Três personagens, quatro monólogos e a história de uma trupe bastante incomum que viaja por cidadezinhas do interior, apresentando um número que se situa entre uma representação teatral e um culto religioso de cunho sobrenatural. Esse é o ponto de partida para as situações que acontecem na peça O Fantástico Reparador de Feridas, do irlandês Brian Friel, dirigida e traduzida por Domingos Nunez, tendo como protagonistas Walter Breda (comemorando 50 anos de carreira), Mariana Muniz e Rubens Caribé. A produção é da Cia. Ludens, grupo teatral que se dedica à montagem de textos de dramaturgos da Irlanda.
A estréia do espetáculo acontece em 18 de setembro na Sala Paulo Emílio do Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000 – Metrô Vergueiro – Fone: 3397-4001).
Na equipe de criação, os figurinos são de Chico Cardoso, iluminação de Aline Santini, trilha sonora original de Ricardo Severo e cenografia da Cia. Ludens. A direção de produção é de Julio Cesar Pompeo.
Os três personagens de O Fantástico Reparador de Feridas são Frank, Grace e Teddy. Frank (Walter Breda) é um homem que vive atormentado por possuir um dom sobre o qual não tem nenhum controle e tenta aplacar seus questionamentos com doses colossais de uísque. Sua mulher, Grace (Mariana Muniz), advogada e filha de um juiz aristocrata, acusa, defende, busca evidências e comprovações para justificar seu estado mental. Teddy (Rubens Caribé), empresário de artistas exóticos e decadentes, transita entre a frieza profissional, a admiração por Frank e uma possível paixão por Grace. Juntos, os três tentam sobreviver cobrando ingressos de inválidos em apresentações das quais podem sair curados. De vilarejo em vilarejo vão vivendo suas histórias e cada um tem sua própria versão dos fatos.
Talvez o elemento de ligação que permeie a produção dramatúrgica de Friel seja o seu esforço em discutir através do teatro as diversas formas de representação da linguagem e suas convenções. Em O Fantástico Reparador de Feridas Friel constrói sua narrativa totalmente calcada nas possibilidades da metalinguagem. O rigor da carpintaria teatral, a ousadia do dramaturgo com este experimento, a temática abordada e a proposta estética sugerida pelo próprio texto são elementos que fazem desta peça um dos momentos mais criativos dentro da trajetória artística do escritor.
Com o texto construído sobre a estrutura de quatro monólogos, Friel se propõe questionar a linguagem articulada como instrumento seguro para um testemunho que ateste com precisão a veracidade dos fatos. A memória, os sentimentos e interesses escusos são poderosos agentes que atuam sobre a linguagem no sentido de distorcê-la, amenizá-la, ridicularizá-la.
Assim, cada uma das personagens da peça narra diretamente para a platéia, de acordo com suas próprias conveniências, alguns fatos que vivenciaram juntas durante uma época. Ao contar suas experiências, as personagens têm o intuito de convencer os espectadores e a si próprias de que aquele ponto de vista é o que mais se aproxima do que realmente aconteceu. Aos poucos, tece-se uma cadeia de informações que se complementam e se opõem e que, necessariamente, pela própria natureza da linguagem articulada, levarão os espectadores a tirar suas próprias conclusões.
Extremamente atual, este texto coloca a questão da manipulação da linguagem como um dos pilares para uma possível representação do mundo contemporâneo. Em última análise, tudo depende do ponto de vista do observador que, de um modo ou de outro, relativiza os discursos a que está exposto e os reorganiza de acordo com suas próprias necessidades, sentimentos e limitações. A natureza religiosa do número que apresentam aproxima o texto do Brasil, em cujo território proliferam-se igrejas, templos e curandeiros que prometem tipos variados de curas e arrastam multidões de necessitados. Seus cultos se transformam em uma mistura de busca por um sentimento de fé genuína, com demonstrações que facilmente fariam parte de um “freak show” e exibições de cenas dignas de um filme de horror.
A CIA LUDENS, O TEATRO IRLANDÊS E O BRASIL CONTEMPORÂNEO
Desde a sua fundação em 2002, a Cia Ludens dedica-se sistematicamente à pesquisa, estudo e prática relacionados à dramaturgia irlandesa e sua conexão com a realidade social e política do Brasil atual. A Cia dedica-se à montagem de textos de dramaturgos irlandeses e à realização de Ciclos de Leituras, como forma de abrir ao público seu processo de pesquisa. Os seis primeiros anos de investigação resultaram em quatro montagens de textos e autores provenientes daquele país. A primeira, Dançando em Lúnassa (escrita em 1999), de Brian Friel, produzida em 2004; a segunda, Pedras nos Bolsos (2000), de Marie Jones, em 2006; a terceira Idiota no País dos Absurdos (1935), de Bernard Shaw, em 2008; e em 2009, O Fantástico Reparador de Feridas, também de Friel.
