Autorização, omissões e alertas ignorados antecederam colapso bilionário
O colapso do Banco Master, liquidado após uma escalada de irregularidades financeiras, lançou luz sobre decisões e omissões ocorridas durante a presidência de Roberto Campos Neto no Banco Central, entre 2019 e 2024. Autorizado a operar naquele período, o banco controlado por Daniel Vorcaro expandiu de forma acelerada, acumulou dezenas de bilhões em captações e terminou no centro de investigações criminais, administrativas e judiciais.
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A autorização concedida ao Master marcou uma inflexão em relação à gestão anterior do Banco Central, quando pedidos semelhantes haviam sido negados. A licença surpreendeu integrantes do mercado financeiro diante do histórico empresarial de Vorcaro e do requisito formal de reputação ilibada para comandar instituições financeiras, critério previsto nas normas do próprio regulador.

Nos anos seguintes à autorização, o Master cresceu ancorado principalmente na emissão agressiva de CDBs, com taxas muito acima da média do mercado. Enquanto bancos tradicionais pagavam rendimentos próximos a 100% do CDI, o Master ofertava retornos que chegavam a 140%, atraindo investidores de varejo em massa. O volume desses títulos saltou de alguns bilhões para dezenas de bilhões de reais em poucos anos, sem que houvesse, na mesma proporção, ativos líquidos capazes de sustentar os compromissos assumidos.
Relatórios internos e comunicações do Banco Central identificaram, ao longo do tempo, desequilíbrios entre ativos e passivos, fragilidades nas provisões e práticas de gestão consideradas incompatíveis com o porte alcançado pela instituição. Mesmo assim, as intervenções se limitaram a sucessivos ofícios de alerta, sem a adoção de medidas restritivas mais duras. Paralelamente, Vorcaro manteve interlocução frequente com a cúpula do regulador, inclusive tratando de operações financeiras complexas e da expansão do grupo por meio da aquisição de outras instituições, que passaram a operar sob o mesmo modelo de captação.
Em 2024, a situação de liquidez do Master se deteriorou de forma mais evidente. Documentos internos já apontavam descumprimento de normas e fornecimento de informações inconsistentes ao supervisor. Ainda assim, a direção do Banco Central optou por conceder novo prazo para ajustes estruturais, mesmo diante de um passivo que se aproximava de 50 bilhões de reais em títulos a vencer. Pouco depois, com a mudança na presidência do BC, a crise se tornou insustentável e culminou na liquidação da instituição.
O caso também expôs tensões institucionais. O Fundo Garantidor de Créditos, responsável por proteger investidores em caso de quebra bancária, vinha alertando reiteradamente sobre os riscos sistêmicos do Master e o impacto potencial sobre seus próprios recursos. As advertências, porém, não se converteram em ações efetivas de contenção enquanto o banco seguia captando e ampliando sua base de investidores.
Com a prisão de Vorcaro e o avanço das investigações, surgiram conexões envolvendo agentes políticos, empresários e figuras do alto escalão institucional, ampliando o alcance do escândalo. Mais de um milhão de investidores foram afetados direta ou indiretamente, enquanto o custo da operação recaiu sobre mecanismos de proteção do sistema financeiro. O episódio transformou o Banco Master em um dos maiores casos recentes de colapso bancário no país e colocou sob escrutínio o modelo de supervisão adotado pelo Banco Central no período, bem como as responsabilidades administrativas e institucionais decorrentes das decisões tomadas ao longo dessa trajetória.




