Operação Zona Cinzenta investiga aplicação temerária de recursos públicos em banco liquidado pelo BC e cumpre mandados em Macapá
A Polícia Federal deflagrou na manhã desta sexta-feira (6) a Operação Zona Cinzenta para desarticular um suposto esquema de má gestão e irregularidades no Regime Próprio de Previdência Social do Estado do Amapá (RPPS/AP). A ofensiva foca no rastro de R$ 400 milhões retirados das contas previdenciárias dos servidores estaduais e aportados em Letras Financeiras do Banco Master. A instituição financeira foi liquidada pelo Banco Central em novembro passado após a constatação de uma crise terminal de liquidez, deixando investidores e entes públicos em um prejuízo iminente.
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A apuração aponta que a decisão de alocar quase meio bilhão de reais em títulos do banco agora extinto ignorou alertas de risco e diretrizes de prudência financeira. Os investigadores buscam entender por que o comitê de investimentos do Amapá deu luz verde para uma operação considerada de alto risco com dinheiro destinado à aposentadoria de milhares de trabalhadores. Quatro mandados de busca e apreensão foram cumpridos na capital amapaense por ordem da 4ª Vara da Justiça Federal.

Entre os alvos centrais da Polícia Federal estão figuras do alto escalão da previdência estadual. Jocildo Silva Lemos, presidente da instituição, é um dos investigados, ao lado de Jackson Rubens de Oliveira e José Milton Afonso Gonçalves, ambos membros do comitê de investimentos. Os agentes apreenderam documentos e dispositivos eletrônicos que podem revelar se houve pagamento de vantagens indevidas ou pressão política para que o aporte no Banco Master fosse realizado, mesmo com os sinais de instabilidade da instituição.
O Banco Master, que teve sua liquidação decretada pelo BC por não conseguir honrar compromissos básicos, tornou-se o epicentro de um terremoto financeiro que agora atinge em cheio o Amapá. A PF tenta identificar o destino final das comissões geradas por essas operações e se houve conivência de agentes públicos para facilitar a entrada do banco no portfólio de investimentos do estado. O inquérito segue sob sigilo, mas a suspeita é de que o rombo no patrimônio público possa ser irreversível se os mecanismos de recuperação de ativos não forem acionados rapidamente.
A rede de influência por trás do rombo previdenciário no Amapá
O rastro do dinheiro que levou ao aporte de R$ 400 milhões no liquidado Banco Master revela uma teia de conexões que vai muito além de uma simples decisão técnica de mercado. A apuração sobre a árvore genealógica política das nomeações no Amapá Previdência (Amprev) indica que o presidente da instituição, Jocildo Silva Lemos, e os membros do comitê de investimentos, Jackson Rubens de Oliveira e José Milton Afonso Gonçalves, ocupam posições estratégicas fruto de uma composição de forças entre o Palácio Setentrião e a Assembleia Legislativa do Amapá (ALAP).
Nos bastidores da política amapaense, o Amprev é historicamente visto como um “espaço de prestígio” para acomodar aliados de grupos que dominam o estado há décadas. Blogs de política local e comentários em redes sociais de servidores já apontavam, muito antes da Operação Zona Cinzenta, que a diretoria do fundo guardava lealdade a figuras centrais do cenário político, o que poderia ter fragilizado o rigor técnico necessário para gerir o patrimônio dos servidores. A escolha pelo Banco Master, agora extinto, levanta suspeitas de que a instituição financeira mantivesse lobistas operando intensamente junto a esses núcleos de poder no Norte do país.
O esquema de influência funciona em uma via de mão dupla: o governo estadual indica nomes de confiança para garantir a fluidez do caixa previdenciário, enquanto o Legislativo oferece o suporte político necessário para manter a estrutura intocada. Fontes ligadas à investigação da Polícia Federal agora cruzam as datas das nomeações com os períodos em que as Letras Financeiras foram emitidas pelo Banco Master. O objetivo é checar se houve uma “ordem superior” para que o fundo de previdência ignorasse as classificações de risco e injetasse o dinheiro no banco que já apresentava sinais de insolvência.
Além da conexão política, a PF investiga a relação dos gestores com empresas de consultoria financeira que costumam transitar livremente por Macapá. Essas empresas são suspeitas de atuar como “ponte” entre bancos de segunda linha e fundos de previdência estaduais e municipais, muitas vezes oferecendo vantagens que não aparecem nos balanços oficiais. Com a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, a pressão sobre os padrinhos políticos das nomeações aumentou, uma vez que o rombo de quase meio bilhão de reais ameaça diretamente a futura solvência do estado e a tranquilidade dos aposentados.




