Brasil e Colômbia classificam ação militar como ameaça à soberania sul-americana e à ordem internacional
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, conversaram por telefone na tarde desta quinta-feira em meio à escalada da crise diplomática e militar provocada pela invasão dos Estados Unidos à Venezuela, que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. A ligação marca um movimento coordenado entre os dois principais países fronteiriços à Venezuela para conter os efeitos políticos e estratégicos da ação norte-americana na região.
>> Siga o canal do Jornal Local no WhatsApp
Linha fina: Conversa entre Brasil e Colômbia expõe temor de efeito dominó após intervenção dos EUA em país vizinho.
Segundo a avaliação compartilhada entre Lula e Petro, o uso da força militar contra um país sul-americano viola princípios básicos do direito internacional, a Carta das Nações Unidas e a soberania estatal. Os dois mandatários destacaram que a operação conduzida pelos Estados Unidos cria um precedente considerado extremamente perigoso para a estabilidade regional, com potencial de desorganizar fronteiras, fluxos migratórios e acordos diplomáticos em toda a América do Sul.

O diálogo ocorre em um contexto de crescente preocupação dos países da região com a normalização de ações militares unilaterais por parte de Washington. Nos bastidores diplomáticos, a leitura predominante é que a captura de Maduro extrapola a retórica de combate ao narcotráfico e inaugura uma nova fase de intervenções diretas, com impacto direto sobre governos que não se alinham aos interesses estratégicos dos Estados Unidos.
Durante a conversa, Lula e Petro também saudaram o anúncio do presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, sobre a libertação de presos venezuelanos e estrangeiros. O gesto foi interpretado como uma tentativa do governo interino de Delcy Rodríguez de reduzir tensões internas e sinalizar disposição política diante do cerco internacional e da instabilidade institucional provocada pela ausência de Maduro.
Lula informou ainda que, a pedido do governo venezuelano, autorizou o envio imediato de 40 toneladas de insumos e medicamentos, parte de um total de 300 toneladas já arrecadadas pelo Brasil. O material será destinado à recomposição de estoques estratégicos, incluindo produtos e soluções para diálise, após bombardeios que atingiram um centro de abastecimento durante a operação militar dos EUA. A medida reforça o papel do Brasil como ator humanitário e diplomático em meio à crise.
Brasil e Colômbia compartilham as maiores fronteiras terrestres com a Venezuela, cada uma com mais de dois mil quilômetros de extensão. Essa proximidade transforma qualquer instabilidade venezuelana em um problema direto para os dois países, seja pelo risco de deslocamentos populacionais em massa, seja pelo impacto sobre a segurança fronteiriça e as economias locais.
O contato entre Lula e Petro ocorre um dia após o presidente colombiano ter conversado diretamente com Donald Trump, em meio a uma troca pública de acusações e ameaças feitas pelo presidente norte-americano contra o governo da Colômbia. O episódio reforça a percepção de que a crise venezuelana passou a ser o eixo central de uma disputa mais ampla entre os Estados Unidos e governos sul-americanos que defendem maior autonomia regional.
A articulação entre Brasil e Colômbia sinaliza a tentativa de construir um eixo político regional capaz de frear a escalada militar dos EUA e evitar que a Venezuela se torne um laboratório de intervenções unilaterais. Nos bastidores, diplomatas avaliam que a resposta sul-americana à crise será decisiva para definir se a ação contra Caracas permanecerá um episódio isolado ou abrirá caminho para novas ofensivas no continente.