Juntamente com as duas primeiras produções, a Cia realizou dois Ciclos de Leituras que consistiam em uma amostra do trabalho de pesquisa efetuado para a montagem das peças, abrindo ao debate os processos investigativos da companhia. O primeiro Ciclo, Teatro Irlandês do Século XX, em 2004, foi realizado no Auditório da Cultura Inglesa de Higienópolis, SP, e contou com a participação de especialistas da USP e da UNESP e dos grupos convidados Três de Sangue e Cia dos Narradores. Além de Brian Friel, estavam no programa W. B. Yeats, J.M. Synge e Sean O’Casey. No Segundo Ciclo, Teatro Irlandês do Século XXI – A Geração Pós-Beckett, realizado em 2006, na Unidade Provisória do SESC Avenida Paulista e que contou basicamente com a participação dos mesmos debatedores do evento anterior, foram lidas pela Cia Ludens e atores convidados cinco peças irlandesas inéditas no Brasil, escritas já no século XXI. No programa, além de uma retrospectiva em homenagem a Samuel Beckett e seus antecessores, autores já incluídos no Ciclo anterior, figuravam alguns dos nomes mais expoentes da dramaturgia irlandesa contemporânea, entre eles: Tom Murphy (Trilogia de Alice), Sebastian Barry (Assoviando para Psiquê), Marina Carr (Ariel), Vincent Woods (Um Grito do Céu) e Brian Friel (Performances); este último considerado o mais importante dramaturgo em atividade naquele país.
O Terceiro Ciclo, intitulado Bernard Shaw no Século XXI foi contemplado com um dos prêmios concedido pela Secretaria Estadual de Cultura e será realizado ainda neste ano de 2009. Mais uma vez, como forma de tornar público o processo de trabalho e contribuir com o debate sobre dramaturgia e performance no Brasil contemporâneo, para este ciclo foram selecionados Quatro Textos Curtos de Bernard Shaw, inéditos em português e traduzidos por Domingos Nunez, diretor artístico da Cia. A direção da leitura destes textos, além de Nunez, ficará a cargo dos diretores convidados Márcio Aurélio, Maria Thaís e Yara de Novaes. Eles farão parte da mesa debatedora, juntamente com especialistas convidados.
SOBRE O AUTOR
Brian Friel nasceu em 19 de Janeiro de 1929 em Omagh, Irlanda do Norte. Foi professor de inglês em uma escola primária e começou escrevendo peças para o rádio. No teatro alcançou seu primeiro grande sucesso internacional em 1964 com Philadelphia, Here I Come! (Filadélfia, lá vou eu!). Desde então, escreveu diversas peças de sucesso.
Além dos muitos prêmios recebidos, ele é um dos fundadores da Field Day Company, em Derry e supervisionou, juntamente com outros membros fundadores, como o poeta Seamus Deane e o ator Stephen Rea, o início da publicação do Field Day Anthology, em 1980. Esta publicação, idealizada como uma parte integrante do projeto maior da companhia, que estreava com a peça Translations, de Friel, tornou-se uma das referências nos círculos intelectuais da Irlanda e continua em circulação até os dias de hoje, ainda que sob a supervisão de outros profissionais das artes.
Antes de começar a escrever para o teatro, utilizando-se de diversos estilos e temáticas, Friel também se aventurou na ficção e escreveu em 1966 um livro de contos, The Gold in The Sea. Suas peças mais celebradas desde Filadélfia… são: Lovers (1967); The Freedom of The City (1974); Aristrocrats e Faith Healer (1979); Translations (1980); Making History (1988); Dancing at Lughnasa (1990); Wonderful Tennessee (1993); Molly Sweeney (1996); Give Your Answer, Do! (1997) e Performances (2005). Em 2006 Friel revisita a estética e a temática utilizadas em Translations e escreve The Home Place. A identificação do autor com a literatura e dramaturgia russas resultou em adaptações de textos provenientes daquele país. Ele reescreveu para o teatro, Three Sisters (1981) e Uncle Vanya (1998), de Tchekhov; e Fathers and Sons (1987), de Turgenev. Em 2008 Friel reescreveu Hedda Gabler, de Ibsen e a peça estreou no Gate Theatre, em Dublin, em outubro.
Friel foi senador no período de 1987 a 1989, recebeu recentemente o título de Cidadão Honorário pela University City of Dublin, é um dos membros da Academia Americana de Artes e um dos Amigos da Sociedade Real de Literatura.
FICHA TÉCNICA
Autor: Brian Friel / Tradução e Direção: Domingos Nunez / Colaboração em Português: Julio Cesar Pompeo / Cenografia: Cia.Ludens / Figurinos: Chico Cardoso / Iluminação: Aline Santini / Iluminadora Assistente: Catarina Romitelli / Trilha Sonora Original: Ricardo Severo / Fotos: Rodrigo Hypolitho / Programação Visual: Hiro Okita / Produtora Associada: Beatriz Kopschitz X. Bastos / Direção de Produção: Julio Cesar Pompeo
O FANTÁSTICO REPARADOR DE FERIDAS – Serviço:
Local: Centro Cultural São Paulo – Sala Paulo Emílio (Rua Vergueiro, 1000 – Metrô Vergueiro – Fone: 3397-4001)
Estréia: 18 de setembro de 2009, sexta-feira, 21h – Curta Temporada: até 1º. de novembro
Horários: sexta e sábado, 21h – domingo, 20h
Duração: 90 minutos
Classificação: Recomendada para maiores de 14 anos
Lotação: 100 lugares
Preços: R$ 15,00 e R$ 7,50 (meia)
Horário de atendimento da bilheteria: a bilheteria abre 2 horas antes de cada espetáculo
Instalações: ar-condicionado, acesso a portadores de necessidades especiais, café.




