Eu fui negado no serviço de imigração em Atlanta, Geórgia, sem nenhuma razão aparente…Pois eu tinha dinheiro suficiente pra sobreviver por muito tempo, seguro de vida e saúde, carteira internacional da habilitação, data marcada pra voltar, etc…
Mas como isso não fosse suficiente, eles me trancaram, com mais duas pessoas, R.S. 22 anos, piloto de avião e Pedro Cervantes 24, Argentino, num banheirinho minúsculo com portas de chumbo, sem espaço pra nada, só tínhamos o toilet para usar, ficamos sem comida, bebida nem nada, num lugar quase sem ar pra respirar por mais de 12 horas…Eu fiquei tão frustrado que eu tinha que ser muito cuidadoso pra não perder minha paciência, que naquelas horas já estava explodindo…Ás vezes os oficiais da imigração abriam a porta faziam algumas piadas conosco, davam risada e nos trancavam em seguida…Uma oficial negra me chamava de bebê, e dizia que eu não sabia o que era sofrer porque ela era negra e sofria mais….Foi quando eu disse que no Brasil a gente não tem muito desses problemas de racismo como nos EUA, e que mais que metade do nosso povo é negro e orgulhoso disso, os americanos são tão racistas que eles tem preconceito deles mesmos, se sentem inferiorizados…
Eu estava muito desapontado com tudo isso, e não podia acreditar que eles poderiam ser piores que os terroristas do oriente médio…
Hoje eu sinto como que perdi minha dignidade e a vergonha tomou parte…Eles foram sobre minhas coisas, mexeram, desarrumaram jogaram no chão chamando de “junkie” o que eu tinha, e davam risada com minhas anotações e cartas que eu havia escrito…Me senti como um mexicano que não tem mais nada a perder tentando a sorte na fronteira do “novo mundo”, e eu não podia dizer nada, pois tudo o que eu dissesse ia ser voltado contra eu mesmo, contradito, deturpado distorcido…
Meu novo amigo R.S.,22, piloto de avião numa cidadezinha aqui perto, nunca tinha deixado a nossa terra antes, era sua primeira viagem internacional, foi negado, passou por tudo isso, mesmo com um bom dinheiro na mão e com data pra voltar, sua impressão dos gringos, foi de nunca mais querer vê-los na frente, mesmo que seu trabalho como piloto obrigue ele a voltar…Ele só queria praticar seu inglês, nos EUA por um ou dois meses…e teve seu visto cassado e deportado por 5 anos…
O Argentino Pedro Cervantes estava voltando lá pela segunda vez, não conseguiu, estava realmente feliz da vida, dizia que não se preocupava porque um americano nunca vai criar uma ruga nele de preocupação porque é exatamente isso o que eles querem…e é por isso que a vida deles é tão triste..e lá estava ele, na cela, no frio, contando piadas, mostrando o dedo pra câmera e se divertindo….Havia também uma costarriquenha, maravilhosa!!! Teve seu visto negado, mas como era mulher ficou presa em uma cadeira do lado de fora da cela, passou o dia todo chorando, não podia acreditar que isto estava acontecendo.
Os oficiais nos forçaram (psicologicamente), eu e R.S, nos pedindo pra assinar um texto que dizia que fomos muito bem tratados no serviço de imigração e naturalização dos U.S. , e que éramos responsáveis por tudo o que dissemos(ou fomos obrigados a dizer!!!)…Tudo isso é uma grande máfia!
A coisa que mais me chamou atenção foi o fato de a cela em que ficamos enclausurados, tinha muitos escritos de pichações, somente com países e nomes da América do sul, na mesa, cadeira, parede e chão…..Bolívia, Venezuela, Argentina, Peru, Chile, Equador, Colômbia, e só dois outros: Jamaica e Polônia….
Mas o Brasil foi o campeão, Rio, Santos, Campinas, São Paulo, em todo lugar escrito, eu me senti muito mal por não ter tirado fotos daquilo, mas o problema foi que eu tive todos meus pertences presos com os oficiais….Só pude pegar depois de implorar muito, duas bolachas que sobrou da viagem de ida…Implorei também, por um cobertor, pois eu estava congelando e ainda me recuperando de uma gripe forte, mas o cobertor chegou uma hora antes de eu ser libertado….Quando eu já estava totalmente doente de novo…
Eu tive muita “sorte” segundo os oficiais, por não ter sido deportado, pois só tive o meu visto cancelado e posso tirar outro em breve, ao contrario dos meus “companheiros de cela”, que foram deportados e tiveram o visto cassado por pelo menos 5 anos…o argentino talvez nunca mais rss…
Isso é só uma parte dos meus records que eu estou fazendo sobre tudo, eu vou terminar isso depois porque agora minha comida chegou e eu estou faminto, já faz 14 horas que eu não como, estou no avião voltando pra casa…
Ok, agora estou no Brasil, cheguei no aeroporto, não encontrei ninguém aqui pra me buscar, então terei que esperar mais uma hora pra eu poder pegar um ônibus pra Campinas, e ainda por cima resolver o problema das minhas malas que não vieram…Para completar minha viagem de sucesso, as minhas duas malas foram extraviadas e de inicio a Delta não queria se responsabilizar pois, isso é caso da imigração dos EUA etc…Depois de muito escândalo e ameaças eles cederam a responsabilidade que eles tinham para comigo caso não achassem as malas haveria uma indenização…No caso da minha passagem foi dito que eu perdi o meu dinheiro todo, mesmo que eu nem tinha chego à metade do meu destino final que era em Honolulu”.
R.M.B – 21anos
“Hoje foi o pior dia da minha vida…”
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