramento de redes sociais e modelagem de comportamento político já são vistos por especialistas como ferramentas capazes de influenciar campanhas, discursos e decisões estratégicas sem deixar rastros evidentes.
Algoritmos avançados permitem mapear perfis psicológicos de eleitores a partir de hábitos digitais, histórico de consumo, localização e interações online. A partir desse cruzamento, mensagens políticas são calibradas de forma individualizada, explorando medos, expectativas e fragilidades específicas de cada grupo social. O processo ocorre em escala industrial, com velocidade e precisão impossíveis para equipes humanas tradicionais.
No campo da inteligência e da segurança, a IA amplia a capacidade de vigilância e espionagem. Softwares de varredura analisam comunicações, identificam padrões de relacionamento entre autoridades, empresários e agentes públicos e detectam pontos de vulnerabilidade política ou institucional. Informações sensíveis podem ser organizadas, classificadas e acionadas estrategicamente em momentos decisivos do processo eleitoral.
Outro ponto crítico é a produção automatizada de conteúdo. Ferramentas de IA são capazes de gerar textos, áudios e vídeos altamente realistas, incluindo falas atribuídas a candidatos, autoridades e líderes políticos. Mesmo quando desmentidos, esses materiais circulam com rapidez, contaminam o debate público e impactam a percepção do eleitor, criando um ambiente de desinformação permanente.
Nos bastidores do poder, cresce a preocupação com a dependência tecnológica. Plataformas, servidores, sistemas de análise e bancos de dados utilizados por campanhas, partidos e instituições públicas estão majoritariamente sob controle de empresas estrangeiras. Isso levanta suspeitas sobre acesso privilegiado a informações estratégicas e sobre a possibilidade de uso desses dados para fins políticos ou geopolíticos.
A ausência de transparência sobre quem opera essas tecnologias, quais dados são coletados e como são utilizados dificulta a fiscalização por órgãos nacionais. O risco não está apenas na manipulação do voto, mas na captura silenciosa de decisões, agendas e alianças políticas, com impactos que ultrapassam um único pleito.




