O papel da cartografia vai além do simples registro de ruas, avenidas e construções, ao retratar os vínculos entre a sociedade civil e o Estado, ou legitimar o poder político e econômico, revelando a identidade de um local. A documentação do espaço público paulista desenvolveu-se junto com a metrópole, acumulando então diversas funções, como o mapeamento dos serviços públicos e a implantação de planos viários e urbanísticos. Para mostrar essa evolução, a historiadora Maria Lúcia Perrone Passos e a arquiteta Teresa Emídio lançam Desenhando São Paulo: mapas e literatura (1877-1954). Fruto de parceria entre Editora Senac São Paulo Imprensa Oficial do Estado, o livro será lançado, em comemoração aos 455 anos da capital paulista.
Com prefácio de Ulpiano T.Bezerra de Meneses, a obra reúne mapas, plantas e desenhos que abrangem a criação e concepção de serviços públicos, sistemas viários e de transportes, entre outros, ao longo dos anos. As autoras escolheram o período de 1887, quando a capital, com 27 mil habitantes, começava a tomar ares de metrópole, a 1954, comemoração do quarto centenário. É durante esse espaço de tempo que a cartografia paulistana evolui e a antiga província transforma-se em cidade industrial. Boa parte desses documentos – pela primeira vez publicados de forma sistemática – são desconhecidos do público geral.
Entre os mais importantes está uma prancha do primeiro levantamento cadastral efetuado por meio da fotogrametria aérea. Dessa maneira, São Paulo tornou-se a primeira cidade do mundo a possuir cadastro em grande escala – importante para a documentação urbanística e registro da evolução dos serviços públicos. Iniciado em 1929, na gestão do prefeito José Pires do Rio, esse trabalho pioneiro, conhecido como Sara Brasil, foi realizado pela Società Anonima de Rilevamenti Aerofotogrammetrici (Sara), tendo sido entregue à municipalidade em 1933.
O repertório escolhido contém mapas mostrando pontos conhecidos da metrópole como Parque do Ibirapuera, Avenida Paulista, Museu do Ipiranga e de serviços necessários ao desenvolvimento urbano, econômico e social da cidade. Completam a seleção, plantas de locação de lâmpadas ou os croquis de companhias de venda de terrenos, para extensão da iluminação elétrica, os diagramas de volumes de tráfego e linhas de bonde que, juntas, revelam um rico acervo da história paulistana. Uma planilha técnica, elaborada por Teresa Emídio, detalha as especificações de cada documento, como a época de sua criação, escalas, dimensões e materiais em que foram confeccionados.
Os textos dão ritmo ao livro e descrevem a cidade na época da elaboração de cada mapa. São obras de historiadores, escritores, poetas, antropólogos, diplomatas, comerciantes nacionais e estrangeiros, entre eles Sergio Milliet, Rudyard Kipling, Claude Lévi-Strauss ou Stefan Zweig, e representam um contraponto aos desenhos e adicionam informações culturais e sociais.
Há ainda dois ensaios, de Maria Lúcia Perrone Passos e de Duarte Pacheco Pereira, sobre a iluminação pública da cidade e a revolução de 1924, respectivamente. “Esse jogo de imagem e texto confere à coletânea uma personalidade própria. Sem dúvida, constitui um rico conjunto de fontes disponíveis para quem desejar a produção de conhecimento novo, principalmente de caráter histórico. O livro é como um álbum de família. Assim, o território mapeado pode ser tratado não como espaço de controle, de gestão, de cognição, mas espaço da memória. Há gestão, sim, mas gestão do passado”, afirma o prefaciador.
Sobre as autoras
Maria Lúcia Perrone Passos é historiadora. Autora de duas teses sobre história medieval (USP), a primeira delas publicada em Portugal: O Herói na Crônica de D.João I, de Fernão Lopes (Lisboa, Ed.Prelo, 1974), e Lisboa, personagem de Fernão Lopes, escreveu também ensaios, e elaborou mapas, sobre a história das cidades de Lisboa e de São Paulo. Estudou na Ecole Pratique des Hautes Etudes en Sciences Sociales, em Paris. Lecionou no Colégio Sion e na Universidade Católica de São Paulo. Lecionou ainda durante dois anos na Georgetown University, em Washington D.C. (EUA), além de dar aulas no mestrado de História do Brasil na Universidade de Lisboa. Trabalhou no Departamento de Patrimônio Histórico da Eletropaulo de 1986 a 1989, onde coordenou a publicação Evolução Urbana da cidade de São Paulo. Coordenou cursos e publicações do Museu Paulista da Universidade de São Paulo (Museu do Ipiranga) e participa do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Atualmente, é historiadora do Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura, onde já havia trabalhado na década de 80 (gestão Mário Covas), quando coordenou e redigiu os textos da publicação conjunta Imesp/Terrafoto/DPH: Traços da Arquitetura Paulistana.
Teresa Emídio é arquiteta e urbanista. Paulistana, realizou sua extensão universitária na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, com especial atenção no tema Patrimônio Cultural e Políticas de Desenvolvimento. Na mesma universidade concluiu especialização em gestão ambiental. É também graduada em Belas Artes e possui projetos executados no campo da Programação Visual. Trabalhou no Departamento do Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura onde, entre outras atividades, fez o levantamento, seleção, cadastro e análise da cartografia histórica paulistana. Atualmente, desempenha suas atividades no Departamento de Planejamento Ambiental da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, voltadas à promoção de estratégias para a preservação de áreas verdes e adaptação do município aos impactos decorrentes da mudança do clima. Possui vários artigos publicados, entre eles, um sobre a administração pública municipal, a partir de análise dos relatórios de prefeitos de São Paulo (Ro, esses relatórios são nomes de documentos, por isso estão em caixa alta). Também tem ministrado palestras sobre a evolução urbana e gestão ambiental no município e a respeito da relação da paisagem estabelecida com a questão ambiental. Sobre esta última temática lançou o livro Meio Ambiente e Paisagem (Editora Senac São Paulo, 2006).
Serviço:
Desenhando São Paulo – mapas e literatura (1887-1954)
Autoras: Maria Lucia Perrone Passos e Teresa Emídio
Editoras: Senac São Paulo e Imprensa Oficial do Estado
Número de páginas: 181
Preço sugerido: R$ 120




