Ação mira materiais que podem comprovar acusações de coação e operações clandestinas atribuídas a Sergio Moro
A Polícia Federal cumpriu ordem do Supremo Tribunal Federal e realizou, nesta quarta-feira (3), uma operação de busca e apreensão na 13ª Vara Federal de Curitiba, núcleo histórico da Lava Jato. A medida atende a um inquérito sigiloso que investiga suspeitas de que o então juiz Sergio Moro teria orientado o empresário Tony Garcia a produzir gravações ilegais contra autoridades ao longo de quase dez anos.
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O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, chamou atenção para o alcance da ordem judicial, ressaltando que a diligência só poderia ter sido determinada pelo Supremo porque envolve investigado com prerrogativa de foro. Em outubro, o ministro Dias Toffoli já havia autorizado uma varredura no acervo da Vara, após Garcia afirmar que documentos mantidos ali comprovariam práticas irregulares.

A operação autorizada em 6 de novembro permitiu à PF examinar processos físicos e digitais, mídias e pastas relacionados à atuação de Garcia, envolvido no caso Banestado desde 2004. Ele relatou ao STF ter atuado como “agente infiltrado” sob ordens diretas de Moro, realizando missões clandestinas, gravações ambientais e entregas de números telefônicos destinados a interceptações.
Segundo Garcia, seu acordo de colaboração foi condicionado a 30 “tarefas”, das quais apenas duas tinham vínculo com o processo pelo qual fora condenado. O restante, afirma, envolvia o monitoramento de autoridades com prerrogativa de foro — ministros, magistrados, parlamentares e figuras ligadas à Petrobras e ao PT.
Conversas apreendidas pela Operação Spoofing reforçam a linha de investigação: mensagens de procuradores mencionam o uso de Garcia em “flagrantes preparados”, além de comentários internos que indicam entusiasmo com sua participação. Em uma das conversas, Deltan Dallagnol se referiu ao empresário como “brinquedo novo”.
Moro classificou o inquérito como baseado em um “relato fantasioso”, afirmando não temer o acesso do Supremo aos processos que tramitavam em sua vara. Integrantes da antiga força-tarefa da Lava Jato também negam irregularidades e atribuem a ofensiva a tentativas de reescrever o histórico da operação.
O que a PF busca na 13ª Vara e o que pode vir à tona
A apuração identificou que a PF procura três tipos de evidências:
- Registros de infiltração informal — documentos que indiquem ações conduzidas sem autorização judicial formal, como relatórios de escutas ou compromissos de repasse de informações.
- Comunicações internas que possam comprovar articulação entre magistrado, procuradores e colaborador para atingir autoridades protegidas por foro.
- Mídias não catalogadas contendo dados produzidos por Garcia nos anos em que teria atuado sob orientação da Vara.
A reportagem levantou que a existência de material físico remanescente da época da Lava Jato preocupa investigadores, pois pode revelar métodos paralelos de obtenção de provas. Cruzamentos preliminares já indicam inconsistências entre os relatos oficiais de colaboração e a quantidade de tarefas atribuídas ao empresário.
Outra frente sensível é a possível conexão entre essas operações informais e litígios que ainda tramitam no STF envolvendo nulidades da Lava Jato. Caso documentos apreendidos confirmem coação ou manipulação de colaboração, novas contestações podem atingir decisões já anuladas e outras que permanecem com efeitos.
Bastidores da PF apontam que o tempo em que Moro deixou a magistratura pode ser decisivo: a cadeia de custódia dos materiais e quem manteve acesso aos arquivos após sua saída serão elementos centrais para definir responsabilidades.




