Tenho a minha origem próxima à antiga estação de bonde, hoje leva o nome de estação ambiental, nome moderno e nada funcional de Joaquim Egídio. Lá que nasceu a minha infância. Aprendi a escolher alguns lugarejos para prender lembranças. Ah! Se elas escapam… Não tenho suporte para o abandono.
Só dou valor para coisas desimportantes. Adoro ouvir recital de pardais, esperando a noite arrimar-se. Ver vaga-lumes sonhando, e quando sonham exalam perfumes de lua cheia. A lua tem essências aromáticas para quem ama sem interesse.
Sou plantador de ilusões, cultivo sementes de vida. Jardineiro por opção, preparo o estrume para o jardim imaginário.Todos me perguntam porque
imaginário? E que por devaneio do destino, preparando esterco para as próximas plantações. Encontrei entre as imundícies, uma folha de caderno de uma menina, de 10 anos, que estuda na escola Barreto Leme, uma lição de geografia , que dizia o seguinte: “a devastação causada na natureza pelo homem contemporâneo vai destruir o planeta”. Então me perguntei , qual será o futuro do planeta e dessa menina? Toda a minha vivência é para o jardim imaginário, e cada semente que germina vida, eu penso naquela menina, na lição de geografia e na pobre lesma, que mesmo nua de intransigência espalha seu gozo, o de estar viva e caminhando em direção incerta em busca de felicidade. Nestas horas eu penso na mãe Ana, que sempre repetia em tardes de arco-íris “tudo que acontece neste lugarejo está também ocorrendo em algum lugar neste planeta, somos todos interligados” Dona Ana é analfabeta.
Os Bem-te-vis, trazem as notícias em silêncio! Entre vários caminhos, os indecisos se escondem atrás do cisco de Deus. Em um instante do movimento de minha memória, lá estava ele: Seo Adão, caminhar elegante, coluna ereta, um cavaleiro andante com seu chapéu cor de terra e seu cão encantado. Sua moradia era assim, casa de madeira e de favor. Quem se lembra de sua importância? A sua desimportância quase humana incomodava. Com seu olhar único cheio de cicatriz e de sonhos perdidos. Alimentava-se de insônias. Tinha maior simpatia pelo seu Adão. Dia de domingo, é dia de conversa. Poucos tinham coragem para uma boa prosa. Só o pessoal do posto de saúde de Joaquim e alguns freqüentadores do Turbos Bar. Amizade não tinha, só o de cão quase lobo que adorava no cio, namorar a mila ,discretamente em noite de orvalho. Seu Adão em dia de prosa me confessou: As piores deformações são as invisíveis, as caladas, as mentirosas, as de sorrisos de plantão, que colocam o homem no mesmo sistema cerebral de uma ameba.
“O ordinário é uma auto renúncia a favor do natural”,aprendi isto com Goethe.
Assunto essencial:
1) O homem precisa aprender a ouvir o concerto do caule desenvolver-se, de um coqueiro, aguardando como se fosse momentos de lua de mel , o pouso alegre das maritacas.
2) O dólar está neste instante: R$ 1,99.
Sebastian Marques




