Dono do Banco Master e figura influente no futebol e na mídia, Vorcaro enfrentou o colapso de seu conglomerado enquanto construía pontes com políticos, governantes do Golfo e sistemas financeiros usados historicamente para lavagem de dinheiro
Antes de ser preso pela Polícia Federal, Daniel Vorcaro orbitava o topo da elite financeira emergente: jatinhos, participação no Atlético Mineiro ao lado de Rubens Menin, influência na mídia e relações com governadores. As investigações, porém, revelam que o Master operava com títulos sem lastro, apoio político para sobreviver e promessas de aportes de fundos árabes com histórico de opacidade. A rota de fuga — Malta — reforça suspeitas sobre o alcance internacional do esquema.
O banqueiro que virou símbolo do “dinheiro novo” brasileiro
Vorcaro não era apenas um executivo do sistema financeiro. Controlava uma frota de aeronaves, participava do comando do Atlético Mineiro e se aproximava de empresários da mídia, como Rubens Menin, da CNN Brasil. Esse ecossistema lhe deu projeção suficiente para circular entre governadores, investidores internacionais e imprensa — que, até a véspera da operação policial, ainda noticiava supostas negociações de compra do Master por R$ 3 bilhões envolvendo fundos árabes.

O colapso revelou outra face: o Master “emitia moeda”, vendendo papéis sem lastro com promessa de retorno de 40% — uma rentabilidade que nem no mercado de risco extremo encontra paralelo.
Governadores e dinheiro público como “boia de salvação”
Governadores como Cláudio Castro (RJ) e Ibaneis Rocha (DF) aparecem no centro dos aportes que tentaram manter o Master respirando.
• Castro, segundo a apuração, usou recursos da Rio Previdência — o fundo previdenciário dos servidores do Estado.
• Ibaneis, apontam os investigadores, buscava repetir a manobra com o BRB, banco estatal de Brasília.
Nenhum dos dois investiu recursos próprios, mas ambos colocaram patrimônio público em risco para sustentar uma instituição privada que, àquela altura, já estava tecnicamente insolvente.
O truque dos fundos árabes – e a máquina de propaganda
A promessa de um aporte de US$ 3 bilhões de fundos do Golfo — anunciada pelo próprio Vorcaro — não é vista, hoje, como coincidência. Países como Catar, Emirados Árabes e Arábia Saudita possuem históricos de transparência limitada e sistemas financeiros usados reiteradamente para operações internacionais de lavagem, evasão fiscal e compra de influência.
Casos como:
• a suspeita compra de votos para o Mundial de 2022 pelo Catar;
• as relações nebulosas com dirigentes como Michel Platini;
• o histórico brasileiro envolvendo Ricardo Teixeira, Sandro Rosell e Cláudio Honigman — pioneiros nas operações trianguladas com o Golfo.
Vorcaro parecia conhecer o método: anunciar dinheiro externo vultoso legitima, perante a opinião pública e investidores locais, operações financeiras sem lastro.
E parte da imprensa ecoou. Na véspera da operação policial, manchetes davam como certa a compra do Master por um grupo com “investidores árabes”. Isso ajudou a manter a aparência de solvência do banco — e reforça a suspeita de que havia uma estratégia de comunicação para segurar a confiança do mercado.
O destino final: Malta, o paraíso fiscal que explode jornalistas
A PF afirma que, quando detido, Vorcaro pretendia voar para Malta, destino conhecido entre operadores internacionais por sua legislação tributária permissiva. A ilha não cobra impostos sobre fortuna, bens no exterior ou ganhos de capital de não residentes — ambiente ideal para blindagem patrimonial de quem enfrenta investigações.
Mas Malta tem outro histórico: repressão violenta a quem tenta expor os vínculos entre seus governantes e sistemas financeiros ilícitos.
A jornalista Daphne Caruana Galizia, referência em investigação sobre corrupção e lavagem de dinheiro, foi assassinada após denunciar o papel da ilha em operações globais de ocultação de ativos. Seu carro explodiu por controle remoto. A investigação revelou o envolvimento de empresários e agentes do alto escalão do país.
A rota de Vorcaro, portanto, não era casual — e reforça a tese da PF: havia intenção de se refugiar em um país onde rastrear patrimônio é quase impossível.
Sistema opaco, aliados poderosos e obstáculos internacionais
O Brasil já enfrenta dificuldades para obter informações financeiras do Catar e de Malta. Ambos são conhecidos por proteger sigilo bancário e por atrair patrimônio de origem duvidosa.
O histórico recente mostra isso:
• O FBI teve de intervir para investigar as joias dadas a Bolsonaro por autoridades do Golfo;
• Jared Kushner, intermediário de Donald Trump na região, opera politicamente em nome de regimes que mantêm baixo grau de transparência;
• decisões judiciais brasileiras, como a que anulou a condenação do russo Alessander Rossa, mostram como operadores internacionais conseguem se infiltrar até na máquina pública — ele chegou a ser nomeado secretário de Turismo em Atibaia por indicação de Frederick Wassef, advogado de Bolsonaro.
Rossa, que se vendia como milionário ligado a investimentos árabes e foi preso com dólares e reais em espécie, ilustra como sistemas financeiros do Golfo são frequentemente usados como ponte para lavagem global — exatamente o tipo de cenário que, segundo investigadores, se encaixa nas movimentações de Vorcaro.
O que os investigadores veem como “padrão internacional” na atuação de Vorcaro
As características identificadas pela PF — emissão de títulos fictícios, tentativas de triangulação com fundos pouco transparentes, uso de paraísos fiscais, apoio político e blindagem midiática — compõem, segundo especialistas, um modus operandi globalizado, comum a bancos envolvidos em fraudes de grande escala:
1. Garantias inexistentes ou infladas
Papéis sem lastro eram vendidos como investimentos sólidos.
2. Aportes estatais usados para manter a aparência de solvência
Recursos públicos serviam de escudo temporário.
3. Narrativa pública sobre “investidores árabes”
Usada para legitimar operações que nunca se concretizaram.
4. Tentativa de fuga para Malta
Local ideal para camuflar patrimônio e dificultar cooperação internacional.
Para o MPF e a PF, o caso Master não é isolado: é expressão brasileira de um circuito global de lavagem e manipulação financeira.




