Indicação de candidatura reacende casos de peculato, lavagem e negócios da família em meio à prisão de Jair Bolsonaro
Com o ex-presidente Jair Bolsonaro preso na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, a extrema direita definiu nesta sexta-feira (5) o nome de seu sucessor para a eleição de 2026: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A escolha foi confirmada pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e comunicada diretamente a aliados como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. A decisão abre a pré-campanha mais polarizada desde 2018 e, paralelamente, resgata um dossiê de escândalos políticos, patrimoniais e criminais que segue sem respostas definitivas.
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O anúncio mobiliza não apenas o eleitorado bolsonarista, mas um histórico de investigações sobre o primeiro filho de Jair Bolsonaro. Desde o início da carreira como deputado estadual, Flávio estruturou uma base de gabinete na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) que se tornou alvo de denúncias de peculato e lavagem de dinheiro por meio das chamadas “rachadinhas”. Ex-assessores, incluindo o policial militar Fabrício Queiroz, foram identificados como operadores de movimentações suspeitas detectadas por órgãos de controle.
A partir de 2016, o gabinete passou a empregar nomes ligados a investigados do submundo carioca. Entre eles, parentes de Adriano da Nóbrega — chefe do chamado Escritório do Crime, morto pela polícia na Bahia em 2020. Documentos oficiais relacionaram parentes do miliciano a cargos no gabinete de Flávio, o que ampliou questionamentos sobre a influência política da milícia na estrutura do parlamentar.
Com a eleição para o Senado, em 2018, outra frente ganhou destaque: os negócios privados. O senador e seu sócio operaram uma franquia da Kopenhagen, a Bolsotini Chocolates e Café, em um período no qual houve entradas atípicas de dinheiro em espécie. A hipótese investigativa apontava uso do empreendimento para acomodar valores desviados da Alerj. A loja foi vendida em 2021, justamente quando o Ministério Público tentava avançar em quebras de sigilo e cruzamento de notas fiscais.
Outro capítulo controverso surgiu no mesmo ano: a compra de uma mansão no Lago Sul, área mais valorizada de Brasília, avaliada em aproximadamente R$ 6 milhões. O imóvel foi adquirido com condições de financiamento consideradas incompatíveis com o patrimônio e a renda pública do senador. A origem dos valores aplicados no negócio se tornou foco de investigação, envolvendo buscas por contratos, comprovantes bancários e tributários.
Apesar da fortuna política do sobrenome que carrega, Flávio acumula vitórias judiciais que limitaram o avanço de investigações. Decisões no STJ e no STF anularam etapas de quebra de sigilos bancários e fiscais, reduziram o alcance de provas e enfraqueceram denúncias do Ministério Público. Parte do processo foi arquivada, outra aguarda redistribuição ou nova autorização judicial para prosseguir. Na prática, o inquérito não foi encerrado; apenas perdeu seu eixo probatório central.
Agora, com Jair Bolsonaro impedido de disputar cargos e conduzindo articulações a partir da prisão, Flávio herda a tarefa de manter o projeto político da família. Ele já sinaliza que terá palanques robustos em São Paulo, com Tarcísio, e no Rio de Janeiro, com Cláudio Castro. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro deve concorrer ao Senado pelo Distrito Federal, ampliando o domínio familiar sobre a chapa.
Em declaração nas redes sociais, o senador assumiu a “missão de dar continuidade ao projeto de nação” iniciado pelo pai. A frase reacendeu o debate eleitoral e financeiro: investidores reagiram com forte volatilidade, alertando que a disputa de 2026 tende a seguir marcada por incerteza institucional.
“rastros do dinheiro e da milícia”
A pré-candidatura coloca novamente sob holofotes quatro pontos ainda em aberto:
– extratos e contratos da franquia Bolsotini, que podem revelar inconsistências entre volume de vendas e depósitos em espécie;
– vínculos funcionais e financeiros entre o gabinete da Alerj e familiares de Adriano da Nóbrega;
– escrituras, financiamentos e declarações tributárias que expliquem a origem do dinheiro usado na compra da mansão de Brasília;
– decisões do STF e do STJ que restringiram provas e podem ser revertidas caso surjam novos elementos, permitindo reabertura de trechos do inquérito.
A candidatura de Flávio Bolsonaro, mais do que uma escolha partidária, reabre uma investigação que passa pela política, pela economia, pelo crime organizado e pelo patrimônio da família. Com o líder do grupo atrás das grades, a próxima etapa dependerá de quanto ainda há a ser revelado sobre o filho que agora pleiteia o comando do país.




