
Empresário afirma ter transferido US$ 12,33 milhões ao fundo Havengate a pedido de Daniel Vorcaro; recursos seriam destinados à cinebiografia de Jair Bolsonaro, mas meses depois, tentou resgatar os valores e não encontrou o dinheiro.
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O empresário Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, afirmou em acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) que transferiu recursos para o fundo Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, acreditando que realizava um investimento solicitado por Daniel Vorcaro, então proprietário do Banco Master. Segundo o relato, o empresário não sabia que o dinheiro estaria relacionado ao financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Quando tentou recuperar os valores após o agravamento da crise do banco, disse não ter encontrado o dinheiro e passou a considerar a operação uma fraude.
O acordo de colaboração foi homologado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em setembro de 2026, conforme informações divulgadas pela imprensa. O caso envolve transferências internacionais, empresas ligadas a Vorcaro, uma estrutura financeira registrada no Texas e um fundo administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro (PL). A investigação busca esclarecer a origem dos recursos, sua destinação efetiva e as responsabilidades dos envolvidos.
Transferências ao fundo nos Estados Unidos
Freixo Junior era proprietário da Entre Investimentos e Participações, empresa utilizada nas transferências destinadas ao Havengate Development Fund LP, sediado no Texas. Segundo o relato do empresário, foram realizados sete repasses entre fevereiro e setembro de 2025, por meio de operações descritas como subscrição de cotas, que somaram US$ 12,333 milhões.
Reportagens anteriores também apontaram a possibilidade de outras transferências. A investigação procura esclarecer se os valores enviados ao exterior foram efetivamente destinados à produção cinematográfica, quem recebeu os recursos e se houve outras finalidades para o dinheiro.
Uma reportagem da revista piauí revelou que uma minuta inicial de suposto acordo de patrocínio previa o envio dos recursos à produtora Go Up, no Brasil. Posteriormente, os pagamentos teriam sido direcionados ao fundo norte-americano. A mudança de destino é um dos pontos que exigem esclarecimento documental, especialmente quanto aos responsáveis pela decisão e às condições contratuais que justificaram a operação.
O The Intercept Brasil já havia publicado documentos sobre transferências da Entre Investimentos para o Havengate, incluindo uma ordem de pagamento de US$ 2 milhões em fevereiro de 2025. O veículo também informou que o fundo havia sido criado para captar recursos para um empreendimento imobiliário no Texas que não chegou a ser executado.
Quem administra o Havengate
O Havengate Development Fund LP aparece vinculado à Havengate Development Fund GP LLC, empresa registrada no mesmo endereço comercial em Dallas utilizado pelo escritório do advogado Paulo Calixto. Documentos societários citados em reportagens apontam Calixto e o corretor de imóveis Altieris Santana como integrantes da estrutura empresarial.
Calixto é advogado ligado a Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos. Essa relação profissional e a administração do fundo colocaram a estrutura no centro das perguntas sobre o destino dos recursos destinados ao filme.
O histórico imobiliário do Havengate também é relevante para a apuração. Segundo o The Intercept Brasil, o fundo havia sido utilizado para oferecer participação em um projeto chamado Havengate Community, empreendimento estimado em US$ 21,1 milhões que não saiu do papel. A existência desse histórico não comprova irregularidade nos repasses posteriores, mas torna necessário esclarecer como a estrutura passou a receber recursos relacionados à produção cinematográfica.
Flávio Bolsonaro prometeu prestar contas
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, afirmou que o dinheiro solicitado a Vorcaro seria destinado à produção de Dark Horse e negou irregularidades. Segundo informações divulgadas anteriormente, o parlamentar prometeu apresentar uma prestação de contas dos recursos em maio de 2026, mas, conforme o material de origem, não apresentou o detalhamento anunciado.
Um dos pontos centrais é a escolha do Havengate, nos Estados Unidos, como destino dos pagamentos, em vez da transferência direta para a produtora Go Up, prevista na minuta inicial mencionada pela revista piauí.
A apuração precisa esclarecer quem determinou a mudança, qual era o vínculo contratual entre a produtora e o fundo, quem tinha controle sobre os valores e quais despesas foram efetivamente pagas com o dinheiro. Até que esses documentos sejam examinados, não é possível concluir que os recursos tenham sido desviados nem atribuir responsabilidade criminal a qualquer pessoa apenas com base na estrutura das transferências.
