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CPI apura que por ‘vacinas’, Saúde ignorou laboratórios para favorecer atravessadores

Carvalho apontou a existência de dois grupos que atuavam na compra de vacinas na pasta, sempre com preferência por empresas intermediárias. Um, do ex-diretor de Logística Roberto Dias, outro do ex-secretário Executivo da Saúde, coronel Élcio Franco. Além disso, citou a participação de vários coronéis em negociações suspeitas

 

 

 

Enquanto milhares de brasileiros morriam de Covid-19 todos os dias, em um dramático pico de casos e óbitos, em fevereiro, o governo atrasava a chegada de vacinas e optava por negociar a compra de imunizantes por meio de atravessadores. Nesta quinta-feira (15), a CPI da Covid-19 ouviu o depoimento de Cristiano Carvalho, representante da Davati Medical Supply, empresa não autorizada pela AstraZeneca a vender vacinas em nome da fabricante. Mesmo assim, o Ministério da Saúde acelerou negociações para a compra de 400 milhões de doses, em uma intrincada teia de atores, inclusive militares, dentro e fora da pasta. 

Carvalho apontou a existência de dois grupos que atuavam na compra de vacinas na pasta, sempre com preferência por empresas intermediárias. Um, do ex-diretor de Logística Roberto Dias, outro do ex-secretário Executivo da Saúde, coronel Élcio Franco. Além disso, citou a participação de vários coronéis em negociações suspeitas.

Dias foi acusado pelo vendedor de vacinas Luiz Paulo Dominguetti de ter pedido propina de U$ 1 por cada dose de um total de 400 milhões de imunizantes que seriam vendidos ao ministério. Carvalho confirmou que soube do pedido de propina, apesar de não ter participado do jantar em um shopping de Brasília, no qual Dias teria feito o pedido a Dominguetti, na presença de seu ex-assessor, o coronel da reserva Marcelo Blanco. Dias é ligado ao deputado Ricardo Barros, líder do governo na Câmara.

Carvalho também relatou que soube de um pedido “comissionamento”, que seria destinado ao “grupo” de Blanco e de um coronel de nome Odilon, mas não revelou valores.

Ele também admitiu que foi procurado por Roberto Dias para tratar das vacinas  que seriam vendidas pela Davati mas que a ele não foi feito nenhum pedido de propina. Segundo revelou a Folha de S. Paulo, as conversas ocorreram antes de a empresa formalizar a oferta de imunizantes, indicando pressa da Saúde para a concretização do negócio.

Carvalho sustenta que foi procurado por Dominguetti, que já estava em diálogo com servidores do ministério por meio do reverendo Amilton Gomes de Paulo, da ONG Senah. Os três participaram de reunião na pasta em março.

 

Instituto Força Brasil

Outro interlocutor com força dentro do ministério, segundo Carvalho, seria o coronel da reserva Hélcio Bruno, do Instituto Força Brasil. De acordo com o depoimento de Cristiano, foi Bruno quem marcou reunião no Ministério da Saúde com Elcio Franco. A reunião ocorreu em 15 de março. O Instituto, cujo site estranhamente foi retirado do ar momentos antes do inicio da sessão, é conhecido por disseminar fake news pela internet, inclusive com narrativas antivacinas.

“O Instituto Força Brasil, comandado por um coronel e citado no escândalo da Davati, fez campanha sistemática contra vacina. Mas mudou de posição na negociata com o governo Bolsonaro para vender 400 milhões de doses ao custo de U$ 6 bi, com um adicional de propina de 1 dólar por dose”, escreveu o senador Humberto Costa (PT-PE), pelo Twitter.

 

“Dois caminhos no ministério”

“Havia dois caminhos no ministério, aparentemente. Um era via Elcio Franco, e outro pelo Roberto Dias. O caminho que ele [Dominghetti] tentou via Roberto Dias aparentemente não prosseguiu por conta de algum pedido que foi feito, lá, segundo chegou para mim no primeiro momento como grupo do Blanco ou do Odilon”, relatou Cristiano.

O representante disse ter achado estranho que Élcio Franco não soubesse das negociações para venda de imunizantes com Roberto Dias que, por outro lado, também estava desinformado sobre as tratativas da Davati com Franco.  O coronel Blanco, por sua vez, mesmo fora da pasta, falava como um representante de seu ex-chefe, Roberto Dias, apontou Carvalho. 

 

Associação de coronéis

“Estamos falando do coronel Guerra, do coronel Boechat, do coronel Élcio Franco, do coronel Hélcio Bruno. Ou seja, temos uma associação de vários coronéis em torno dessa operação Tabajara”, denunciou o senador Rogério Carvalho (PT-SE).

 

 

“Tão grave quanto essas acusações de corrupção é a constatação de que, em meio a uma pandemia como essa, o Ministério da Saúde foi governado às bases da trapalhada, o que só mostra a falta de seriedade desse governo”, bradou o senador Humberto Costa. “É um desgoverno. São pessoas despreparadas, pessoas sem experiência, que não conseguem distinguir uma empresa como a Pfizer, de uma empresa como a Davati”, lamentou o senador.

Bolsonaro envolvido

Rogério Carvalho apresentou áudios e trocas de mensagens, obtidos do celular de Luiz Paulo Dominguetti, de conversas entre ele e Cristiano Carvalho. Um dos assuntos seria a intermediação do reverendo Amilton na negociação, inclusive com acesso direto ao presidente Bolsonaro.

Ele citou trecho de  mensagem em que Dominguetti diz que uma mulher identificada como Maria Helena confirma um encontro do reverendo com o próprio Bolsonaro. “O esquema de corrupção vai dos membros do ministério até o presidente da República”, acusou Carvalho.

 

 

Em outro áudio, Carvalho aparece chamando o reverendo Amilton de “pilantra”. Em mais um trecho, Dominguetti afirma a Carvalho que “não se vende ao ministério sem compor, lá não é fácil, é loteado politicamente”. 

“Temos uma situação de clara tentativa de corrupção, que envolve vários militares, que tem grupos no Ministério da Saúde que disputam as benesses dos processos de compra: o núcleo militar, o núcleo de militar com parlamentares”, apontou o senador.

Para ele, não é porque o negócio não foi concretizado, inclusive, por causa da atuação da CPI, que o escândalo deve deixar de ser investigado.  ‘É muito grave”, concluiu o Rogério Carvalho.

Da Redação do PT

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