Projeto chega à segunda edição com expansão territorial, debate público, tecnologia imersiva e obras que recontam a cidade
Campinas volta a receber intervenções artísticas em larga escala com o Festival Ocre 2025, que nesta segunda edição expandiu o número de artistas, ocupou novas regiões e intensificou o debate sobre o papel da arte urbana no espaço público.
Com o tema “Ruas que Contam Histórias”, o festival reuniu 16 artistas da região — seis a mais que no ano anterior — para criar obras que dialogam com trajetórias pessoais, memórias coletivas e referências locais. As intervenções se espalharam por dez pontos da cidade, incluindo Unicamp, Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC), Estação Cultura e bairros como Ouro Verde, Campo Grande, Jardim Garcia, Aurélia, Santa Lúcia e Padre Anchieta.

A idealizadora do projeto, Gislaine “Gim” Martins, explica que a ampliação do número de locais foi estratégica: “A ideia é levar o entendimento sobre a arte urbana para todos os cantos de Campinas”. Segundo ela, ainda há resistência e desconhecimento sobre esse tipo de expressão. “Campinas é muito conservadora sobre o que é arte urbana. Precisamos provocar conversas e fomentar novas intervenções.”
Programação e encontros públicos
O Encontro Festival Ocre 2025 ocorre em 29 de novembro, na Sala dos Toninhos, com exposição de fine arts, rodas de conversa, feira de arte, exibição de documentário imersivo e customização ao vivo. A programação inclui debates sobre inovação, impacto social e interseções entre arte e moda, com participação de nomes como Gim Martins, Thiago Toshio, Marta Henriksen, Enivo, Felipe Grimaldi e outros convidados.
Em 7 de dezembro, o festival promove uma visita guiada gratuita às obras. Um transporte sairá da Estação Cultura, percorrendo todos os pontos das intervenções. O público terá explicações sobre processos, técnicas e histórias por trás de cada trabalho. A inscrição será aberta pelo Instagram oficial do projeto.
Além da visita aberta ao público, haverá um roteiro exclusivo para crianças de escolas públicas, ampliando a proposta educativa do festival. Dois documentários também serão lançados — um imersivo, exibido em realidade virtual, e outro com registro integral do processo criativo e dos debates.
Obras que dialogam com a cidade
Entre as intervenções que mais chamaram atenção, está o banco em formato de rinoceronte instalado em frente ao MACC, obra de João Caçador. A peça faz referência a uma exposição de Salvador Dalí que esteve no museu em 1998. “Aquele rinoceronte me marcou e me fez querer ser artista”, relembra.
No Hospital das Clínicas da Unicamp, o muralista Fabiano Carriero criou uma pintura de 40 metros voltada aos profissionais que circulam diariamente pelo local, enquanto Marta Henriksen instalou no Terminal Campo Belo uma composição geométrica que simula um portal. Já no Ouro Verde, Vida do Valle Canova realizou um mural sem início nem fim, pensado como narrativa sobre as lutas íntimas que atravessam o cotidiano.
Tecnologia como camada narrativa
Todas as obras possuem QR codes com audiodescrição, vídeos e conteúdos acessíveis em Braille. Além disso, contam com uma camada de realidade aumentada que projeta novas dimensões sobre o trabalho original. O tecnólogo criativo Thiago Toshio afirma que o objetivo é conectar gesto artesanal e inovação: “A arte urbana tem poder de resgate e transformação. Quando a tecnologia se soma a ela, esse poder se amplia”.
Ele destaca que o foco não é substituir a criação manual, mas ampliá-la: “O festival é um manifesto de como arte e tecnologia podem caminhar juntas para revitalizar espaços e alimentar o espírito coletivo”.
Artistas participantes
Assinam as obras: Vanusa Passos (Nus), Beatriz LuMO, Marta Henriksen (Miss), Ratos, Wagner de Oliveira Tavares (Tóxico), Gustavo Cesar Pereira (Noel), Rebeca dos Santos Pereira (Beca), Emerson Dias, Dimeh, Moai, Fabiano Carriero Eiras (Carriero), Vida do Valle Canova, Nihao, João Caçador, Katrine Santos e a própria Gim.
Bastidores, impacto e financiamento
Projetos públicos e privados têm observado o crescimento de festivais de arte urbana pelo Estado, mas ainda há lacunas na política cultural municipal para apoiar intervenções contínuas. A edição de 2025 do Ocre foi contemplada pelo ProAC Editais – PNAB 2024, o que garantiu estrutura para a expansão territorial. No entanto, artistas relatam que a manutenção das obras ao longo dos anos continua sendo um desafio, especialmente em locais de grande circulação.
Entre gestores culturais da cidade, há expectativa de que a repercussão do festival pressione a criação de um programa permanente de arte urbana em Campinas, algo similar ao que cidades como Belo Horizonte e Fortaleza já estruturaram. Nos bastidores, integrantes do movimento artístico relatam que o festival despertou interesse de empresas locais em possíveis patrocínios para 2026, mas ainda sem confirmação pública.
Serviço:
Encontro Festival Ocre 2025
Data: 29/11, a partir das 13h (rodas de conversa com início às 14h)
Local: Sala dos Toninhos
Endereço: rua Francisco Teodoro, 1050, Vila Industrial, Campinas
Entrada gratuita
Visita guiada Festival Ocre 2025
Data: 07/12
Local de saída: Estação Cultura
Endereço: Praça Mal. Floriano Peixoto – Centro, Campinas
Mais informações e inscrição: Instagram @ocre.arte
Entrada gratuitaFotos de destaque




