Selic a 15% trava crédito, pressiona empregos e amplia tensão entre Banco Central e setor produtivo
Por Sandra Venancio – Jornal Local
A decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central de manter a taxa básica de juros em 15% ao ano provocou reação imediata e negativa de setores estratégicos da economia. Representantes da indústria, da construção civil e do movimento sindical avaliam que o atual patamar da Selic aprofunda a desaceleração da atividade econômica, encarece o crédito e compromete a geração de empregos, em um momento de inflação em trajetória de acomodação.
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A leitura predominante entre empresários é de que o Banco Central ignora sinais consistentes de arrefecimento inflacionário ao sustentar uma das maiores taxas reais de juros do mundo. Para a indústria, o custo do dinheiro já ultrapassou o limite de sustentação do investimento produtivo, afetando desde grandes cadeias industriais até pequenas e médias empresas dependentes de financiamento.

A avaliação interna do setor industrial é de que a política monetária permanece excessivamente contracionista mesmo diante de indicadores que apontam convergência gradual da inflação para o centro da meta nos próximos anos. Com isso, o juro real segue vários pontos percentuais acima do nível considerado neutro, ampliando o hiato entre a política monetária e a dinâmica da economia real.
Na construção civil, o impacto é direto e imediato. Juros elevados reduzem o acesso ao crédito imobiliário, desestimulam lançamentos e comprometem a viabilidade financeira de novos projetos. O efeito em cadeia atinge fornecedores, empregos formais e a arrecadação municipal, especialmente em cidades médias e grandes, onde o setor é um dos principais motores da economia local.
Entidades do comércio adotaram um discurso mais cauteloso, reconhecendo que a decisão reflete o ambiente de incerteza fiscal e os riscos externos ainda presentes no horizonte. Ainda assim, há expectativa de que o comunicado do Banco Central traga sinais mais claros sobre quando e em que ritmo poderá começar um ciclo de redução dos juros, diante da perda de fôlego da atividade econômica.
Já as centrais sindicais elevaram o tom das críticas. A manutenção da Selic é vista como um fator estrutural de aprofundamento das desigualdades, ao encarecer o crédito ao consumo, pressionar o endividamento das famílias e limitar a criação de postos de trabalho. Internamente, lideranças sindicais também destacam o impacto fiscal da política monetária, que amplia significativamente o gasto público com juros da dívida, restringindo espaço para investimentos sociais e infraestrutura.
Nos bastidores, a decisão do Copom amplia o atrito entre o Banco Central e setores produtivos que defendem uma inflexão mais rápida da política monetária. Apesar disso, o comitê manteve a taxa básica no mesmo nível pela quinta reunião consecutiva, sustentando o maior patamar de juros desde meados dos anos 2000, em linha com a expectativa do mercado financeiro, mas em desacordo crescente com a economia real.
Por que os juros não caem
A manutenção dos juros em patamar elevado atende, em primeiro plano, à estratégia do Banco Central de preservar sua credibilidade institucional junto ao mercado financeiro, ancorando expectativas de inflação em um ambiente de incerteza fiscal.
Ao mesmo tempo, o patamar elevado da Selic favorece segmentos do sistema financeiro que operam com títulos da dívida pública, fundos de investimento e operações de curto prazo, altamente sensíveis à taxa básica.
Internamente, técnicos do BC também operam sob o risco da chamada “dominância fiscal”, quando a política monetária é usada como barreira preventiva contra a desconfiança dos investidores em relação às contas públicas. Na prática, o custo dessa estratégia recai sobre o crédito, o investimento produtivo e o emprego, enquanto os ganhos se concentram em agentes com maior capacidade de operar no mercado financeiro e capturar retornos elevados com baixo risco.




