Desde que foi publicada pela primeira vez, em 2005, a história da adoção de um cão labrador por um jovem casal nos Estados Unidos conquistou milhares de fãs em todo o mundo. Mas foi no ano passado, em São Paulo, que a saga narrada pelo americano John Grogan em Marley & Eu conquistou uma leitora especial. “Curti bastante”, sorri Rita de Cássia Martins de Araújo, de 27 anos. Ela foi uma das responsáveis pelo trabalho que tornou o best-seller acessível a quem não pode enxergar.
Há mais de dois anos, Rita, que é deficiente visual, passa os dias lendo, com a ponta dos dedos, livros que serão distribuídos gratuitamente para mais de 1,7 mil bibliotecas, escolas e organizações de todo o Brasil. Seu trabalho é revisar as obras produzidas em Braille, na Fundação Dorina Nowill para Cegos. “É muito gratificante saber que outras pessoas vão poder ler esses livros que passam pela minha mão”, conta.
Antes de serem impressos, os livros são submetidos a duas revisões, realizadas por profissionais cegos, acompanhados por voluntários com visão normal. Rita chega a revisar, em um único dia, cerca de 200 páginas. Ao todo, dez pessoas fazem o mesmo trabalho na instituição criada há 62 anos pela paulistana Dorina de Gouvêa Nowill e um grupo de amigas.
Ali são fabricados, todos os dias, os livros didáticos, paradidáticos, bestsellers e literários para alunos cegos de todo o País. Além do Braille, a fundação produz obras em áudio e livros acadêmicos e de referência, no formato Livro Digital Acessível (Lida), que consiste em uma ferramenta de leitura digital em CD-ROM. O sistema permite à pessoa cega ou com visão subnormal acesso a obras destinadas ao estudo e à pesquisa. Esse sistema de leitura também já está sendo desenvolvido pela instituição no formato Daisy, uma evolução do Lida compatível com os protocolos internacionais de acessibilidade. O novo formato possibilita que um ou mais arquivos de áudio, gravados em voz humana ou sintetizada, sejam reproduzidos por meio de um aplicativo específico de leitura instalado no computador ou por equipamentos especiais importados, semelhantes a aparelhos de som com CD.
De acordo com o gerente editorial da Fundação, Roberto Gallo, a Dorina Nowill é a imprensa Braille com a maior produção da América Latina e uma das maiores do mundo em termos de capacidade produtiva. No final de outubro, cerca de 15 especialistas de países participaram de um encontro latino-americano de livros digitais acessíveis, sediado pela fundação. O objetivo é formar um consórcio com os países da região para a produção de livros digitais no formato Daisy. “É um passo enorme que a fundação está dando na questão do livro digital acessível”, afirma o gerente editorial.
Roberto Gallo também chama a atenção para o aumento no número de livros adaptados. Em 2005, 127 títulos foram produzidos na Dorina Nowill. Este ano, serão 1065 nos formatos Braille, áudio e digital. “Em três anos, aumentamos oito vezes nossa produção”, diz.
A fundação ainda conta com uma biblioteca circulante com mais de 900 títulos disponíveis nos formatos MP3 e digital. Coisa de quem realmente acredita no livro e na leitura como caminho para a inclusão social e trabalha, diariamente, para ampliar essa oportunidade a milhares de deficientes visuais de todo o Brasil.