Reportagem publicada pelo UOL em outubro informou que a Polícia Federal solicitou cooperação internacional às autoridades norte-americanas para rastrear recursos relacionados ao financiamento do filme. A diligência é importante porque o dinheiro passou por estruturas financeiras no exterior, cuja movimentação depende de informações bancárias e societárias que não estão integralmente disponíveis no Brasil.
Delator relata movimentação de R$ 1,3 bilhão em espécie
Além das transferências relacionadas ao filme, Freixo Junior descreveu na colaboração premiada uma suposta operação de obtenção e entrega de dinheiro vivo para Daniel Vorcaro e pessoas indicadas pelo banqueiro.
Segundo o empresário, sua função era “gerar” dinheiro em espécie. Ele afirmou ter movimentado aproximadamente R$ 1,3 bilhão em cerca de dois anos e meio, com entregas realizadas em malas que continham entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão.
De acordo com o relato, os pedidos chegavam inicialmente por mensagens de WhatsApp enviadas por Vorcaro. Posteriormente, Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, e Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, também teriam encaminhado solicitações.
O empresário afirmou que acionava operadores e realizava transferências bancárias para empresas indicadas por eles. Esses operadores, segundo a versão apresentada à PGR, obtinham as cédulas por meio de contatos no Brás, região central de São Paulo, e no setor de combustíveis.
Uma das empresas mencionadas pelo delator seria uma distribuidora de combustíveis que, segundo ele, já havia aparecido na Operação Carbono Oculto. A eventual conexão entre as operações precisa ser demonstrada por documentos e diligências específicas, sem presumir que a presença de uma empresa em outra investigação comprove participação nos fatos relatados.
Entregas eram combinadas por mensagens
Freixo Junior afirmou que as entregas eram combinadas para ocorrer no mesmo dia, com o objetivo de evitar que grandes quantias permanecessem armazenadas. Segundo o relato, os encontros aconteciam no estacionamento subterrâneo do prédio da Entre Investimentos, na rua Iguatemi, no Itaim Bibi, ou na garagem do edifício onde Zettel morava, também na região. O empresário declarou que os operadores recebiam 4% dos valores movimentados e que ele próprio ficava com 1% pelo serviço.
Se confirmados, os fatos descritos exigirão a identificação dos destinatários finais, da origem dos recursos, das empresas utilizadas nas transferências e da natureza dos pagamentos. O volume informado pelo colaborador é expressivo, mas sua confirmação depende do cruzamento da narrativa com extratos bancários, registros de comunicação, documentos fiscais e outros elementos de prova.
A colaboração premiada é um instrumento de investigação, não uma sentença. As declarações do delator precisam ser confrontadas com provas independentes, e eventuais benefícios concedidos ao colaborador não eliminam a necessidade de demonstrar cada fato atribuído aos investigados.
Defesa de Vorcaro questiona acordo
Segundo as informações fornecidas na reportagem de origem, a defesa de Daniel Vorcaro pediu acesso ao expediente da colaboração e a anulação da homologação do acordo, mas ainda não havia obtido resposta do ministro André Mendonça até o momento relatado.
O advogado Marco Petrelluzzi, que representa Freixo Junior, foi procurado pela reportagem de origem e informou que não poderia se manifestar.
A defesa de Flávio Bolsonaro sustenta que os recursos solicitados tinham como finalidade financiar o filme e nega irregularidades. As versões apresentadas pelos envolvidos devem ser confrontadas com a documentação financeira e os resultados das diligências em andamento.
O caso reúne duas frentes que precisam ser examinadas separadamente: a movimentação de dinheiro em espécie descrita pelo colaborador e as transferências internacionais destinadas ao Havengate. A eventual conexão entre elas, a origem dos recursos e sua destinação final dependem de comprovação pelas autoridades responsáveis.
A investigação também envolve interesses empresariais e relações profissionais que passam por estruturas financeiras no Brasil e nos Estados Unidos. A análise dos contratos, dos beneficiários das transferências e dos registros bancários será determinante para esclarecer se os pagamentos corresponderam às finalidades declaradas ou se houve utilização dos recursos para outros fins.


