Investigação mira operação bilionária e pressiona atores do sistema financeiro
A tentativa de venda do Banco Master ao BRB evoluiu para confronto direto de versões no Supremo. Colocados frente a frente após divergências identificadas pela Polícia Federal, o controlador do Master, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa, foram submetidos a acareação na noite de terça, após depoimentos individuais considerados conflitantes. O encontro, acompanhado por gabinete do relator Dias Toffoli e Ministério Público, terminou por volta das 21h35, sem informações oficiais sobre convergência das versões.

Horas antes, ambos haviam prestado depoimentos de mais de duas horas cada. O ponto central é o negócio rejeitado pelo Banco Central e abortado em meio a suspeitas de forjamento de ativos, com impacto direto na liquidação do Master e repercussões para o sistema financeiro. A investigação aponta que carteiras de crédito consignado avaliadas em R$ 12,2 bilhões foram transferidas ao BRB antes de qualquer formalização, incluindo contratos classificados como falsos e prêmios associados à valorização das carteiras.
Embora também ouvido, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino Santos, não participou da acareação. O afastamento dele do confronto preserva, por ora, a autoridade monetária de exposição direta no caso, mas reacendeu a tensão entre órgãos de fiscalização e instituições financeiras. Entidades setoriais manifestaram preocupação, em posicionamento público, destacando o risco de abalo institucional na atuação da autarquia.
No cerne da apuração, o Master teria adquirido créditos da empresa Tirreno sem pagamento e posteriormente repassado os ativos ao BRB, que teria desembolsado cerca de R$ 12 bilhões. À época, Costa defendia a compra como saída para salvaguardar o Master, que acumulava dificuldades para honrar títulos com vencimento no ano seguinte. As negociações fracassaram após veto da Diretoria de Organização do Sistema Financeiro do BC e recomendação de liquidação feita pela área de Fiscalização. A decisão foi confirmada pela diretoria colegiada, resultando no fechamento do banco no dia 18 de novembro.
A liquidação, aprovada de forma unânime, foi seguida por desdobramentos imediatos: operação Compliance Zero, prisão temporária de Vorcaro por 12 dias e monitoramento por tornozeleira eletrônica. Desde dezembro, qualquer diligência depende de autorização de Toffoli, que mantém o processo sob sigilo. O magistrado também determinou que todos os atos passem pelo seu gabinete, ampliando o controle sobre a condução do inquérito.
As versões conflitantes atingem agora o estágio de responsabilização direta dos principais protagonistas da operação. Enquanto Vorcaro e Costa se distanciam das decisões mais críticas, documentos internos e registros bancários, segundo investigadores, apontam para participação ativa de ambos nas negociações e eventuais omissões na comunicação ao Banco Central. A relação com a Tirreno aparece como ponto sensível: investigadores tratam o fluxo financeiro entre a empresa e o Master como possível núcleo de irregularidades.
O depoimento de integrantes do BC, ainda que não investigados, indica que a apuração busca delimitar não apenas a autoria dos fatos, mas também eventuais falhas de supervisão. Nos bastidores, a presença de reguladores no STF é lida como indicativo de que o caso tende a ampliar o raio de alcance, ultrapassando o Master e mirando mecanismos de controle do mercado. O gabinete de Toffoli nega ter enviado oficiais de Justiça ao banco liquidado para intimar o responsável pela liquidação, em meio a críticas sobre excesso de intervenção.
O caso avançará com foco na reconstrução da trilha financeira, análise dos contratos supostamente forjados e identificação de quem conduziu e autorizou cada etapa da venda. A PF avalia, segundo interlocutores próximos ao inquérito, medidas para aprofundar a obtenção de dados bancários e cruzamento de comunicações internas entre Master, BRB e Tirreno.
Trilha do dinheiro e conexões
Os indícios apontam para três eixos principais: a compra de créditos nunca quitada junto à Tirreno; o repasse ao BRB com pagamentos efetivos apesar da falta de lastro; e a pressão por soluções de mercado antes da intervenção regulatória. Os R$ 12,2 bilhões envolvidos seguem como referência para o cálculo de danos potenciais ao erário e ao sistema financeiro. O inquérito busca esclarecer se houve dolo empresarial para manter o banco em atividade mesmo sem respaldo patrimonial suficiente.




