Representante de Comércio dos EUA abre investigação que pode gerar sanções; movimentação política alimenta especulações sobre lobby de Eduardo Bolsonaro para criar cortina de fumaça e pressionar aliados
O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) anunciou, nesta terça-feira (15), a abertura de uma investigação comercial contra o Brasil a pedido direto do presidente Donald Trump. O procedimento foi oficializado por meio de um documento divulgado pelo governo norte-americano, em mais um capítulo de tensões econômicas entre os dois países.
A iniciativa acendeu alertas em Brasília e entre analistas políticos, que apontam a possibilidade de a medida ter respaldo de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo fontes próximas ao Itamaraty, a investigação pode ter sido estimulada por articulação de Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do ex-mandatário, como forma de desviar o foco de investigações internas que atingem o núcleo bolsonarista.
Na prática, a abertura da investigação pelo USTR permite aos Estados Unidos revisar práticas comerciais, barreiras tarifárias e subsídios do governo brasileiro. Caso o órgão conclua que há violação de acordos internacionais ou prejuízo a empresas americanas, o país pode impor tarifas adicionais, restringir importações ou exigir mudanças em políticas públicas brasileiras — o que, na visão de especialistas, representa uma forma de pressão econômica, mas não interfere diretamente na soberania nacional.
O governo brasileiro ainda não comentou oficialmente a hipótese de interferência política de Eduardo Bolsonaro. Para diplomatas ouvidos em condição de anonimato, a possibilidade de um parlamentar brasileiro estimular sanções do maior parceiro comercial do país para blindar investigações domésticas seria um ato grave, mas difícil de comprovar sem documentos formais.
Procurado, o gabinete de Eduardo Bolsonaro não respondeu até o fechamento desta edição. Integrantes do Planalto afirmam que aguardam detalhes do processo para definir a estratégia de resposta. Enquanto isso, empresários de setores como agronegócio, siderurgia e tecnologia já monitoram os impactos de uma possível escalada tarifária sobre exportações para os Estados Unidos — segundo maior destino de produtos brasileiros.
Apesar de não ter força legal para obrigar mudanças internas, uma sanção comercial americana pode atingir setores estratégicos e abrir nova frente de tensão entre Brasília e Washington. Para analistas, a decisão reforça o estilo de política externa agressiva de Trump, que costuma usar o comércio como instrumento de negociação geopolítica.
O processo agora entra em fase de consultas e audiências públicas, etapa que deve definir se haverá sanções ou contrapartidas exigidas do Brasil. Enquanto isso, cresce o debate sobre o uso político de investigações comerciais como arma para disputas internas — e o impacto dessa nova crise para a já delicada relação bilateral.
No caso do Brasil hoje, o que pode estar em jogo?
PIX: O sistema de pagamentos instantâneos, por si só, não costuma ser alvo de investigações do USTR, porque é uma infraestrutura pública, não uma barreira comercial direta. Porém, algumas Big Techs americanas podem reclamar de regras de pagamento digital, se entenderem que o Banco Central favorece bancos locais ou dificulta fintechs estrangeiras.
Dados de brasileiros: Essa é uma possibilidade mais concreta. Os EUA frequentemente questionam leis de proteção de dados e requisitos de armazenamento local (data localization). Se o Brasil exigir que dados de cidadãos brasileiros sejam guardados em servidores no Brasil, por exemplo, isso pode ser visto como barreira ao livre comércio digital. Gigantes como Amazon, Google e Meta têm interesse direto nesse tema.
Agronegócio e subsídios: Outro alvo provável são subsídios agrícolas — historicamente, EUA e Brasil já bateram de frente por causa de soja, carne, açúcar e etanol. Tarifas ou exigências ambientais mais duras também podem gerar conflito.
Políticas ambientais: Trump pode usar a investigação como desculpa para retaliar políticas de regulação ambiental ou restrições que afetam empresas americanas de energia ou mineração.
O PIX em si dificilmente é o centro da investigação, mas questões digitais, como exigências de armazenamento de dados, cibersegurança, ou regras que afetam Big Techs, podem estar sim na mira — junto com setores clássicos como agronegócio e mineração.




